Romeiros, estrangeiros e poetas

No último quarto do século XIV, Geoffrey Chaucer escreveu os Contos de Cantuária (Canterbury Tales), obra que deixou inacabada, aberta à imortalidade. São vinte e quatro contos, narrados por cada um dos peregrinos que viajam até Canterbury para visitar o túmulo de Thomas Becket, um mártir venerado como santo pelos católicos e pelos anglicanos.


Na Inglaterra daquele tempo, em que os documentos oficiais eram escritos em Latim e a elite falava Francês, causou escândalo o fato de Chaucer escrever a partir das variantes linguísticas do inglês medieval falado pelo povo. Segundo Anthony Burgess, Chaucer teve de recriar a língua inglesa tal como a conhecemos hoje, incorporando traços do Francês que contribuíssem no desenvolvimento do Inglês como uma língua mais flexível.


Chaucer escreveu suas histórias para tornar o Inglês mais doce, dizem os autores africanos que hoje, no século XXI, se reúnem para escrever “Refugee Tales”, ainda sem tradução no Brasil. Nos três volumes desta coletânea, os autores – entre eles Abdulrazak Gurnah, prêmio Nobel de 2021 – recontam os dramas narrados a eles por refugiados que fazem até a Inglaterra uma peregrinação diferente daquela dos peregrinos de Canterbury, que visitavam o túmulo de um mártir; numa viagem semelhante à do retirante nordestino de “Morte e Vida Severina”, eles vêm acompanhando o próprio enterro: enterro simbólico de quem vê morrer toda esperança de acolhimento nos kafkianos labirintos da lei e da burocracia. Abdulrazak Gurnah e seus companheiros de antologia buscam repetir Chaucer, agora na intenção de abrir os ouvidos duros das instituições ao inglês estranhado pelo sotaque dos imigrantes africanos em suas comoventes petições de acolhida e amizade.
Gostaria de encerrar esta crônica com a tradução que fiz de uma dessas histórias de refugiados. Enquanto aguardo pela autorização do editor, termino com uma pequena reflexão sobre o sentido do texto literário.

Chaucer, para dar voz às pessoas simples, ao cidadão comum, evitou repetir ou imitar sua linguagem: em vez disso, ele procurou ouvir na linguagem cotidiana o poema de que fala Heidegger: “o poema esquecido e desgastado, que quase não mais ressoa”. O trabalho de construção textual do escritor não é meramente retórico ou decorativo. O poeta quer recuperar a linguagem como casa do ser – a linguagem que, não sendo repetição, busca manifestar a voz do sujeito humano, perseguindo a utopia de Rubem Alves que é fazer “soar de novo a melodia esquecida”.


Afonso Guerra-Baião