Professor do CEFET-MG explica o que são e por que ocorrem riscos geológicos nos períodos de chuva

As chuvas que marcam a região Sudeste, principalmente entre os meses
de outubro e março de cada ano, já são previstas pelos mineiros. De
acordo com informações do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET),
em Minas, o trimestre entre novembro e janeiro é frequentemente o mais
chuvoso. Porém, 2020 começou batendo recordes históricos de volume de
chuva, o que causa apreensão, tanto pelos alagamentos e
transbordamentos de rios, como também por deslizamentos de encostas.
Somente de 24 a 28 de janeiro, foram 53 mortes confirmadas em
decorrência do grande volume de chuvas, segundo a Defesa Civil de
Minas Gerais.
O professor do curso de Engenharia Ambiental do CEFET-MG, Evandro
Carrusca de Oliveira fala, em entrevista, sobre o risco geológico,
perigo que ultrapassa o momento das chuvas. Para ele, ?ao implantar
medidas de redução dos riscos, trabalhamos tanto no sentido da
prevenção, reduzindo a frequência de ocorrência, quanto no sentido da
proteção, minimizando ou reduzindo as consequências?.
Evandro é doutor em Geotecnia e ministra, no CEFET-MG, disciplinas
ligadas à análise de riscos ambientais, hidrogeologia e geotecnia
ambiental, que é o estudo do comportamento do solo e das rochas em
decorrência das ações do homem.

O que é risco geológico? Por que acontece esse fenômeno?
O risco pode ser tomado como uma categoria de análise associada às
noções de incerteza, exposição ao perigo, perda e prejuízos materiais,
econômicos e humanos. O risco refere-se, portanto, à possibilidade de
ocorrer um evento indesejado. Deve-se identificar antecipadamente os
perigos e quantificar os riscos associados e os efeitos sobre o meio
ambiente e a saúde pública para, em seguida, propor medidas de controle.
Risco Geológico é quando o risco ambiental (ou natural) está
relacionado à vulnerabilidade de uma área associado a fenômenos de
natureza geológica num dado momento. São exemplos sismos, erupções
vulcânicas, deslizamentos ou escorregamentos de solo e avalanches de
lama, quedas de blocos de rochas, assoreamentos, inundações e erosão.
Os principais riscos relacionados aos fenômenos geológicos em Belo
Horizonte referem-se aos escorregamentos de solos e rochas em
encostas/taludes devido à saturação do solo pela chuva intensa,
resultando destruição de habitações, vias públicas e outras estruturas
e bens materiais. E também as enchentes e inundações ao longo das
calhas dos rios e córregos que cortam a cidade, normalmente
localizados em cotas inferiores às ruas por onde deságua a água não
infiltrada no solo impermeabilizado.

A Região Metropolitana de Belo Horizonte é, naturalmente, mais
suscetível ao risco geológico pelo relevo acidentado?
BH tem um relevo muito montanhoso em toda a sua distribuição areal,
gerando grandes desníveis topográficos nos quatro cantos da cidade. E
o índice de impermeabilização das vias públicas e terrenos habitados é
muito significativo. Essa impermeabilização do solo e os declives
acentuados geram enxurradas de alto poder destrutivo. E, nas
comunidades, a ocupação urbana não respeitou a geologia local, com
grandes intervenções antrópicas que favorecem o aumento das áreas de
risco geológico para milhares de pessoas.

Depois de um período de chuvas, quanto tempo pode durar o risco
geológico? É possível fazer essa previsão?
Pode durar pouco tempo ou para sempre, impedindo a reocupação do
local. Vai depender do laudo ou diagnóstico de geólogos, engenheiros,
geotécnicos e outros especialistas, atestando a situação da área em
estudo.

Quais sinais ajudam a identificar possíveis riscos e quais são as
recomendações em caso de identificação desses sinais?
São vários os sinais. No caso de moradia próxima a barrancos de terra,
observar, por exemplo, qualquer trinca ou fenda no terreno ou nas
construções, se a água da enxurrada está infiltrando em algum local
específico, se há árvores ou mourões de cerca com inclinações recentes
nas proximidades, a existência de corrimento de solo fino nas
enxurradas, estalos em estruturas rígidas ou no barranco e água
brotando no talude próximo.
O mesmo cuidado deve ser tomado quando existem blocos rochosos
próximos ou em níveis superiores à moradia. O peso desses blocos sobre
o solo saturado pode provocar deslizamentos ou tombamentos rochosos em
épocas de chuva, destruindo as construções localizadas abaixo.
No caso de moradias em margens da bacia hidrográfica, deve-se
acompanhar as informações sobre a situação climática em sua região e
na região a montante da casa. Muitas vezes, próximo à moradia não está
chovendo, mas nas cabeceiras do córrego chove com muita intensidade,
acarretando inundações nas partes mais baixas.
A principal recomendação é acionar com urgência e de forma preventiva
a Defesa Civil ou outro órgão credenciado para esse atendimento. Digo
?preventivo? porque após a catástrofe, estes órgãos estarão em ações
de emergência, de socorro imediato, não sendo possível se deslocarem
apenas para diagnosticarem uma evidência de risco. Nessa situação, o
mais correto é abandonar o local, ir para um local seguro e aguardar a
diminuição do fluxo de atendimento emergencial das unidades
competentes. Após a classificação como área de risco, retirar com
urgência os moradores.

O que a população e a administração pública podem fazer
preventivamente para que haja menos possibilidade de novos ?riscos
geológicos??
Inicialmente, gostaria de parabenizar a Administração Pública de Belo
Horizonte, a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros e todos os envolvidos.
Pela primeira vez em BH foi realizado um mutirão preventivo, um
verdadeiro Plano de Contingência para enfrentar os fenômenos
climáticos e suas consequências nesse início de 2020.
No caso de BH, neste evento catastrófico que estamos vivenciando,
ações simples como prevenir a população da situação climática através
de mensagens, fechamento das vias com pontos críticos, reserva de
acomodações em abrigos e outros estabelecimentos, acompanhamento 24
horas antes e durante as catástrofes, alocação de pessoas e máquinas
para minimizar os impactos ambientais, e tantas outras ações que estão
salvando vidas.
Os riscos geológicos estão e estarão lá por milhares de anos.
Respeitam aqueles que os respeitam, entendem o risco e as potenciais
consequências ao longo do tempo. E com o agravante de que não mandam
recados prevenindo quando irão se manifestar. Portanto, não construam
em áreas de instabilidade geológica.