A parte e o todo

Em um dos ensaios do livro “A caminho da linguagem”, Martin Heidegger afirma que “Todo grande poeta é poeta de uma única poesia”. Esta frase me veio à lembrança quando li sobre o pedido que representantes de movimentos feministas fizeram a Chico Buarque: que não cantasse mais a canção “Com açúcar, com afeto”; pedido motivado pela conotação machista que perpassaria a fala do eu-lírico feminino na letra dessa composição. É preciso reconhecer que essa leitura faz sentido, quando se toma a letra isoladamente, fora do conjunto da obra do autor. É preciso louvar a atitude de Chico Buarque, ao acatar o pedido, reconhecendo o lugar de fala das mulheres nessa questão. Mas convém lembrar que todo grande poeta está sempre a compor uma única poesia, de forma que o contexto de sua obra nos fornece o interpretante válido para cada uma das manifestações parciais do conjunto. Assim é que em vários momentos do cancioneiro de Chico, a voz do eu-lírico feminino é marcada pela ironia (figura retórica em que se declara o contrário do que se pensa). A marca da ironia é notória em canções como “Mulheres de Atenas”, “Cotidiano”, “Mil perdões”, para ficar em três exemplos. Em outras, como “Esse cara” e “Com açúcar, com afeto” a ironia pode ser lida à luz do contexto: o poema único que é a obra de um grande poeta, coerentemente construída. Sem falar nas manifestações políticas do autor como sujeito empírico.


O pedido das feministas foi no sentido de que Chico Buarque deixasse de cantar “Com açúcar, com afeto” em seus shows e em suas apresentações. Talvez fosse melhor que ele, sim, cantasse essa canção ao lado daquelas outras em que a ironia é patente: dessa forma o sentido irônico do todo se refletiria mais claramente na parte, sem que ficássemos privados da beleza particular de sua forma.

Afonso Guerra-Baião