É um Rio que passa em nossa vida: os elos entre Curvelo e o carnaval carioca

Por NEWTON VIEIRA*

Chegou o carnaval. Apesar de a folia ter sido cancelada, em face da crise sanitária decorrente da pandemia da covid-19, o período do reinado de Momo está aí. Este ano, os foliões estaremos em um único bloco: o da lembrança de outros carnavais. As cores das escolas terão menor peso. Haverá apenas a torcida por dias melhores, sem os ataques mortais de um inimigo invisível: o novo coronavírus.

Não é a primeira vez que se adia ou se cancela o carnaval, pelo menos no Rio de Janeiro. Isso já havia ocorrido em 1912. A morte de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, causou enorme comoção, e não faltou quem pressionasse as autoridades para que adiassem o evento.  Informa Rafael Cardoso que a maioria das agremiações e sociedades carnavalescas concordou com o adiamento da festança. “Houve tentativas de fazer um carnaval fora de época, mas tampouco vingaram. Em compensação, o carnaval de 1913 foi um dos maiores e mais animados de todos os tempos”, relata o escritor.

De qualquer modo, mesmo com as ruas vazias, convém entrar no clima, sem perder o otimismo, na certeza de que, em 2022, viveremos momentos inesquecíveis. E o melhor: com a saúde preservada.

Então aproveito para discorrer sobre o impressionante elo entre Curvelo e o Rio de Janeiro em se tratando de carnaval.

Vocês sabiam que um curvelano venceu vários concursos de fantasia no carnaval do Rio?

Vocês sabiam que um irmão do Marquês de Sapucaí, nome vinculado ao sambódromo carioca, morou e teve importante atuação em Curvelo?

Vocês sabiam que um curvelano esteve à frente da construção da passarela do samba da Marquês de Sapucaí?

Vocês sabiam que Paulinho da Viola, para compor o clássico samba “Foi um rio que passou em minha vida”, inspirou-se numa obra em que personalidades e fatos de Curvelo figuram em destaque?

Pois é. Essas e outras histórias vão desfilar agora sob seus olhos. Continuem a leitura.

FANTASIAS PREMIADAS

Desenhista, cenógrafo e figurinista, o curvelano Alceu Penna (1915-1980), pioneiro na ilustração de capas de disco, segundo Egeus Laus, especialista no assunto, é também considerado o pai da moda brasileira.

Respeitado no contexto internacional, chegou a trabalhar nos Estados Unidos, a convite de Walt Diney (1901-1966). Durante sua estada em solo norte-americano, entre 1939 e 1941, estreitou laços com a amiga Carmen Miranda (1909-1955) e influenciou na vestimenta e no estilo da cantora luso-brasileira.

Já na década de 1930, Alceu ganhava concursos de fantasia no Rio. Com isso se notabilizou. Inventava as fantasias das mulheres da alta sociedade carioca. Ditava o que vestir no reinado de Momo. A propósito, Maria Claudia Bonadio e Maria Eduarda A. Guimarães, no estudo “Alceu Penna e a construção de um estilo brasileiro: modas e figurinos”, são categóricas ao afirmar: “(…) será nas fantasias de carnaval que Alceu Penna irá, de maneira mais efetiva, criar uma imagem de Brasil no universo da moda”.

Em 1935, Alceu obteve três premiações no concurso das melhores fantasias de carnaval para corso, baile e rua promovido pelo Departamento de Turismo da Prefeitura do Rio de Janeiro. Em 1936, foram cinco premiações para fantasia no mesmo certame, durante evento no salão nobre do Palace Hotel. Graças ao seu enorme talento criador, o artista não parou mais. Sucesso contínuo. Em 1965, por exemplo, para festejar o IV Centenário do Rio, que coincidiu com o assim apelidado “Carnaval do Século”, caindo exatamente na “segunda-feira gorda”, Alceu Penna apresentou, na revista “A cigarra”, uma série de fantasias. “Mais bonitas do que nunca”, acentuaria reportagem da época.

