As faces de janeiro

Depois de muito torcer pelo fim da seara de catástrofes que foi o ano de 2020, aqui estamos no limiar do ano novo, no mês que traz em seu nome uma densa carga de simbologia. Janeiro vem da palavra latina “Ianuarius”, relativa a Janus, o deus que tinha duas faces: uma que olhava o futuro, à frente, outra voltada para trás, para o passado.  Ianuarius, por sua vez, provém de uma pequena palavra: Ianua – porta, em português.  E é de “Ianuela” (portinha) que deriva a nossa palavra “janela”, cuja dimensão  simbólica é captada na definição do Dicionário Michaelis: “Abertura nas paredes dos edifícios, para deixar passar a luz e o ar”.  Mas janeiro, como a mitologia e a vida, não é só um portal luminoso.  

O dicionário de Laudelino Freire acrescenta uma nova clivagem à definição de janela: “Pequeno claro em que falta alguma palavra escrita; lacuna”.  O mesmo portal januário que deixa passar a luz e o ar, iluminando e oxigenando o ano que começa, traz em si também o sentido da falta, da lacuna, apontando para o escuro, o vazio…   Agostinho de Hipona, filósofo e teólogo dos primórdios do cristianismo, doutor da Igreja Católica, diz que Janus tem poder sobre todos os começos e que em seu nome estão inscritos todos os inícios. Acontece que o deus bifronte Janus olha tanto para frente quanto para trás. Qual dessas direções será o sentido do nosso olhar?

Caminharemos na direção da luz e do ar livre, ou escolheremos a caverna das sombras e dos mitos? Superaremos os vírus de 2020, com o suporte das vacinas que somos capazes de criar e das portas e janelas que somos capazes de abrir, transformando-nos e transformando solidariamente o mundo, ou permaneceremos na imanência, no fatalismo, na negação do ser?   

Afonso Guerra-Baião