A sociedade do cansaço

Minha saudosa mestra, Laene Mucci, me dedicou um de seus livros. Um dos mais impressionantes poemas desse livro começa com os seguintes versos:

“São os cansaços

os donos dos enredos

nas trilhas sem escolha.”

Releio hoje o poema de Laene à luz de uma nova leitura: o livro A SOCIEDADE DO CANSAÇO (Vozes, 2017) do pensador sul-coreano Byung Chul Han. Segundo ele, a sociedade pós-moderna se caracteriza por um excesso de positividade que pode ser sintetizado em dois slogans: “Yes, we can” (“Sim, nós podemos”, da campanha de Barak Obama em 2008) e “Just do it” (“Simplesmente faça”, da publicidade da Nike). Esse excesso de positividade resulta no que Han chama de “sociedade do desempenho”. Nesta, o indivíduo não é mais “sujeito da obediência’, mas é “empresário de si mesmo”. Esse indivíduo assume, como iniciativa própria, o dever de produzir mais e mais, sem outro obstáculo a superar senão seus próprios limites, numa corrida de rato contra a esteira, sem o benefício de um ponto de repouso. Esse empreendedor age por iniciativa própria, a partir de motivações produzidas por outros: coachs, publicitários, formadores de opinião, pastores de uma nova religião – a religião da produtividade, do desempenho no trabalho, onde se buscam respostas para o sentido da vida.

Segundo Han, a hiperatividade contemporânea gera uma doença que ele chama de “infarto da alma”. Esse mal se manifesta como uma perda do poder contemplativo do ser humano que acaba desenvolvendo uma capacidade de “atenção ampla, mas rasa, que se assemelha à atenção de um animal selvagem”. Esse efeito de desumanização foi previsto por Nietzsche em 1878, quando escreveu que a vida humana acaba quando elementos contemplativos são expulsos dela.

Contra a histeria do trabalho e a paranoia da produção, contra o infarto da alma, Byung Chul Han propõe a conexão com a dimensão contemplativa da vida, na qual as pessoas reaprendem a dizer “não” ao excesso de estímulos da sociedade do desempenho. Só seremos humanos em plenitude, quando nos libertarmos dos cansaços que se fazem donos de nossos enredos e nos destinam trilhas sem escolha.