O osso sarado

Recebo de um amigo a cópia de didático diálogo entre uma estudante e a célebre antropóloga norte-americana Margaret Mead. A pergunta feita pela estudante, durante uma palestra sobre antropologia cultural, foi: qual é o primeiro sinal de civilização em uma cultura? A estudante talvez esperasse que a antropóloga falasse de anzóis, bacias de barro ou pedras para amolar. Mead, no entanto, disse que o primeiro sinal de civilização numa cultura antiga é a prova de que o fêmur de uma pessoa foi curado, depois de ter sido quebrado.

Mead explicou que, no resto do reino animal, se você quebrar a perna, você morre. Você não pode fugir do perigo, ir para o rio beber água ou caçar para se alimentar. Você se torna carne fresca para predadores. Nenhum animal sobrevive a uma perna quebrada o tempo suficiente para que o osso cure. Um fêmur quebrado que se curou é a prova de que alguém tirou o tempo para ficar com o que caiu, colocou a pessoa em segurança e cuidou dele até que se recuperasse. “Ajudar alguém a passar pela dificuldade é o ponto de partida da civilização “, explicou Mead. A civilização é uma ajuda comunitária.”

Esses dias, vejo no noticiário a crítica da deputada Janaína Paschoal, do PSL, ao padre Júlio Lancellotti por seu trabalho de apoio a moradores de rua. “O padre ajuda, com alimentos, cobertores e tudo o que pode, os moradores de rua que ocupam a região conhecida como Cracolândia, em São Paulo, um dos pontos mais miseráveis da cidade, onde se concentram dependentes de drogas em estado lamentável”, diz a jornalista Nina Lemos em sua coluna na UOL.

Para a deputada Janaína Paschoal “A distribuição de alimentos na Cracolândia só ajuda o crime.” O padre Júlio rebate dizendo que “Alimentar aquelas pessoas na Cracolândia é uma questão humanitária. Matá-los de fome não resolveria o problema”. O padre reconhece que a deputada deve ser levada a sério pelo fato de não pensar assim sozinha, de que seu pensamento representa o de muitos outros que a apoiam. No entanto, ele insiste: “Não neguemos o pão nem o coração a ninguém”.

Relacionando a polêmica entre o padre e a deputada com o diálogo entre a estudante e a antropóloga, considerando que “a civilização é uma ajuda comunitária” e que “ajudar alguém a passar pela dificuldade é o ponto de partida da civilização “, eu convido você, que me lê, a responder a esta questão: qual das duas posições (a do padre Júlio Lancellotti ou a da deputada Janaína Paschoal) representa para nós, nesse momento de barbárie, um sinal de humanismo, uma promessa de civilização?

Afonso Guerra-Baião