O IRMÃO DO MARQUÊS

A via pública onde se edificou a passarela do samba do Rio de Janeiro, a Avenida Marquês de Sapucaí, é uma homenagem a Cândido José de Araújo Viana, (1793-1895), desembargador e político, ministro e conselheiro de Estado. Seu irmão, o padre doutor José Júlio de Araújo Viana, morou alguns anos em Curvelo e costumava enviar-lhe, dos sertões rosianos para a Corte, dados preciosos sobre fatos e pessoas da então vila. Sim, este torrão permaneceu vila até 1875, quando o distrito-sede do Município seria elevado à categoria de cidade pela Lei 2.153.

Em Curvelo, o padre José Júlio, além de titular da Freguesia (Paróquia) de Santo Antônio (1845-1849) e membro da mesa administrativa da Irmandade mantenedora da Santa Casa, exerceu a função de vereador e ocupou a Vice-Presidência da Câmara de 1853 a 1856.

Depois de sérias contendas políticas, esse irmão do Marquês de Sapucaí mudou-se para outra região. Diziam os historiadores – Juvenal Pereira Soares era um deles – que o clérigo teria batido os sapatos, imitando dona Carlota Joaquina, a fim de não levar consigo nem a poeira do lugar.

A CONSTRUÇÃO DO SAMBÓDROMO

O sambódromo da Marquês de Sapucaí, depois oficialmente denominado “Passarela do Samba Professor Darcy Ribeiro”, numa homenagem ao antropólogo e escritor montes-clarense que o idealizou, baseou-se em projeto da autoria de Oscar Niemeyer. A construção se deu durante o primeiro governo fluminense de Leonel Brizola (1983-1987). As escolas de samba passaram a desfilar no local em 1984, ano em que a Estação Primeira de Mangueira, com o antológico “Yes, nós temos Braguinha”, ao chegar à Praça da Apoteose, deu meia-volta e desfilou de trás pra frente, rumo à concentração, para delírio da plateia torcedora da Verde e Rosa. Foi igualmente um ano singular para a Portela, que exaltou Clara Nunes, mineira da quase vizinha Caetanópolis, no magnífico enredo “Contos de areia”. Quem não conhece a letra? “É cheiro de mato/ É terra molhada/ É Clara Guerreira/ Lá vem trovoada”. Naquela época, o país ainda respirava os ares do regime militar. Em nome da segurança nacional, os prefeitos das capitais e das estâncias hidrominerais não eram eleitos; eram nomeados pelo governador. Então Leonel Brizola colocou Marcelo Alencar no comando da Prefeitura do Rio, e este nomeou o curvelano Arnaldo Mourthé secretário municipal de Planejamento e Coordenação Geral. A execução da obra da passarela do samba ficou a cargo do Município e, na linha de frente dessa empreitada, o brilhante Arnaldo Mourthé. “Foram tempos difíceis. Muita gente contra o projeto. Mesmo depois da inauguração, vários setores da mídia atacavam a obra. Mas deu tudo certo. Provamos que, do ponto de vista econômico, foi a melhor coisa a ser feita para o carnaval do Rio. Acabando com o ‘monta-desmonta’ da estrutura, conseguimos quitar as despesas da construção do sambódromo, digamos, em dois carnavais e meio”, esclareceu o ex-secretário Arnaldo em bate-papo comigo. Engenheiro-civil e de transporte, Arnaldo Mourthé militou no movimento estudantil e na Organização Política Operária (Polop). Preso e condenado por subversão, teve de viver no exílio a partir de 1968, empreendendo fuga descrita em detalhes no recém-publicado livro “Memórias de filhos de exilados políticos” (Editora Mourthé). Voltou para o Brasil em 1979. É o autor de “A crise” e “História e colapso da civilização”, dentre outras obras relevantes.

“UM ANJO FEITO MULHER”

Zuleika Angel Jones (1921-1976), a Zuzu Angel, nasceu em Curvelo, fruto do casamento de Pedro Netto (poeta dos bons, diga-se de passagem) com dona Francisca Gomes Netto. Grande estilista de renome internacional. Considerada “Mãe da Moda Brasileira”. Teve os filhos Stuart Angel Jones (1946-1971), militante político, e Hildegard Angel, jornalista e colunista social.

Zuzu costumava dizer que preferia sair no CN (Curvelo Notícias)  a sair no New York Times.

De Chico Buarque de Holanda recebeu, em “Angélica”, comovente homenagem em forma de canção: “Quem é essa mulher/ Que canta como dobra um sino/ Queria cantar por meu menino/ Que ele já não pode mais cantar”.

