O incrível poder dos sinais de pontuação

Por Newton VIEIRA*

Luís Eduardo, 45, e Maria Aparecida, 43, ambos curvelanos, eram casados havia duas décadas. Advogado, ele prestava assessoria jurídica a empresas de médio porte na região. A secretária dele, morena de um metro e oitenta, lábios carnudos e pernas grossas, enchia-lhe a mente de fantasias. A moça dava indícios de que gostaria de receber galanteios do patrão. Difícil resistir a tamanho encanto. Lá uma bela tarde, o especialista em direito administrativo ingressou no clube dos infiéis. O local da escapadela? O próprio escritório. Findo o expediente, ninguém testemunharia o adultério.

Dias depois, Luís sentiu a consciência carregada de chumbo. A vida conjugal ia bem. Não lhe faltava carinho nem sexo em casa. A companhia da mulher era das mais agradáveis. Como pôde transformar-se em verdadeiro Judas e traí-la? Foi quando lhe ocorreu a luminooooosa ideia de contar tudo à esposa, ajoelhar-se diante dela e pedir perdão. Só assim voltaria a viver em paz consigo mesmo. (…).

Maria Aparecida ficou irada ao tomar conhecimento da traição. Qualificou de imperdoável o deslize do marido. Disse-lhe cobras e lagartos e foi de mala e cuia para a casa dos pais.

A instâncias de amigos, Luís decidiu insistir na reconciliação. Talvez agora, cabeça fresca, Maria Aparecida relevasse o ocorrido. Não logrou êxito nos telefonemas e decidiu comunicar-se com a mulher mediante bilhete. Escreveu:

Meu amor vem aqui amanhã!

Maria Aparecida leu o recado. Quase morreu de ódio. Era acintoso demais. Não suportaria ver o ex com a outra nas ruas e bares de Curvelo. Pensou… pensou… e resolveu mudar-se para Belo Horizonte.

No ano seguinte, durante a Festa de São Geraldo, os dois se reencontraram por acaso na cidade natal. Influenciados pelo espírito religioso, expungiram do coração as velhas mágoas e voltaram a conversar. Conversa vai, conversa vem, tudo se esclareceu. No malfadado bilhete, o causídico se esquecera de empregar a vírgula depois de “Meu amor”, e a professora (sim, Maria Aparecida lecionava português) havia interpretado o texto ao pé da letra.

Veja a diferença:

1) Meu amor vem aqui amanhã!

2) Meu amor, vem aqui amanhã!

No primeiro enunciado, sem a vírgula, “Meu amor” é o sujeito da oração. Luís Eduardo tão somente informa que receberá a visita do ser amado. Mas quem a felizarda? A secretária? A esposa? Um terceiro rabo de saia? Mistério…

Na segunda frase, com a vírgula, “Meu amor” passa a exercer a função de vocativo. Aí a destinatária da mensagem, indubitavelmente, é Maria Aparecida, convidada a comparecer na casa de Luís. Trocando em miúdos: Maria Aparecida e “Meu amor” são a mesma pessoa.

A história é fictícia. Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência. Consegue, porém, mostrar o quanto devemos estar atentos ao uso correto dos sinais de pontuação. Às vezes, a vírgula (ou a ausência dela), como demonstrado, pode até separar o que Deus uniu.

OUTROS CASOS

Veja outros casos em que a pontuação se torna determinante.

Os empregados só voltarão ao trabalho, se a empresa adotar as medidas de prevenção à covid-19” (com a vírgula) ou “Os empregados só voltarão ao trabalho se a empresa adotar as medidas de prevenção à covid-19” (sem a vírgula)?

Tanto faz. Torna-se facultativo o uso do “raminho” quando a oração subordinada adverbial vem depois da oração principal, e não intercalada ou anteposta.

Muitas vezes, porém, dependendo da maneira como está pontuada, uma mesma construção frásica apresenta significados diferentes, tal como no bilhete de Luís Eduardo, meu advogado de mentirinha.

