Reflexões sobre saudade no dia… da saudade

(“A gente mata a saudade ou a saudade mata a gente?”)

Por NEWTON VIEIRA*

Modéstia à parte, eu sou da Vila.

Não, não estou a repetir Noel Rosa, embora seja profundo admirador de tudo quanto produziu o Bacharel. Nem me refiro à carioca Vila Isabel, cujo samba se transformou em “feitiço decente”. Sou da Vila de Lourdes, periferia de Curvelo, nascido e criado lá, num tempo em que o bairro era esquecido. Faltava até água em chafariz disputado por várias famílias. E olha que isso foi, por assim dizer, ainda ontem.

Hoje, 30 de janeiro, Dia da Saudade, retornei ao lugar da minha infância, e verdadeiro filme se passou na minha cabeça. Sempre fui nostálgico. Agora, com a pandemia e o isolamento social, tornei-me nostálgico além da conta.

Ah, saudade! Sentimento de origem tão remota quanto a da espécie humana. Teria aberto os olhos no mundo no momento em que os primeiros íncolas terráqueos foram expulsos do Éden e condenados ao exílio no Vale de Lágrimas? Teria brotado quando Adam e Issha, o homem e a mulher, as criaturas feitas de pó, por livre e espontânea vontade, recusaram-se a cumprir a vontade do Criador, como asseveram estudiosos inspirados na religiosidade bíblica? Socraticamente, só sei uma coisa: de nada sei.

Do ponto de vista da psicologia arquetípica, o Paraíso e a Saudade estão intimamente ligados. Existe o anseio inconsciente pelo retorno ao ventre da Mater Edênica. Analisa Meira Penna, num dos ensaios de EM BERÇO ESPLÊNDIDO: “O estágio de inconsciência primordial em que o homem é contido no seu Todo, sem responsabilidade e sem esforço, sem angústias e sem contradições internas, configura uma situação essencialmente paradisíaca”. (J. O. de Meira Penna, EM BERÇO ESPLÊNDIDO. Rio/Brasília: José Olímpio/INL, 1974, p. 210).

No tocante à concepção teológica, uma corrente situa a felicidade edênica na geografia da saudade. Outra, mais moderna, coloca-a na geografia da esperança. Acostumado a versar com simplicidade os assuntos mais complexos, analisa frei Carlos Mesters: “Para o autor {do Gênesis}, o paraíso não é algo que já pertence ao passado, mas, sim, ao futuro. Não é uma saudade que teria deixado marca e suscitaria no homem o desejo de voltar ao aconchego do seio materno. (…) Está colocado no início da Bíblia porque, antes de alguém fazer qualquer coisa, deve saber o que quer e deve elaborar um projeto viável a ser executado” (PARAÍSO TERRESTRE: SAUDADE OU ESPERANÇA? Petrópolis: Editora Vozes, 2001, p. 45). Mesters acredita ter havido exagero de teólogos e pregadores na descrição da felicidade perdida, e isso teria provocado “mais o saudosismo do que a esperança de “um novo céu e uma nova terra”, conforme o prometido na narrativa escatológica das Escrituras (p. 90). “A perda dos dons sobrenaturais e preternaturais _ assegura Mesters _ é queda livre de todos nós quando nos afastamos do caminho do estado futuro de paz e de felicidade, descrito no paraíso e confirmado, antecipadamente, pela ressurreição” (p. 91). Ao ressurgir dos mortos, o Senhor teria aberto na Terra, pela primeira e única vez, as portas do paraíso (p. 82). “Imagem contraste da nossa realidade” (p. 99), o Éden seria a profecia do futuro tão somente projetada no passado.

Desabrochada ou não no jardim das delícias, a flor da saudade perfuma a vida dos seres humanos, independente da raça, credo, nacionalidade, tipo ou cor. Diferentes dos outros animais, os humanos têm passado, presente e porvir. Buscam responder a estas perguntas: “Onde estamos? De onde viemos? Para onde vamos? Por isso, em qualquer lugar do Planeta, o coração humano será embalado pela cantiga da saudade. Marcel Proust, na França, expressava-a no gostinho da madeleine molhada na chávena de chá, no tlintlim da colher, e por aí afora. Se falasse português, resumiria tudo numa palavra: saudade!