Em 2006, a genial curvelana teve sua trajetória contada em filme dirigido por Sérgio Rezende e estrelado por Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Camilo Bevilacqua, Luana Piovani e Leandra Leal.

Mas aqui quero lembrar 1988, ano em que Zuzu foi tema da Escola de Samba Em Cima da Hora, do Rio de Janeiro, com o enredo “Quem é você, Zuzu Angel? Um anjo feito mulher”, trabalho de Ernesto Nascimento e Actir Gonçalves. Representando a terra natal da estilista, acompanharam o desfile na Marquês de Sapucaí, no camarote do então prefeito carioca, Luiz Paulo Conde (1934-2015), o então prefeito de Curvelo, doutor Sebastião Nagib Salomão Filho (com dona Alice), o secretário de Assuntos Municipais, Aroldo Pinto de Moura Filho, o presidente da Câmara de Vereadores, Licínio Dayrell Filho (com Helen) e o jornalista Raimundo Martins dos Santos, mais conhecido como Diquinho, casado com Frida, sobrinha de Zuzu.

A letra do samba-enredo que embalou os componentes da Em Cima da Hora era a seguinte:

“Vindo de Curvelo, a mais bela

Encantando a passarela

Ditando moda neste meu Brasil

Inspirada no Nordeste

Nos irmãos cabra da peste

Orgulho Varonil

“Soldados bordados em rendas

Tanques de guerra

Mostravam o sofrimento dessa terra

“O prêt-à-porter não foi brincadeira

Até Nova Iorque virou onda brasileira (bis)

“Oh! Pátria mãe, taí esse nó na garganta

Quero só democracia

Dei-me um fio de esperança

Ditadura nunca mais

Me lembro das torturas, que horror

Quantas noites acordada

Procurando o seu grande amor

“Oh! Sereia

Clareia o fundo do mar

Traz o meu anjo de volta

Pra que eu possa embalar

“Igualdade sim, violência não

Deixa a luz da consciência

Invadir teu coração

Igualdade sim, violência não

A Em Cima da Hora é nossa

Liberdade de expressão”.

No carnaval de 2010, Zuzu Angel foi novamente homenageada na Marquês de Sapucaí, desta vez ao lado de estilistas do quilate de Alexandre Herchcovitch, Lenny Niemeyer e Lino Vilaventura, quando a Escola de Samba Unidos do Porto da Pedra, evocando Noel Rosa, apresentou o enredo “Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?”, do pra lá de talentoso carnavalesco Paulo Menezes. Valesca Santos, a Popuzuda, reinou à frente da bateria “Ritmo Feroz”, e Luizinho Andanças interpretou o hino da agremiação, composto por Bira, Porkinho e Heitor Costa. Eu estava na plateia naquele 15 de fevereiro, segunda-feira, e, embora seja portelense dos quatro costados, deixei-me cair nas garras do Tigre de São Gonçalo. Cantei o tempo todo: “Porto da Pedra eu sou/ Eu sou o amor desta cidade/ Pro samba que você me convidou/ Eu vou vestir felicidade…”. Em 38 alas e bem-acabadas alegorias, Paulo Menezes expôs a história da indumentária e as principais tendências da moda, do período em que que a humanidade era ágrafa ao hodierno, passando pela Antiguidade Clássica, a Idade Média e a Renascença.

“EXPLODE, CORAÇÃO”

Se houve quem saísse de Curvelo para, de algum modo, influenciar o carnaval do Rio de Janeiro, também houve forte influência da folia carioca na festa momesca curvelana.

Na terra de Delém, autor do livro histórico “Pedacinhos coloridos de saudade” (editora Armazém de Ideias, 1996), do qual me orgulho de ser personagem, escolas de samba foram criadas, estruturadas e desfilaram, na Praça Benedito Valadares e Avenida Dom Pedro II, sob a inspiração de Mangueira, Portela, Imperatriz Leopoldinense, Império Serrano, Unidos da Tijuca e Mocidade Independente de Padre Miguel. A influência se faz perceptível a partir das denominações.

