A encruzilhada de Janus

Depois de muito torcer para que 2021 fosse a última conta de um rosário de catástrofes ambientais, sanitárias e políticas, eis que janeiro de 2022 já descortina velhas tragédias e novos dramas.  Mudam alguns cenários (sul da Bahia, Capítólio), trocam-se alguns créditos (ômicron em vez de delta, h3n2 em vez de h1n1, Valourec no lugar de Vale), mas permanece o mesmo roteiro de imprudência, imprevidência e o negacionismo que rima com demência. No elenco, empresas irresponsáveis que se mostram mais incompetentes que o Estado que buscam destruir, além de um presidente que só deixa as férias para apontar arminha contra quem pensa e quem age na contramão da irracionalidade ou das razões perversas.

Mas janeiro vem da palavra latina “Ianuarius”, relativa a Janus, o deus que tinha duas faces: uma que olhava o futuro, à frente, outra voltada para trás, para o passado.  Ianuarius, por sua vez, provém de uma pequena palavra: Ianua – porta, em português.  E é de “Ianuela” (portinha) que deriva a nossa palavra “janela”, cuja dimensão simbólica é captada na definição do Dicionário Michaelis: “Abertura nas paredes dos edifícios, para deixar passar a luz e o ar”. Agostinho de Hipona, filósofo e teólogo dos primórdios do cristianismo, doutor da Igreja Católica, diz que Janus tem poder sobre todos os começos e que em seu nome estão inscritos todos os inícios. Assim é que janeiro nos coloca em uma encruzilhada. Para onde vamos: para frente ou para trás? Caminharemos na direção da luz e do ar livre, ou escolheremos a caverna das sombras e dos mitos? Continuaremos atolados em preconceitos, presos às armadilhas dos enganos? Abriremos novas portas e janelas, transformando-nos e transformando solidariamente o mundo, ou permaneceremos na imanência, no fatalismo, na negação do ser?  

A encruzilhada de janeiro estará aberta à nossa escolha até outubro, quando escolheremos novo presidente e novo congresso. Se Janus olha para frente e para trás, qual dessas direções será o sentido do nosso olhar?

Afonso Guerra-Baião