Mas o sentimento, sem sombra de dúvida, é mais forte, mais arrebatador e muito mais expressivo para a alma do povo brasileiro, corolário do amálgama do elemento indígena, cujas raízes foram cortadas e quase totalmente destruídas, e do elemento navegador português, constantemente apartado dos seus pelas lonjuras dos mares tenebrosos ou nunca dantes navegados, com o mais sofrido e injustiçado deles, o elemento negro, brutalmente arrancado ao colo da velha Mãe África e submetido aos maus-tratos do cativeiro. Os três componentes, amalgamados, imprimiram ciclópica intensidade ao “recuerdo” brasílico, bem mais significativo, por exemplo, do que o traduzido no equivalente Sehnsucht dos alemães.

Razão teve Osório Dutra:

De Portugal foi trazida,

veio do Minho ou do Beira.

Hoje ninguém mais duvida

que a saudade é brasileira. (“100 Trovas de Saudade”)

Mas razão maior teve J. G. de Araújo Jorge. No entender do autor de CANTIGAS DE MENINO GRANDE, a saudade portuguesa era apenas ânsia. Adquiriu profundidade com os gemidos de dor dos tumbeiros, das embarcações negreiras, que trouxeram para o Brasil, entre 1550 e 1850, cerca de 3,5 milhões de cativos oriundos do continente africano, máxime da Guiné, Costa do Marfim, Mali, Congo, Angola, Moçambique e Benin:

“No peito dos marinheiros

nasceu, cresceu, emigrou…

Mas nos porões dos negreiros

foi que a saudade… chorou!” (“100 TROVAS DE SAUDADE”)

“A saudade brasileira _ diz o menestrel do Acre _ é portuguesa e africana”. Além de ser significativamente indígena, ouso acrescentar. “O que constitui a essência da saudade luso-brasileira _ no entender de Meira Penna _ é a nostalgia do convívio humano num tipo de sentimento extrovertido, ou frustração constitucional do sentimento num tipo introvertido. É o desejo de sentir a proximidade do calor humano _ da pessoa amada _ que desperta a saudade no amante involuntariamente solitário”.

Todavia, difere-se a saudade da simples falta, do simples desejo, da simples lembrança. E para isso existe explicação biológica. No ESTADO DE MINAS de 18-7-1994, escreveu Ibrahim Felipe Heneine, titular da Faculdade de Medicina da UFMG e meu confrade na AMULMIG – Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais:

“O bebezinho, quando nasce, só sente fome, frio, ruídos, luz, tato. É a fase Sensorial (S). A série de sensações causa estados de agrado, ou desagrado. Seu coraçãozinho bate mais depressa, ele respira ofegante, ri ou chora. Aparece a fase Emocional (E). A repetição desses estímulos cria uma relação de dependência ser-objeto causal. Gosta, não gosta. Nasce o amor, o ódio, a indiferença. Forma-se a fase Afetiva (A). Mais tarde, o serzinho balbucia “mamã”, aprende seu nome, o nome do pai, relaciona-se com o ambiente, aprende que um mais um corresponde a dois. Lembra-se de fatos. Aparece o nível Intelectivo (I). Depois começa a chateação (as broncas da mãe). Vão se inculcando costumes e hábitos, bons e maus. Nasce o setor Moral (M)”.

Segundo o professor Heneine, os setores Sensorial, Emotivo, Afetivo, Intelectivo e Moral interinfluenciam-se e sofrem mudanças nas suas características com o passar do tempo. É pela atuação deles que se explica a saudade, “a memória factual no setor Intelectivo, acompanhada de reações psicofisiológicas nos setores Sensorial, Emocional e Afetivo”. Preleciona ainda o catedrático: “…são lembranças seguidas de liberação de peptídeos bioativos, como endorfinas, encefalinas, neuro-hormônios, que se acoplam aos seus receptores celulares e nos causam a impressão agridoce da saudade”.

Peptídeos (com de) ou peptídios (com di) são quaisquer substâncias com dois ou mais aminoácidos conjugados, reunidos por uma ligação -CO-NH- e exercendo funções específicas no organismo.

O sentimento de saudade pode ocorrer em relação a algo não vivenciado. A memória, além de ser seletiva, pode ser inventada. Pelo ângulo proustiano sentimental, isso é absolutamente possível, porque cada pessoa percebe a passagem do tempo de maneira particular. O que se esperava concretizar, mas não se concretizou, também provoca sentimento de saudade, tão avassalador quanto os demais:

“Quem vive dum sonho lindo

que, porém, jamais alcança,

pode acabar conseguindo

ter saudade da esperança.” (Padre Celso de Carvalho)

E o mais estranho: pode-se sentir saudade pelo que ainda está por ocorrer. É a “saudade antecipada”, definida por Padre Celso de Carvalho como a maior das tristezas:

“Ter tudo, mas na certeza

de amanhã não ter mais nada.