Delém estudou a origem de Unidos do Perobinha, Unidos do Butantã (Denise I), Unidos do Tibira, Unidos do Verde e Branco (Clube Recreativo), Unidos do Curvelo Clube, Boca Branca, Unidos do Maria Amália, Império Verde e Branco (Bela Vista), Unidos da Praça de Esportes (Mutirão do Samba) e mostrou que nessas agremiações, como também nos blocos Caricatura da Vida e Mocidade Independente do Ziriguidum, guardadas as proporções, havia a mesma estrutura das incensadas campeãs da Marquês de Sapucaí.

Nem teria como ser diferente. As escolas de samba cariocas serviram e servem de modelo para as congêneres em todo o país.

Em 1989, primeiro ano de mandato do prefeito doutor José Alves Viana, a cidade apelidou seu carnaval de “Explode, coração” Ainda existem exemplares das camisetas confeccionadas na época. A frase curta (que coincidência!), clímax de “Não dá mais pra segurar”, belíssima canção de Gonzaguinha, viria a ser o verso inicial do refrão de “Peguei um ita no Norte”, samba-enredo da Acadêmicos do Salgueiro, vitoriosa no campeonato de 1993. Verdadeiro estouro. Quem nunca cantou ou ouviu cantar: “Explode, coração/ Na maior felicidade/ É lindo o meu Salgueiro/ Contagiando, sacudindo esta cidade”?

Em tempo recente, o carnaval de rua de Curvelo começou a ser reabilitado pelo prefeito Maurílio Guimarães. Blocos foram criados com o incentivo do poder público, da imprensa e da empresa EB Produções e Eventos, do diretor-executivo Glauco Santos. O povo teve a sensação de pertencimento e abraçou a iniciativa. Entre esses novos blocos, um recebeu o nome de “Mamãe, eu quero”, nítida alusão à marchinha de Vicente Paiva e Jararaca, lançada no carnaval do Rio de 1937 e cantada até hoje não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Nos Estados Unidos, na voz da citada Carmen Miranda, no filme “Serenata tropical” (1940), virou “I whant my mama”. Conquistou o público. Por causa disso, a Pequena Notável ganharia impagável imitação de Jerry Lewis em “Morrendo de medo” (“Scared stiff”, 1953), refilmagem de “Castelo sinistro”, originalmente “The ghost  breakers”.

Com justa razão, especialistas asseguram que “Mamãe, eu quero” forma com “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, e “Garota de Ipanema”, de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, o “triunvirato”, por assim dizer, das músicas brasileiras mais conhecidas no exterior. 

“FOI UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA”

Eu não vivi o carnaval de 1970. Nem nascido era. Mas sei que o esquenta do desfile da Portela, naquele ano, foi marcado pela execução de “Foi um rio que passou em minha vida”, samba de mestre Paulinho Viola. No documentário “Meu tempo é hoje” (2003), de Izabel Jaguaribe, Paulinho fala de sua emoção ao ouvir a música interpretada pela primeira vez na avenida, com verdadeira multidão de portelenses fazendo coro. Detalhe: não era o samba-enredo da Azul e Branca. O samba oficial era “Lendas e mistérios da Amazônia”, de Catoni, Jabolô e Valtenir, com aquele delicioso refrão: “Ô esquindô lá lá/ Ô esquindô lê lê/ Olha só quem vem lá/ É o saci-pererê”.

Já lhes conto como surgiu o clássico “Foi um rio que passou em minha vida”. Antes, porém, devo traçar o perfil de uma personagem de destaque na mesma história.

Em 24 de maio de 1903, em Diamantina, nascia Maria Helena Cardoso. Seus pais – Joaquim Lúcio Cardoso, o andarilho e desbravador Quincas, fluminense de Valença, e Maria Wenceslina Netto Cardoso, a desassombrada Nhanhá, de origem curvelana – deram-lhe os irmãos Regina (a Zizina, farmacologista), Fausto (médico), Adaucto (o Dauto, parlamentar eminente e ministro do STF), Maria de Lourdes (a Dida, entrevistada por em algumas ocasiões) e Lúcio (o Nonô, célebre autor da “Crônica da casa assassinada”).

Lelena, assim ela era chamada pelos íntimos, tinha um ano quando passou a morar em Curvelo. Menina buliçosa, gostava de brincar nas ruas poeirentas. Corria pra lá e pra cá feito louca. Brincava como qualquer criança, mas não deixava de observar os adultos com certa agudeza de espírito.

