O porre que virou canção

(Para Eloi Faria no seu aniversário)

Por Newton VIEIRA

Certa vez, tomei um porre homérico. Saí de mim (ou entrei em mim, sei lá) ao ponto de dar vexame. Só Deus sabe como acordei no jardim de casa naquela manhã de domingo. Sim, você não leu errado. Acordei no jardim mesmo, e não no quarto. Isso pelo mais simples dos motivos: não dei conta de girar a chave e abrir a porta.


Comecei a beber à tarde e, como diria minha saudosa mãe, invernei na bebida. “Sacumequié”, né? Uma, duas, três garrafas, a quarta ou quinta saideira, e por aí vai. O véu da noite estendeu-se pela abóbada celeste, e eu na farra. Bebi em vários lugares. Lá pelas tantas, em barzinho da região central, encontrei Elói Faria, que me intimou a sentar-me com ele. Privilégio para mim, claro, estar ao lado do poetamigo e compositor grau-dez. Esvaziamos incontáveis copos de Antarctica, a cerveja “oficial” da nossa turma de boêmios, influência do Delém, garoto-propaganda da marca. Aproximava-se o carnaval. Então aproveitamos o ensejo para compor, em parceria, algo alusivo ao reinado de Momo. Discutimos as ideias iniciais, pedimos caneta e guardanapos ao garçom, tamborilamos na mesa e, pouco tempo depois, estava composta uma marcha-rancho, bem ao estilo das antigas. Gislaine Moreira, radialista, estava no local. Comandava o caraoquê e portava o gravador com o qual costumava entrevistar as pessoas nas ruas, às vezes ao vivo, para a Rádio Clube de Curvelo, emissora do Grupo Nelson Rocha. Graças a essa coincidência, a canção foi preservada. Gislaine fez a gentileza de gravá-la para nós. Na primeira versão, pois a letra definitiva, com referências ao porre e aos astros que eu contemplei ao me deitar ao relento, só ficaria pronta na terça-feira gorda. Assim surgiu “Noitada Sideral”.


Mais tarde, resolvi inscrevê-la em concurso nacional sem falar com o Elói. Quis surpreendê-lo. O regulamento permitia a inscrição dos trabalhos por apenas um dos autores.


Antes de encaminhar a marchinha ao certame, mostrei-a a conhecido crítico, e ele me sugeriu substituir uns dois ou três vocábulos para torná-la menos erudita. Concordei com as alterações. No entanto, quando eu ia mexer nos versos, saltou da tela do computador depoimento da estupenda cantora lírica Maria Lúcia Godoy. Parei para assistir ao vídeo. A “única sucessora” de Bidu Sayão contava que, em determinado Dia do Trabalhador, convidada a se apresentar em Brasília, em festa para um grupo de pessoas mais humildes, integrantes da dita “peãozada”, com medo de soar elitista demais, incluiu no repertório apenas composições de sabor popular. Carregou nas modinhas. Em dado momento, porém – ela não disse por que cargas d’água –, mudou de forma radical o programa e, com aquela voz de soprano que nem parecia terrena, pôs-se a cantar divinamente a ária (cantilena) das Bachianas Brasileiras nº 5, do maestro Heitor Villa-Lobos, clássico marcante de sua carreira. Surpresa! O auditório, até então indiferente ao espetáculo, ficou de pé, irrompeu em aplausos e gritou: – “Bis! Bis! Bis!”


Essa história narrada pela consagrada intérprete, uma das maiores do século XX, remeteu-me de imediato a Joãozinho Trinta. Criticado pela suntuosidade dos desfiles de sua escola de samba, a Beija-Flor de Nilópolis, no fim da década de 1970, o mestre da folia momesca, em artigo para a revista Veja, afirmou que o povo é sofisticado e gosta de luxo. A miséria seria do agrado dos intelectuais, ou dos pretensos intelectuais, segundo a análise do carnavalesco icônico, cuja declaração caiu feito bomba nos meios acadêmicos. Repercussão enorme. Destaque para os comentários de Carlos Eduardo Novaes e Otto Lara Resende no Fantástico de 20 de janeiro de 1980.


Enfim, voltando à vaca-fria, a entrevista de Maria Lúcia Godoy convenceu-me a não mexer na letra. Martelo batido. Quando saiu o resultado do concurso, que alegria estar entre os finalistas! Embora não se sagrasse vencedora, a canção recebeu expressiva quantidade de votos. Seria futuramente registrada em disco.


Bem, chega de tanta arenga. Aí está, na voz aveludada de Elói Faria, a marcha-rancho “Noitada Sideral”.