Existe maior tristeza

que a saudade antecipada?” (CAMINHOS DO DESENCONTRO)

Muito se discute a possibilidade de o saudosista matar a saudade ou de a saudade matar o saudosista. Padre Celso de Carvalho não admitia nenhuma das duas hipóteses. Certa vez, poetou:

“Não devia haver defesa,

perdão nem impunidade

para a língua portuguesa

que fala em “matar saudade”. (MÃOS VAZIAS)

Noutra ocasião, deparando com o também trovador Edson Gandra em frente ao antigo Bar Aparecida, na Praça Benedito Valadares, em Curvelo, ouviu, em forma de trova, esta matreira interrogação:

“Pergunto pela verdade

em cada expressão fluente:

a gente mata a saudade

ou a saudade mata a gente?”

Sem titubear, redarguiu:

“Eu respondo facilmente,

ó Edson, ao verso seu:

Saudade não mata a gente;

senão, viveria eu?”

O interessante diálogo poético foi publicado em O PÃO DE SANTO ANTÔNIO, edição de nº 18, em 4 de junho de 1967, e serve para mostrar o posicionamento do poeta filósofo Padre Celso de Carvalho no tocante à cantada e decantada “saudade matadeira”.

No entanto, estudiosos garantem que a saudade, às vezes, mata sim, ou, pelo menos, já matou em outras épocas, porque se manifesta de multifárias formas, de acordo com a cultura do indivíduo. Durante a escravidão, lembra o retromencionado médico Ibrahim Felipe Heneine, as reações fisiopatológicas do banzo, a saudade mórbida do exilado, conduziam os negros africanos à completa apatia e chegavam a provocar a morte de muitos deles. Desse problema ocupou-se João Ribeiro, na sua HISTÓRIA DO BRASIL: “Uma moléstia estranha, que é a saudade da pátria, uma espécie de loucura nostálgica ou suicídio forçado, o banzo dizima-os pela inanição e fastio, ou os torna apáticos e idiotas”.

Coelho Neto, num livro de contos intitulado justamente de BANZO, descreve a morte do velho negro Sabino, ocorrida ao som do berimbau, após várias reminiscências, após a vívida lembrança das figuras de antigamente. Diz o escritor: “Era o passado que subia do tempo numa evocação da saudade”. Em seguida vem a narrativa do desenlace: “… ficou estatelado, olhando, com lágrimas silenciosas. Teve um arquejo. Tomou o urucungo a mãos ambas, estendeu os braços como se oferecesse o instrumento à morta (Maria Rosa). Um som partiu lúgubre. Não pôde mais: amoleceu as pernas, caiu entre as folhas, de bruços”.

A saudade definha ou não? Definha. Diminui de intensidade na medida em que o ser envelhece. “A cada relembrança, as reações psicofisiológicas são mais brandas” (Heneine). Nesse estádio, a saudade fica mais extensa, abrange quase todos os momentos, inclusive os dos sonhos, mas igualmente se torna menos intensa. É significativa esta constatação no último livro do  Padre Celso de Carvalho, UMA TRISTEZA… SÓ TRISTE, de 1995:

“Fluindo suavemente,

ao passo que o tempo avança,

a saudade mais pungente

acaba sendo lembrança.”

Mas vou e volto. Porque esse possível arrefecimento da saudade será contrariado pelas mães e pais que sofreram a dor indescritível de enterrar seus eternos bebês. Esses perderam a completude da existência e nunca, nunca mais serão os mesmos:

“Oh, metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu” (Chico Buarque de Holanda, PEDAÇO DE MIM)

Pois bem. Foi saudade doce e bem  tranquila a que senti na manhã deste sábado, ao visitar a Vila de Lourdes e contemplar os resquícios do outrora chafariz existente na Rua Nilo Peçanha, se não me engano, em frente à casa da família do Calado, conhecido consertador e vendedor de relógios no passeio da Passo Certo.

Eu me vi criança e constatei a força de uma trova ali inspirada e com a qual fui premiado em concurso nacional:

Retorno à Vila… E me invade

tanta lembrança feliz,

que bebo a própria saudade,

em já senil chafariz!…

*O autor é ensaísta, jornalista e poeta. Pertence a várias instituições culturais, dentre elas a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG) e a Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências ALPAS 21. Em 2018, durante a Feira do Livro de Porto Alegre, recebeu a “Comenda Personalidade Literária Internacional”. Detém prêmios conquistados no Brasil e no exterior, Além dos livros publicados individualmente, figura em dezenas de antologias, como a “Écrivains Contemporains du Minas Gerais”, lançada no Salão do Livro de Paris 2012. E-mail: newtonvieiracvo@gmail.com