Em agosto de 1914, estourou a I Guerra Mundial. O estopim? O assassinato, em Sarajevo, do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro. Em Curvelo, nas praças e à porta da Farmácia de Zé Varela, com ressonâncias no ambiente escolar, o assunto predominante eram as operações bélicas na Europa. O ódio aos germânicos, cultivado pelos mais velhos, estendia-se às crianças. Duas alemãs estudavam na classe da filha de dona Nhanhá. Na ausência da professora, eram insultadas pelos colegas, entre os quais Lelena, que ameaçava as “inimigas de guerra” com o punho fechado à altura do queixo. Numa dessas ocasiões, a professora voltou de inopino e testemunhou os insultos. Resultado: todos “condenados” a mais uma hora e meia de aula de Aritmética. E Lelena teve de ficar quinze minutos em pé diante da turma.

Ainda em 1914, dezembro, os Cardosos se mudaram para Belo Horizonte. Lá Maria Helena concluiu o curso secundário, submetendo-se a exames finais no Ginásio Mineiro. Em 1922, formou-se na Escola de Farmácia, anexa à de Medicina. No entanto, jamais exerceria a profissão de farmacêutica. Em 1923, transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro. No então Distrito Federal, trabalhou na Companhia de Seguros fundada pelo tio Oscar Netto. Em seguida, empregou-se no escritório do Hospital Samaritano. Por fim, tornou-se funcionária do Grupo Atlântica de Seguros. Morreria em 12 de março de 1997.

O hilário caso das alemãzinhas na escola (seria bulliyng hoje?) é apenas um dos muitos relatados por Maria Helena Cardoso em “Por onde andou meu coração”.

Lelena era leitora voraz, mas não expunha as ideias no papel, conquanto desde cedo se tenha revelado apta para a literatura. Costumava falar aos mais chegados sobre as recordações das diversas épocas e das pessoas com as quais convivera. Narrava os fatos com tanto enlevo e riqueza de pormenores, que Walmir Ayala sugeriu-lhe a transposição daquele “mundo familiar povoado de mulheres místicas e heroicas e de homens aventureiros” para folhas impressas.

Depois de argumentar que não se considerava escritora (imaginem!), ela topou o desafio e se pôs a escrever.

Desse modo, a instâncias de admiradores, a exemplo do poeta gaúcho, Maria Helena iniciou sua produção nas letras e, em 1967, sexagenária, deu à estampa o “Por onde andou meu coração”, sucesso de público e de crítica. Intelectuais de nomeada saudaram a estreante na carreira literária. Estupefato, Carlos Drummond de Andrade perguntou à autora: “Como foi que você conseguiu isto: fazer um livro que não está escrito, está vivido, abrindo pétalas como uma flor que a natureza plantasse, longe dos jardins cultivados?!”

Vieram a lume, ainda, da lavra de Maria Helena, “Vida – vida” (1973), cujas páginas colocam em relevo o irmão ilustre, Lúcio Cardoso, e, em 1979, o romance “Sonata perdida”, com o subtítulo “Anotações de uma velha dama digna”.  Permanece inédito o texto intitulado de “Última estação”.

Já idosa, a beletrista foi perdendo a memória (logo ela, a memorialista por excelência). Quebrou a perna e teve de ficar presa a uma cadeira de rodas. “Isso, de certa forma, me aliviava, pois eu tinha medo de ela sair e se perder neste tumultuado Rio” – contou-me Lourdes Cardoso, numa das vezes em que me recebeu em seu apartamento de Copacabana, na Ministro Viveiros de Castro.

Li as cartas de Lelena destinadas a Adhemar Paulo de Almeida. Em algumas delas, a grande dama do gênero confessional admitiu ter medo de morrer e de cair no esquecimento. Medo infundado, lógico. Afinal, ela não morreu e nunca morrerá; imortalizou-se em cada uma das histórias reconstituídas, em cada uma das frases de estilo terso e surpreendente.

Mas… E onde entra Paulinho da Viola? Ora,“Por onde andou meu coração”, livro no qual Maria Helena Cardoso faz tantas e tão belas referências à Curvelo de antanho, simplesmente inspirou a composição de “Foi um rio que passou em minha vida”, o mais famoso e emblemático samba do consagrado compositor.

