Que março sou eu?

Nem bem entrou o ano novo e já estamos em março. Até parece que março voltou a ser o primeiro mês do ano, como nos primórdios da Roma republicana. E, como diz a canção, “pra variar, estamos em guerra”. O mais correto é dizer que estamos em guerras. Invasão da Ucrânia por tropas russas e outras guerras menos midiáticas: bombardeio da Arábia Saudita sobre o Iêmen, país que vive “a maior crise humanitária do mundo atual, com estimativas de mais de 377 mil mortes”, segundo o Alto o Alto Comissariado da ONU para Refugiados. Ataque de drones dos Estados Unidos em território da Somália, segundo o The New York Times: ainda não se sabe quantos somalianos foram mortos no ataque. Bombardeios aéreos de Israel sobre a Síria, em guerra que se arrasta desde 2011. Destruição de áreas de preservação ambiental e invasão de territórios indígenas na Amazônia por madeireiros e mineradores. Guerras de grupos e milícias contra minorias sociais, étnicas, raciais, sexuais e de gênero. 

Até parece que março cumpre um destino etimológico: sua raiz, marc-, é a mesma de Marte, o deus da guerra. Até parece que março é agora o único mês do ano, sempre cumprindo sua sina marcial. Mas, como diz a canção de Gilberto Mauro, em seu recente cd, “Parangolelétrico”, “nada é assim tão simples”. Por sorte, Marte é também o deus da agricultura e da fertilidade. Deve ser por isso que as águas de março fecham o verão, trazendo promessas de vida aos nossos corações. Ao ouvir isso, um amigo me diz: – Promessa é coisa de demagogo. Não se iluda, a História acabou.

Então eu lembro a ele que Marte era o pai de Rômulo e Remo, os gêmeos que, alimentados por uma loba e criados por camponeses, vieram a ser os fundadores de Roma. E pergunto: será que, a partir deste mito, não podemos rescrever a História em sentido inverso, na contramão do Império, dos imperialismos, na direção da outra face de Marte – sua face erótica, voltada para a comunhão com a natureza e a promoção da vida? Meu amigo diz:  – Isso é utopia, fantasia de poeta…

Mas um pensador, Luiz Costa Lima, me diz que o poeta não cria a partir do inexistente, mas cria o que antes dele não existia.

Afonso Guerra-Baião