Sinais de Setembro

Setembro é o mês da primavera e o meu mês, mas é também o período do ano em que, simbolicamente, se acende o sinal amarelo do alerta contra o suicídio. Quando ligamos esse alerta na agenda de nossa sociedade, estamos dando razão ao sociólogo Emile Durkheim que, em 1897, em seu famoso ensaio “O suicídio”, buscava a causa desse fenômeno não apenas no interior do indivíduo, mas nas relações do indivíduo com o meio social. É este viés que o médico e professor da USP, Ricardo Rodrigues Teixeira, ressalta em sua leitura de Durkheim: “A sociedade científico-industrial moderna se revela uma grande produtora de “egoísmo” e “des-integração social”, com suas consequentes elevadas taxas de suicídio. Mais do que isso, o que a sociedade científico-industrial tem efetivamente nos revelado, em sua fase atual, é a face mais sinistra da tanatocracia, sendo geradora de índices crescentemente altos de mortes voluntárias”.

Assim, além do mal-estar em uma sociedade não solidária, nós ainda nos vemos às voltas com a angústia existencial. Mas, como diz a professora Sofia Rovighi, nossa existência é decidida voluntariamente, e não acontece simplesmente ao sabor dos fatos. O ser do homem é sempre uma possibilidade a atualizar, e por isso o ser humano pode escolher: conquistar-se ou perder-se.

O ser humano se perde quando está submisso a uma vida inautêntica. O inautêntico é o alienado, o que se rende à massificação, à despersonalização, à repetição, seguindo a massa como rês no rebanho. Como reagirá o inautêntico quando, sem apoio do gado que segue, precisar ir além das aparências para enfrentar as verdades de uma sociedade desumanizada e de um viver sempre perigoso?

O caminho para o encontro do homem com o ser é a transcendência. Transcendência, diz o professor Álvaro Queiroz, “é a capacidade humana de romper os limites, superar e violar os interditos, projetar-se sempre num mais além”. A transcendência é então a vida autêntica, em que o homem não é apenas um objeto nem é só um espectador dos dramas do mundo e da existência. Para transformar o mundo, transformando-se, o homem não pode ser aquele que repete, mas precisa ser aquele que diz.  Abrindo-nos ao “logos”, a linguagem criadora que é a casa do ser, a dimensão estética em que passamos do nada à presença, da aparência à essência,  talvez possamos desligar o sinal de alerta de todos os nossos setembros.

Afonso Guerra-Baião