O “vírus” do suicídio

A primeira notícia sobre o novo coronavírus (SARS-CoV-2), foi veiculada em dezembro de 2019, após se observar uma epidemia na cidade chinesa de Wuhan. O mundo não sabia e até subestimou, mas, a partir daí, nossas vidas nunca mais seriam as mesmas.

Dois meses, foi o tempo que o vírus levou para chegar ao Brasil, tendo o primeiro caso confirmado em 26 de fevereiro de 2020. Em março, aconteceu o que todos temiam: O covid-19 havia se tornado uma pandemia. Visto isso, os estados brasileiros passaram a adotar o isolamento social (quarentena), além de reforçar medidas profiláticas para evitar a disseminação do vírus, como o uso de máscaras e álcool em gel nas mãos.

Essa foi uma pequena retrospectiva para entender como tudo começou e como chegamos nesta situação: 8.324.294 casos, 7.394.739 recuperados e 207.095 mortos. O que não imaginávamos é que essa pandemia despertaria mais um vírus: O suicídio. A sensação de medo, impotência e incerteza sobre uma ameaça global que neblina o nosso futuro, começou a ser um dos principais causadores do aumento no número de relatos sobre crises de ansiedade, pânico e depressão, que até então só eram assuntos de destaque no ”Setembro Amarelo”.

Para se ter uma noção, em outubro de 2020 o Japão havia registrado mais mortes por suicídio em 1 mês, do que óbitos por covid-19 ao longo de 2020. Segundo dados divulgados em outubro pela Agência da Polícia Nacional do país, foram 2.153 mortes por suicídio no mês, enquanto 2.087 pessoas haviam morrido por covid-19 no território japonês, segundo o Ministério da Saúde do país. Atualmente, o número de óbitos causados pelo vírus no Japão é de 4.119.

Ainda em outubro de 2020, o professor Michiko Ueda da Universidade Waseda, de Tóquio, disse à CNN que poderia haver aumento no número de casos de suicídio em outros países:

“O impacto da covid é muito pequeno [no Japão] comparado com outros países, mas ainda vemos esse aumento no número de suicídios. Isso sugere que outros países podem sofrer aumento similar ou ainda maior no número de suicídios no futuro”, afirmou.

Voltando ao Brasil

Em reportagem publicada pela UOL, de acordo com uma avaliação feita por Francis Fujii, diretor médico do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) na capital paulista, o atendimento a casos de suicídio e tentativas de suicídio aumentou com a pandemia do novo coronavírus. Mesmo já sendo esperado esses tipos de chamado, devido a solidão e crises decorrentes do isolamento social, é um dado muito preocupante, visto que este tipo de isolamento não significa silêncio e que vivemos na era da comunicação versátil.

Um dos socorristas do Samu ainda complementa: “Temos ouvido muito sobre a falta de diálogo dentro de casa, situação aprofundada pela crise, com famílias sendo obrigadas a conviver o tempo todo, muitas vezes em residências muito pequenas”.

Vivendo de incertezas

Talvez, o maior agente causador desse ”caos interior”, seja a incerteza que estamos vivenciando neste momento. Planos sendo cancelados, famílias sendo destruídas pela perda de seus entes queridos para a doença e até mesmo separações conjugais. Pessoas perdendo seus empregos, preocupadas se terão o que comer, como pagarão suas contas básicas, como sustentarão seus dependentes e a pergunta que mais desespera qualquer um: Será que a vida voltará a ser como era antes? Inenarráveis situações e pensamentos que, aos poucos, vão perturbando a mente e levando à loucura até a pessoa que se diz ser mais resiliente.

Como agir se eu me sentir assim?

Maria Helena Pereira Franco, que é professora titular de Psicologia Clínica e coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (Lelu), da PUC-SP, recomenda que busquemos nossa rede de apoio, aquela que entendemos que nos sustenta, seja ela qual for. Família, amigos, vizinhos, igreja…

“Por que é com ela que a gente pode abrir o coração e pode chorar. Temos que ativar e fortalecer os vínculos que nos são significativos. Sentir-se só é péssimo. E sentir-se só não é uma questão física, você pode estar em casa com muita gente da família e se sentir só”. Ela ainda diz ser necessário a pessoa aprender a lidar com os novos meios de comunicação, como por exemplo, os aplicativos de mensagem, pois também é uma forma de manter contato com os seus grupos de apoio.

Além de cuidar de si, preste atenção nas pessoas ao seu redor. Fique de olho em comentários ou comportamentos diferentes, procure sempre uma palavra de estímulo de forma que, você demonstre a essa pessoa o quanto ela é especial e importante,

E por último, mas não menos importante, se você não tiver com quem conversar ou não quer desabafar com uma pessoa próxima, procure o CVV (Centro de Valorização da Vida). O CVV é uma organização que presta apoio emocional e atua na prevenção ao suicídio, ele atende gratuitamente através do número 188, 24 horas por dia, com garantia de sigilo.