A letra da Felicidade

Resolveu dar uma volta para recarregar a bateria do carro, há tantos dias na garagem; também para fugir um pouco daquela prisão domiciliar imposta pela pandemia, aquecer o espírito e turbinar a mente para dar conta do texto com que se comprometera e que relutava em vir à luz. Nada melhor que ouvir música enquanto dirigia pelas ruas desertas de uma quase cidade fantasma. Numa playlist que tinha de tudo, de clássicos ao rap, o Spotify selecionou Astrud Gilberto cantando “A felicidade”, de Tom e Vinícius. De volta para casa, depois de muitas ruas e várias canções, ainda lhe martelava na cabeça o refrão daquela letra: “Tristeza não tem fim, felicidade sim”. Se a felicidade acaba, ele filosofou já em seu ambiente de trabalho, é porque ela existe por algum tempo – e, se ela existe, a tristeza tem fim nesse momento? Sem olhar, pegou na estante um livro e o abriu ao acaso, bem na frase final de uma história de amor: “Foram infelizes e felizes, misturadamente”. Era um conto de “Tutaméia”, em que Guimarães Rosa, mais uma vez, dribla o lugar comum e contraria a expectativa conservadora. Sim, ele pensou, felicidade e infelicidade vão e voltam, são provas qualificadoras que se alternam no programa narrativo dos viventes. Sentiu que a letra da canção o conduzira a um jogo intertextual.

Entrando no jogo, fechou os olhos e só os abriu depois de sua mão sortear na estante um livro, uma página e uma linha. Lá estava escrito: “Só é feliz aquele que perdeu toda esperança”. Era um verso do “Mahabharata”, o épico indiano, presente de uma amiga, que aconselhara lê-lo como se jogasse o I Ching, deixando que a sorte determinasse as páginas e os hexagramas a serem meditados. Era a primeira vez que se deparava com esse tópico. Não se acomodou enquanto não falou com a amiga e ouviu sua interpretação. Ela começou lembrando o poema de Manuel Bandeira que diz assim: “…a leve esperança, a aérea esperança… Peso mais pesado não existe não. Ah, livrai-me dele, Senhor Capitão”. Perder a esperança, continuou a amiga, é deixar de esperar o que pode acontecer, é fazer o seu melhor aqui e agora. E concluiu: quem sabe faz a hora.


Desligando o telefone ele bateu os olhos na capa de outro livro, emprestado por um colega. A capa estampava um título que o assustara, tanto que ainda não quisera nem mesmo folheá-lo: “O sucesso é ser feliz”. O sucesso como sujeito, a felicidade como seu predicativo: a estrutura sintática dessa frase lhe parecia absurda, inaceitável.
Ele pensou em parar com aquele jogo, temendo que um lance errado quebrasse a magia do campo semântico aberto pela letra de “Felicidade”. Saiu de perto da estante, sentou-se à mesa, abriu o notebook. Na página inicial da UOL deparou com a notícia da morte do psicanalista Contardo Calligaris, cuja coluna ele lia sempre. Numa de suas crônicas, Calligaris dizia: “Não quero ser feliz, quero ter uma vida interessante”. Fechou o notebook, pensativo: é possível ter uma vida interessante na pandemia? Que interesse tem a vida sem as viagens, sem as festas, sem os espetáculos, sem a convivência com os amigos? Então percebeu que o jogo continuava, à sua revelia: ao se voltar, deu de cara com “A arte de ser feliz”, o livro de crônicas em que Cecília Meireles fala das pequenas “felicidades certas, que estão diante de cada janela”. Elas existem, garante a poetisa, advertindo que “é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim”.

Afonso Guerra-Baião