Irmã Clarentina: 46 anos de saudade

Por Newton VIEIRA

“Quem achará a mulher forte?

O seu valor excede tudo o que vem de longe,

e dos últimos confins da terra”. (Prov 31, 10)

Em 18 de novembro de 1975, há exatos 46 anos, a Irmã Clarentina da Fonseca transformava-se em saudade. O tempo passa, e essa mulher extraordinária continua viva na mente e no coração dos curvelanos.

Mas quem foi a Irmã Clarentina?

Ela nasceu no mesmo torrão de Juscelino Kubitschek, em 9 de outubro de 1903, filha de Líbano da Fonseca Freire e Maria Prosperina dos Santos, sendo registrada como Maria da Conceição Fonseca. Somente mais tarde, depois de 1928, ao deixar o mundo secular e ingressar nas Clarissas Franciscanas Missionárias do Santíssimo Sacramento, passaria a se chamar Clarentina. Talvez o nome escolhido seja fusão de Clara, a santa fundadora de sua ordem religiosa, com Diamantina, o local de seu nascimento: CLARA + DIAMANTINA = CLARENTINA.

Por desígnios divinos, acredito, veio residir em Curvelo em 1934, no Orfanato Santo Antônio, e aqui prestou, anos a fio, serviços os mais relevantes aos menos favorecidos, máxime aos moradores da Vila de Lourdes, que então se formava, e aos dos bairros adjacentes. Aquele povo humilde vivia sem saneamento básico, energia elétrica, escola perto de casa, etc. Não contava nem mesmo com capela onde pudesse rezar.

Foram constantes as peregrinações da Irmã Clarentina em socorro do pobre e do desvalido. Tanto que, referindo-se a ela, reportagem do jornal “Curvelo Notícias”, edição de nº 112, chegou a afirmar que se tratava da própria Caridade, a rainha das virtudes teologais, vestida de hábito e com a cruz ao peito. Sem dúvida, não obstante a aparência de frágil, ela foi como “a mulher forte” de que falara Salomão. Não se cansava nunca.

Durante o trabalho missionário, a freira protagonizou situações as mais estapafúrdias. Certa vez, quando pedia auxílio aos transeuntes, diante de tradicional hotel da cidade, alguém lhe cuspiu no rosto. Serena, contam, ela apenas disse ao agressor algo mais ou menos assim:

– Meu adjutório o senhor já me deu. Dê-me agora algum para meus pobrezinhos!

Noutra ocasião, a irmã descobriu, lá em caixa-pregos, um casal que não queria unir-se pelo matrimônio de jeito nenhum. Que fez ela? Dirigiu-se ao casebre dos amantes. Tão logo se viu na frente deles, expressou-se deste modo, em tom grave:

– Vocês fazem muito mal em viverem amancebados. O demônio ronda vocês. Se não se casarem de imediato, o capeta lhes roubará a alma!

Devido ao susto, os amantes resolveram agendar, pressurosos, a data do casório. Chegou o momento das núpcias… Terminada a cerimônia presidida pelo padre Patrício Pedro de Souza, desciam os recém-casados do altar, tranquilos e aliviados (afinal, estavam livres do cão-tinhoso), quando deles se aproximou a Irmã Clarentina e desfechou com esta outra advertência de abismar:

– Agora é que vocês vão ver quem é o demônio! Antes, corriam sério risco, mas já estavam mesmo do lado dele. A partir de hoje, dia em que passaram para o lado de Deus, o capeta não mais lhes dará paz. A raiva dele ficou muiiiito maior. Por isso, rezem bastante e nem pensem na separação!

Assim era a Irmã Clarentina: simples, humilde, do povo. Por isso sua morte, ocorrida há mais de quatro décadas, ainda causa enorme consternação em Curvelo e circunvizinhança.

Certa vez fui surpreendido com a notícia de que um poema manuscrito, de autoria da notável clarissa franciscana, fora encontrado numa gaveta do Instituto Santo Antônio. Caiu-me o texto nas mãos. Li-o emocionado. Como num passe de mágica, minha infância inteira veio à tona. Vi-me com três ou quatro anos, acompanhado de minha mãe, nas missas da capela de Nossa Senhora de Lourdes, onde ouvia tantas histórias da freira benfeitora. Lembro que alguns meninos mais velhos, que a conheceram, confessavam uma trapaça: choravam de mentirinha durante o culto só para ganharem dos biscoitos com os quais ela costumava agradar às crianças.

Mas deixe-me voltar à vaca-fria, isto é, ao poema engavetado.

Em versos de total simplicidade, a freira poetisa disse estar em ablativo de partida para a eternidade e anteviu a bem-aventurança:

“Em muito breve vem a morte me buscar

E, como espero, para o Céu vai me levar.”

Eis aí fato desconhecido de muita gente. Também a Irmã Clarentina escreveu poemas. Foi poetisa bissexta, na classificação de Manuel Bandeira para os que aparecem de raro em raro no reino encantado das musas. Não se mostrou dotada, é verdade, de elevados pendores literários ou de fartos recursos de expressão poética, a julgar pela pobreza das rimas (via de regra, desinências verbais) e da métrica muitas vezes claudicante. Ainda assim, foi poetisa e merece o reconhecimento de quem ama as letras e as artes. Afinal, por que a ela teria de escrever versos bem-arrumadinhos, se sua própria existência já valeu pela mais bonita e rica epopeia, tamanho o seu amor a Deus e aos semelhantes?

Mulher forte, poesia viva. Irmã Clarentina, só sei defini-la assim.