A bala, o biscoito e a flor de lótus

De uma cena de infância à caminhada de luta pela paz protagonizada por um dos maiores líderes religiosos de nosso tempo, na crônica de Afonso Guerra-Baião.

Eu me lembro de um tempo em que as formas, as cores e os sabores dos produtos não estavam desvanecidos na entropia promovida pela sociedade de consumo. Dentro desse tempo, minha memória recorta um momento particular em que pedi a minha mãe uma bala; enquanto ela pegava essa bala, numa prateleira fora do meu alcance, eu me sentei a um canto, à espera; e recordo o sorriso de minha mãe, ao me ver ali, quieto, concentrado para o simples e pleno desfrute daquele instante.

Não, eu não estava sentado na posição de lótus, mas a imagem dessa postura, própria à prática da meditação, sempre me ocorre junto com a memória dessa cena. Tanto a postura quanto a cena me reconduzem a Thich Nhat Hanh, monge budista vietnamita que conheci através do livro “Vietnã, flor de lótus em mar de fogo”, da Editora Paz e Terra. Entre permanecer meditando no mosteiro ou ajudar seu povo que sofria sob o bombardeio e outras devastações perpetradas pelo exército norte-americano, Nhat Hanh foi um daqueles que escolheram fazer as duas coisas, ajudando a fundar o movimento de “budismo engajado”. No Vietnã ele criou uma organização assistencial de base popular que reconstruiu vilarejos bombardeados, fundou escolas e centros médicos, restabeleceu famílias sem lar e organizou cooperativas agrícolas. No exterior, Thich persuadiu Martin Luther King a se opor publicamente à Guerra do Vietnã, ajudando, dessa forma, a reanimar o movimento pela paz. No ano seguinte, Luther King o indicou para o Prêmio Nobel da Paz e, depois disso, Nhat Hanh liderou a Comissão Budista nas Conferências pela Paz em Paris.

A cena da bala me permite a intertextualidade com este texto de Thich Nhat Hanh que encontro agora em seu livro “Paz a cada passo”, da Editora Rocco:

“Quando eu tinha quatro anos de idade, minha mãe costumava me trazer um biscoito cada vez que voltava do mercado para casa. Eu ia então para a frente de casa e levava um bom tempo para comê-lo, às vezes meia hora ou quarenta e cinco minutos para um biscoito. Eu dava uma mordidinha e olhava para o céu. Depois, roçava o cachorro com meus pés e dava mais uma mordidinha, Eu simplesmente gostava de estar ali, com o céu, a terra, os bambuzais, o gato, o cachorro, as flores. Conseguia agir assim porque não tinha muito com queme preocupar. Não pensava no futuro, nem lamentava o passado. Estava inteiramente no momento presente, com meu biscoito, o cachorro, os bambuzais, o gato e tudo o mais.”         

E Thich Nhat Hanh conclui: “Talvez você tenha a impressão de ter perdido o biscoito da sua infância, mas eu tenho certeza de que ele ainda está aí em algum canto do seu coração. Tudo ainda está aí”.

Recentemente, em grupo de estudo online sobre comunicação não violenta, promovido pelo Coletivo Artístico Interser, revisitamos os princípios que guiaram os 95 anos de caminhada de Thich Nhat Hanh nesse mundo, uma trilha feita de paz a cada passo. PAZ  A CADA PASSO, um de seus livros, parece desvelar um elo entre o Vietnã e o Brasil, como observa Odete Lara no prefácio, elo formado pela analogia entre o sofrimento vivido por seu povo na guerra e a situação trágica que nós brasileiros temos vivido nos últimos anos.