Os Poemas ao Vento de Sílvio Ribas

Por Newton VIEIRA*

Saio satisfeito da leitura de “MALABAR – Poemas ao Vento” (Brasília/DF: Edição do Autor, 2020), de Sílvio Ribas. Na verdade, releitura, pois conheci os escritos antes de eles serem dados à estampa, graças à confiança do poeta.

Como se pode inferir do subtítulo, são poemas caracterizados pela leveza, frescor e liberdade da ventania, porém comprometidos com a linguagem escorreita e perpassados de muitas e diversificadas experiências culturais. Curvelano de nascimento, Sílvio Ribas é jornalista e, como eu, começou na imprensa do interior, onde não existem editorias específicas, razão por que teve de dominar (e o fez/faz com brilhantismo) assuntos dos vários ramos e atividades.

Todas (ou quase todas) as palavras estão nos dicionários. Fato. O problema é que, ao contrário das mulheres, as danadinhas não se arrumam por si sós. Daí a necessidade do poeta como estilista para dar-lhes a vestimenta criada em seu delírio, adorná-las e colocá-las nas passarelas das emoções. Sílvio Ribas se desincumbe muito bem dessa tarefa. Brincando, brincando…

Verbo mais lindo este: brincar! Durante a criação do mundo – diz a Bíblia, nos Provérbios –, a Sabedoria brincava na superfície da Terra, ante a presença do Criador. Já Friedrich Schiller, que li nas aulas de alemão com o doutor Vianna Espeschit, nas “Cartas Sobre a Educação Estética da Humanidade”, assim se expressou: “O homem {e se entenda aqui também a mulher} só é inteiro quando brinca, e é só quando brinca que ele existe na completa acepção do termo”.

Em MALABAR, Sílvio Ribas se nos apresenta na sua inteireza. Por isso brinca, mesmo ao tratar de temas seriíssimos, a exemplo da depressão, “o mal do século”. Faz MALABARismo com os vocábulos, revela-se neólogo, a inventar expressões e a imprimir novo significado a muitas das já consagradas. Os tropos brotam em profusão, e o leitor tem de ficar boneco, como diria minha vó Alzira, isto é, ficar atento, para não perder nenhuma das nuanças poéticas.

Pode-se considerar o poeta ousado? Sim, ele o é. Mas a proposta não era exatamente a de poemas ao vento? Ousadia e ventania têm fortes afinidades, a começar pela rima. Sem-cerimoniosamente, o vento arrasta as folhas do outono, derruba roupas do varal, acaricia o rosto de quem amamos, balança as palhas do coqueiro, como na canção popular. Igualmente atrevidos, os versos de Sílvio Ribas, sem pedir licença, penetram o âmago da gente. Entram e ficam… Quando nos damos conta da invasão, já se faz tarde. Impossível tirá-los de lá.

Da obra em apreço, deixo com vocês o texto A PESSOA CERTA, com hífen estilístico ou ideológico já de entrada (“alegria-inteira”). E ponho em evidência o final com a confirmação do que sempre digo; somente encontrará a pessoa certa, caso ela exista, quem procurar SER a pessoa certa (“Fazê-la feliz para ser feliz”).

A PESSOA CERTA (Sílvio Ribas)

“A cara-metade e a alegria inteira

O encontro que gerou felizes reencontros

A hora do aconchego e da correspondência

O beijo demorado depois da saudade esquisita

“A primeira e a última impressão que ficam

O sentimento é algo que não se evapora

O comportamento é algo que não se inventa

Palavras são peças de um jogo silencioso

“Encontrá-la para me encontrar

Fazê-la feliz para ser feliz

Desejá-la como desejo viver

Sim, ela é a pessoa certa

Amar agora ou saber”

Pois bem. Em mil, novecentos e lá vai fumaça, Humberto de Campos, imortal da Academia Brasileira de Letras, publicou crônica sobre seu amigo Viana do Castelo, curvelano participante do Movimento Simbolista e ministro da Justiça e Negócios Interiores exilado em decorrência da Revolução de 1930. No texto, depois inserido na obra “Perfis”, o escritor maranhense chamou Curvelo de “Coração das Minas Gerais”.

Deve ser por isso, por ser Coração, que Curvelo sempre se impôs como berço de grandes nomes da poesia brasileira, já que os poetas se destacam pela agudeza da sensibilidade. Basta lembrar (e apenas citarei alguns “encantados”) Àlvaro Vianna (“Meu Discípulo Amado”, segundo Alphonsus de Guimaraens), Mário Pinto, Lúcio Cardoso, Padre Celso de Carvalho, Mercezino Fonseca, Luiz Cláudio e Thereza Perácio. Não fosse a exiguidade de espaço, poderia mencionar tantos outros.

Mas agora é a vez de Sílvio Ribas, com esse MALABAR, contribuir para o enriquecimento da vivência poética de sua terra e de sua gente.

A contribuição não poderia vir em melhor momento. Abalados na estrutura íntima, em face da pandemia da covid-19, estamos todos à procura de conforto. E o conforto às vezes vem em letra de fôrma.


*Newton Vieira é ensaísta, jornalista e poeta. Pertence a várias instituições culturais, dentre elas a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG) e a Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências ALPAS 21. Em 2018, durante a Feira do Livro de Porto Alegre, recebeu a “Comenda Personalidade Literária Internacional”. Detém prêmios conquistados no Brasil e no exterior, Além dos livros publicados individualmente, figura em dezenas de antologias, como a “Écrivains Contemporains du Minas Gerais”, lançada no Salão do Livro de Paris 2012.

Por Newton VIEIRA*