O Espaço e o Poço

Eu sempre fui meio avoado: tão distraído que era chamado de poeta, tão aéreo que já tive o apelido de astronauta. E essa amena forma de bullying acabou se revelando uma profecia: não é que me tornei mesmo um escritor de versos e um inveterado viajante dos tempos e dos espaços? Ainda este ano publiquei o livro “Sonetos de bem-maldizer / de maldizer” (que te convido a ler) e há pouco estive na Grécia antiga, conduzido por Platão, para ouvir a conversa entre Sócrates e o jovem Teeteto. Nesse diálogo, Sócrates conta que Tales de Mileto caiu num poço, enquanto olhava para cima, observando os astros; então uma mulher da Trácia zombou dele, dizendo que ele procurava conhecer o que se passava no céu, mas não via o que estava aos seus pés. Sócrates conclui: “Esta pilhéria se aplica a todos os que vivem para a filosofia” – e para a poesia, podemos acrescentar. Nesta anedota, a mulher da Trácia representa o senso comum. O senso comum, assim como a filosofia, tem suas razões e suas misérias. Para o senso comum, o pensador, o intelectual, vive no mundo da fantasia, alheio às questões objetivas do cotidiano. Aquele que “quer pensar o sentido das coisas é alguém que não tem senso prático, astúcia para enfrentar o lance das vendas, das trocas, dos prazeres”, observa a professora Leda Miranda Hüne, “e o fato do pensador estabelecer distanciamento com o real imediato passa no mundo social por marginalidade”. A tentativa de marginalizar o intelectual é a miséria da visão de mundo da mulher da Trácia que, no entanto, mereceu o agradecimento de Montaigne pela advertência. Para estar com os dois pés na razão, ela precisaria fazer coro a Demócrito, que não faz distinção entre o pensador e o homem comum, quando diz: “É preciso que o Homem aprenda segundo a seguinte regra: Ele está afastado da realidade”. Pois, afinal, o que é a realidade? O real é ambíguo (lembram-se de Bachelard?). Não conhecemos o real, mas versões do real (lembram-se de Althusser?). O caso de Tales e da mulher da Trácia, contado por Sócrates, é metáfora da verdade, metáfora que condensa numa mesma unidade de sentido as perspectivas antitéticas que a professora Barbara Botter lê no episódio: a seriedade da razão versus a risada do senso comum; o céu versus a profundeza; a essência versus a existência encarnada; o universal versus o particular; o sábio versus o pragmático.
O senso comum costuma confundir a realidade sensível com a verdade, sem perceber que a essência da verdade inclui o mistério (lembram-se de Heidegger?). Para refletir sobre as narrativas que, nunc et semper, disputam a hegemonia da verdade, convém relermos o poema VERDADE, de Carlos Drummond de Andrade, que o professor Edson Nascimento Campos me recomendou para fechar essa matéria.
Verdade
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidem.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(Afonso Guerra-Baião)