Árvore da Páscoa

Pensei em escrever um texto sobre páscoa. Mais que pensei, senti a necessidade de desenvolver esse tema de superação, de transformação, de ressurreição, num momento em que, diante de um quadro generalizado de guerras e conflitos, temos motivos para temer a morte e, ainda mais, a vida infestada de preconceitos e ódio. 

Mas para escrever algo que fosse mesmo um texto e não mero monte de clichês, um rosário de lugares comuns e repetições, eu precisava de imagens cujo simbolismo eu pudesse transfigurar em palavras. E, buscando, encontrei uma imagem: a imagem da árvore.

Primeiro eu a encontrei em versos de Rainer Maria Rilke: 

“O espaço, fora de nós, ganha e traduz as coisas: / Se queres ganhar a existência de uma árvore, / Reveste-a de espaço interno, / Esse espaço que tem seu ser em ti.”

Depois, a força simbólica da árvore me chegou através das palavras de um filósofo, Gaston Bachelard, que reforçam os sentidos que li em Rilke: “A árvore nunca se estabelece como ser acabado. Ela tem sempre um destino de grandeza. Esse destino ela o propaga. A árvore faz crescer tudo o que a rodeia.”

Encontrada a imagem, por graça dessas leituras, eu entrei no jogo das palavras, chegando a esse poema que posto aqui como um texto de Páscoa:

ÁRVORE

A árvore soletra em floração

a mensagem do mistério

que as raízes estudam no chão.

A árvore fala nos frutos

os sentidos que as sementes

plantarão no mundo.

A árvore guarda no silêncio

das copas fechadas o segredo

que se espalha ao vento.

Afonso Guerra-Baião