Mulheres e Homens de Atenas

A poeta Louise Glück, dos Estados Unidos, foi premiada pela Academia Sueca com o Prêmio Nobel de Literatura de 2020. Não há livros dela publicados no Brasil, apenas traduções esparsas de alguns textos. Um de seus poemas, “Parable of the Hostages”, me fez lembrar, em alguns aspectos, a letra da canção “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque (que, por sinal, bem merece um Nobel, por toda sua produção que vai da poesia à narrativa e ao teatro). Foi essa relação intertextual que motivou a traduzir esse poema, que vai aqui como uma amostra e um convite ao conhecimento da obra de Louise Glück.

Parábola dos Reféns

Os gregos curtem a praia,

às vezes pensam o que vão fazer

quando a guerra acabar.

Ninguém quer voltar para casa,

para aquela ilha óssea;

eles querem aproveitar a vida um pouco mais em Tróia,

o gozo que transborda,

o gosto da surpresa a cada dia.

Mas o que dizer para aqueles, lá em casa,

para quem a guerra justifica toda ausência

mas não a diversão.

Bem, isso fica pra mais tarde,

pensam estes homens que são,

na mente de mulheres e crianças,

guerreiros sempre prontos para a ação.

Agora é fruir o calor,

a energia renovada em seus músculos,

a pele que já veste um tom dourado.

Algum começa a sentir um pouco

a falta da família e da esposa,

outro teme que a guerra o envelheça,

poucos sentem uma inquietação:

e se a guerra for só uma moda masculina,

um jogo feito para evitar

as profundas questões espirituais?

Ah, mas não foi só a guerra!

O mundo os chamou desde o começo,

um teatro com o coro dos guerreiros

e a ária flutuante das sereias.

Lá, na pátria praia, discutindo a agenda do retorno,

ninguém imaginou levar dez anos

para voltar a Ítaca;

ninguém previu dez anos de dilemas insolúveis

– oh humano coração,

Irrespondível é sua aflição:

como cindir a graça do viver

em amores proibidos e aceitáveis?

Ao pisar o litoral de Tróia,

como poderiam os gregos saber

que eles já eram reféns?

Quem demora na viagem já é sua presa;

como os gregos saberiam

que membros de seu corpo de guerreiros

se renderiam aos prazeres,

alguns seduzidos pelos sonhos,

outros encantados pelos sons?

Louise Glück, tradução de Afonso Guerra-Baião