Santo Antônio e os Peixes

Depois da overdose que foram os dez dias do Forró de Curvelo, vamos fazer um pequeno retiro, meditando sobre as reflexões trazidas por uma outra festa, a de Santo Antônio, frade franciscano que viveu entre Portugal e Itália no século XIII. Era um erudito e grande pregador, considerado por S. Boaventura como um homem que tinha a “ciência dos anjos”. Conta-se que ele ajudava as noivas pobres a comprar o enxoval de casamento, motivo pelo qual é ainda hoje cultuado como santo casamenteiro. Outro episódio famoso de sua vida, segundo a tradição oral, é o sermão que Santo Antônio fez aos peixes do rio Marechia, na cidade de Rimini, cujos moradores não queriam dar ouvidos ao pregador. Quatro século depois, esse sermão serviu de inspiração a outro ilustre pregador, também Antônio. Em S. Luís do Maranhão, falando a representantes da elite escravocrata que não dava ouvidos à pregação dos jesuítas contra a escravização dos indígenas, Padre Antônio Vieira simulou falar aos peixes para criticar o enriquecimento de alguns através da exploração do trabalho de outros. O motivo condutor do sermão de Vieira é o versículo “Vós sois o sal da terra”, do evangelho segundo Mateus. Em algumas mitologias indígenas das Américas, diz Lévi-Strauss, o sal, substância mineral, no entanto comestível, se situa na interseção do alimento e do excremento, na encruzilhada da vida e da morte. Vieira convoca os colonos portugueses a serem sal da terra, isto é, a serem agentes da vida, promovendo sabor e saber no mundo, em lugar do sofrimento e da morte causados pela escravidão. Três dias depois de pregar a quem não lhe dava ouvidos, Vieira embarcou para Lisboa, onde foi reivindicar leis que garantissem direitos básicos aos índios brasileiros, que os protegessem da exploração dos colonos brancos.

Relembrar esse magnífico sermão é oportuno no momento em que cresce o número de assassinatos de lideranças indígenas e de ambientalistas no Brasil, ao mesmo tempo em que se desmonta a estrutura de proteção e de fiscalização ambiental;  momento em que o Papa Francisco recebe os bispos da região amazônica, exortando-os a serem “sal da terra”, denunciando tudo aquilo que pisoteia os direitos fundamentais das populações indígenas, anunciando a vida e o cuidado com a casa comum.

Afonso Guerra-Baião