Eu soube disso tempos atrás, em conversa com Hermínio Bello de Carvalho, expoente da cultura nacional envolvido no episódio, e também graças à leitura de “Paulinho da Viola: caminho de volta – Um estudo poético-musical da canção popular brasileira” (1999), dissertação de mestrado em Letras apresentada à USP por Ivan Cláudio Pereira. Como gosto de beber direto na fonte, não me contive e dei um jeito de entrevistar o mestre Paulinho. Queria ouvir dele próprio como tudo aconteceu. Aproximei-me do gênio em pleno carnaval, propus uma entrevista, e ele topou responder a algumas perguntas minhas.

Resumindo a ópera, tudo se deu conforme relato a seguir. Vigorava o regime militar. Corria o ano de 1968. Agitação na arte e na política. O AI-5 – Ato Institucional N. 5 – estava prestes a ser baixado. Paulinho da Viola musicara “Sei lá, Mangueira”, letra de Hermínio Bello de Carvalho em homenagem à Verde e Rosa. Defendida por Elza Soares no IV Festival da TV Record, edição em que o primeiro lugar coube a “São, São Paulo, meu amor”, de Tom Zé, a parceria de Hermínio e Paulinho ganhou a simpatia dos afeiçoados ao mais contagiante dos ritmos.

Portelense autêntico, Paulinho se viu em dívida com a Azul e Branca de Oswaldo Cruz e Madureira. “Ninguém reclamou, nem mesmo seu Natal {figura tutelar da escola}, mas eu me sentia na obrigação de compor e dedicar à Portela um samba tão bom quanto o ‘Sei lá, Mangueira’”, explicou o parceiro de Cartola, Candeia e outros bambas. Na peculiar simplicidade, o majestoso sambista prosseguiu: “Foi aí que eu tive uma sorte incrível: passei por uma livraria, na Rua México, no Centro, e mexeu comigo o livro ‘Por onde andou meu coração’, de Maria Helena Cardoso, irmã de Lúcio Cardoso. Olhei outros livros, mas não comprei nada. Fui embora, e aquele título me acompanhou e se associou a um pensamento que não me deixava: por onde andou meu coração, ao ponto de eu, portelense, criar um samba exaltando a Mangueira? Acho que era um sentimento de culpa. E eu tinha que me redimir. Comecei a escrever: ‘Se um dia, meu coração for consultado, para saber se andou errado, será difícil negar…’. A música surgiu depois, igualmente redondinha. Estava pronto ‘Foi um rio que passou em minha vida’”, arrematou o Príncipe dos Sambistas.

Lançada em 1969, a canção, como dito há pouco, animou os portelenses no carnaval de 1970 e logo se tornaria sucesso nacional.

Fiquei encantado com o mestre Paulinho e suas declarações brotadas no âmago. Mas, antes de dar por concluída a matéria com a entrevista, telefonei para a casa dele, curioso de saber se o compositor teve a oportunidade de ler “Por onde andou meu coração” na íntegra. Lila, a esposa, irmã do violonista Raphael Rabello (1962-1995), atendeu à ligação e me assegurou: “Sim, Newton, tão logo pôde, o Paulinho leu a obra inteira e se disse extasiado. Há muita beleza do trabalho de sua conterrânea”.

Enternecido, desliguei o telefone, enquanto dizia para mim mesmo: – Essa Maria Helena Cardoso, cujas reminiscências são mágicas, repletas de colorido e movimento, não era brincadeira, não.

Bem, como se me afigura demonstrado, um Rio de Janeiro passa e inunda a vida dos curvelanos, sobretudo quando o assunto é carnaval.

*O autor é ensaísta, jornalista e poeta. Pertence a várias instituições culturais, dentre elas a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG) e a Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências ALPAS 21. Durante 10 anos, manteve coluna jornalística com dicas de Português. Em 2018, na Feira do Livro de Porto Alegre, recebeu a “Comenda Personalidade Literária Internacional”. Detém prêmios conquistados no Brasil e no exterior, Além dos livros publicados individualmente, figura em dezenas de antologias, como a “Écrivains Contemporains du Minas Gerais”, lançada no Salão do Livro de Paris 2012.