A noite do tempo perdido

Nem mesmo a partida dos Senhores das Estrelas, de volta aos seus domínios, depois de saquearem pela última vez nossos tesouros, devolveu o sorriso ao rosto de meu pai, o Regente de Terras Altas. Nem mesmo o nascimento de Ramo, filho temporão, nem mesmo meu noivado com o morgado de Terra Próxima, aliança capaz de restaurar nossa arrasada economia, nada disso foi capaz de devolver o brilho aos olhos de meu pai. Só o resgate do camafeu da sorte teria esse poder, me disse Saerb, o Druida Primaz. Então, sem dizer nada a ninguém, decidi ir em busca do talismã de minha família. Apenas disse a Durossa, minha jovem madrasta, que amamentava o pequeno Ramo no caramanchão do jardim, que ia repassar o cavalo, meu presente de noivado. E, como se fôssemos velhos companheiros de viagem, o cavalo alado voou comigo até a remota região dos Povos das Cavernas, aliados dos Senhores das Estrelas, únicos capazes de fazer contacto com eles em seus domínios na imensidão do espaço. A sombra já cobria o Vale dos Vales, quando pousei naquelas terras de precoce anoitecer. Deixei meu cavalo com os guardas da guarita, à entrada da Gruta Mestra e fui conduzida por uma galeria estreita até uma pequena sala coberta de estalactites e tenuamente iluminada por ocultas fontes de luz. Só depois de minucioso ritual de revista e entrevista, tive acesso ao salão de um vice-líder. Diante da altiva figura do ancião, fui logo dizendo: “Venho até vós, Senhor do Reino Escuro, pedir de volta um bem da minha família que vossos aliados das estrelas nos tomaram e cuja falta está a matar de desgosto meu pai!” Minha voz ecoou na imensa abóbada.  “Nossos senhores das estrelas confiscaram o que lhes cabia de direito, como despojo de guerra.” Um sorriso paciente confirmava a voz branda do ancião. Eu disse: “A prenda de que falo, o Camafeu da Sorte, esculpida em pedra ordinária, presa a um simples cordão de cobre, só tem valor simbólico e sentimental para minha família.” E o vice-líder: “Não temos aqui o que buscais, Senhora das terras altas.” “Mas sabeis onde encontrá-lo”, eu disse. Ele disse: “Está onde nunca podereis alcançá-lo, sem nossa ajuda.” “Então ajudai-me!”, supliquei. O sorriso desapareceu do rosto do vice-líder: “O que nos dareis em troca?” Eu tinha pronta a resposta: “Em breve serei senhora de Terra Próxima, decerto já sabeis. Esta aliança trará inúmeros e grandes benefícios para Terra Alta e seus aliados. Se me ajudardes, estareis conosco, eu vos prometo.” O ancião pediu que eu esperasse, sentada à mesa de pedra, no meio do salão, fez uma reverência e se retirou. Quando voltou parecia um pouco mais curvado, mas o leve sorriso era o mesmo. “Quem tem os Senhores das Estrelas como aliados, não carece de outros. Mas o conselho dos líderes aprovou vosso pedido, comovido por vossa bravura e grandeza de coração. Nós vos transportaremos ao lugar onde se encontra o bem familiar que reclamareis diretamente aos Senhores das Estrelas. Viajará convosco um dos nossos, como guia e intérprete. Mais não podemos fazer.” “É muito longa a viagem?”, perguntei. “Muito longa, mas só durará o tempo de uma noite”, foi a resposta do ancião. Então, a seu comando, me conduziram num vagonete sobre trilhos, através de intermináveis e escuras galerias, até uma sala com paredes recobertas por placas de aço, no centro da qual havia dois ataúdes cuja tampa translúcida reverberava uma luz tênue e fria. Deitado em um deles, atado por cintos, meu companheiro de viagem, já estava adormecido. Deram-me a injeção, prenderam-me ao outro ataúde e antes de descer a tampa me disseram: “Vosso cavalo também dormirá, até que retorneis, Senhora”. Quando acordei, o intérprete, que já estava a postos, me ajudou a levantar e me sustentou até que recobrasse o equilíbrio e firmasse o passo. Ele disse: “Tudo já está acertado, Senhora! Vamos até o museu, onde está a prenda que reclamais, entre tantos objetos exóticos”. À luz feérica da colossal sala do museu, senti minhas pernas de novo vacilarem, quando um notário se aproximou com a joia nas mãos. Não estendi as minhas para pegá-la, mas abaixei a cabeça, deixando que passasse o colar por sobre meu cabelo. E levando no peito a relíquia que devolveria o sorriso aos lábios e o brilho aos olhos do meu pai, segui o guia, sem perda de tempo, pronta para a viagem de volta. Apaguei da memória o despertar no interior da caverna, esqueci o trajeto por salões e galerias no coração da rocha. Lembro o cavalo a sair de uma enorme caixa, os olhos meio vidrados, os pelos salpicados de gelo, passos incertos, as asas só se abrindo a pouco e pouco. Depois que se refez de todo e comeu a ração que lhe deram, voou comigo de novo no céu brilhante, rumo às Terras Altas. Pousamos no mesmo pátio de onde partimos e subi a pé o trecho que dava no jardim em frente ao castelo. À entrada do jardim estava um moço que de longe pensei ser meu noivo, mas de perto vi que era a imagem do meu pai, vi que era no porte e na fisionomia tal e qual meu pai teria sido quando jovem. “Você…”, balbuciei. “Sou o Regente de Terras Altas, a vosso dispor, Senhora!”, disse ele. “Ramo…”, gemi. Segui seu olhar espantado no rumo do caramanchão onde se sentava uma mulher já entrando em grisalhos. “Durossa!”, berrei. E antes que ela viesse a gritar “Você voltou! Você voltou”, antes que me contasse da morte de meu pai, do casamento do morgado de Terra Próxima com a herdeira de Terra Nova, antes que chorando me contasse tudo sem mais perda de tempo, eu tirei o camafeu do meu pescoço e o coloquei no de Ramo, dizendo: “Eu o busquei para meu pai, agora é seu!” E antes que me carregassem para dentro, senti as pernas vacilarem, senti sobre os ombros o peso da noite de vinte anos e desabei no seu poço de breu.  

Afonso Guerra-Baião

(Paráfrase do conto de Ursula K. Le Guin, “The Necklace”, in “Rocannon`s World”)