É conhecida a façanha do oráculo que escapou da morte graças ao gigantesco poder de alguns sinaizinhos gráficos. Consultado por um príncipe guerreiro, o espertalhão vaticinou por escrito: IRÁS PARA A GUERRA VOLTARÁS NÃO MORRERÁS. Pois bem. Sabe o que aconteceu ao guerreiro de sangue azul? Mor-reu (com hífen estilístico, bem ao gosto de Seu Feliciano, personagem de Pedro Bismarck em Zorra Total). E morreu justamente no teatro das operações bélicas. Inconformado com a perda do filho, o rei ordenou fosse executado o vidente enganador. Chegou o dia do enforcamento. Na praça, diante do patíbulo, os súditos se acotovelavam. Queriam assistir ao tétrico espetáculo bem de pertinho. O clima era tenso. Havia suspense no ar… Na última hora, o réu conseguiu o direito de se defender. Olhos fixos na família real, declarou alto e bom som: “Tudo se cumpriu conforme eu predisse”. Espanto geral… O soberano contestou a defesa. Mas o falso adivinho, sem titubear, reiterou: “Tudo se cumpriu conforme eu predisse”. Em seguida, pegou o papel com o vaticínio e pontuou a mensagem assim: IRÁS PARA A GUERRA. VOLTARÁS? NÃO! MORRERÁS.

Em 1910, Manaus sofreu terrível bombardeio por causa de um erro de pontuação! O oficial Costa Mendes – relata Humberto de Campos (1) – alarmou-se com as manifestações de alguns revoltosos e telegrafou ao ministro da Marinha, perguntando se deveria arremessar bombas contra a cidade. “Não; tenha prudência”, respondeu o almirante Alexandrino de Alencar. Mas o telégrafo comeu o ponto e vírgula, e a resposta enviada passou a ser: “Não tenha prudência”.

Muitos anos mais tarde, no Congresso Nacional, o ponto e vírgula poria em xeque a interpretação oficial do texto da lei da aposentadoria.

J. Ferraz Freitas (2) registra insólito episódio desenrolado na França napoleônica. Certo soldado, condenado à morte pelo Conselho de Guerra, levou (ele próprio, era o costume) sua apelação ao imperador. Este escreveu no verso do documento: “Se o tribunal condena eu não apelo. – Napoleão”. O soldado, homem de espírito arguto, notou a pontuação incompleta na frase e completou-a de acordo com seu interesse: “Se o tribunal condena, eu não: apelo. – Napoleão”. Resultado: livrou-se da pena capital.

Já o brilhante Mansour Challita (3), libanês residente no Brasil, tradutor do Corão e da poesia de Khalil Gibran, narra o caso do milionário cujo bilhete-testamento, redigido in extremis, não chegou a ser pontuado. Eis o escrito:

“Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres.”

E aí? Quem herdou a fortuna? Cada um dos interessados pontuou o texto a seu modo. A irmã: “Deixo meus bens à minha irmã, não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres”. O sobrinho: “Deixo meus bens à minha irmã? Não, a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres”. O alfaiate: “Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres”. Por fim, o representante dos excluídos: “Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres”.

As próximas eleições serão em 2022. O assunto, no entanto, já pauta discussões e reportagens. E o descuido da pontuação pode causar enorme quiproquó no debate das questões eleitorais. Confira:

1) Só o candidato oposicionista não será eleito.

2) Só, o candidato oposicionista não será eleito.

Percebeu a armadilha? No primeiro enunciado, sem a vírgula, “só” funciona como advérbio. Todos os candidatos situacionistas alcançarão a vitória, e o coitado do opositor (apenas ele) será derrotado. No segundo, “só” tem a função de adjetivo. É sinônimo de “sozinho”. Aí a coisa muda de figura. O candidato da oposição sagrar-se-á também vitorioso, desde que se faça acompanhar de eficientes correligionários, desde que tenha o necessário apoio.

A ausência da vírgula pode destruir a unidade da Igreja Católica. Analise as sentenças a seguir:

1) O Papa que reside no Vaticano nem sempre se encontra lá.

2) O Papa, que reside no Vaticano, nem sempre se encontra lá.

No primeiro período, há uma oração subordinada adjetiva restritiva. Esse tipo de oração delimita o significado do nome a que se refere. Particulariza-o. Confere caráter genérico à assertiva. Ausentes as vírgulas, pode-se afirmar, categoricamente, que a Igreja Católica tem mais de um Papa. No mínimo dois, um dos quais reside no Vaticano. Na certa, houve cisma na religião de Roma. No segundo período, a oração é subordinada adjetiva explicativa, motivo pelo qual se faz necessário o instrumento sintático antes do pronome relativo e depois do topônimo. Para quê? Para dar realce a uma qualidade peculiar ao nome em referência. Com a oração “que reside no Vaticano” virgulada, a Igreja retorna à tradicional unidade. Francisco fica livre de usurpadores do trono pontifício.

Agora observe estas construções:

1) O município de Curvelo tem 10 mil habitantes, que atuam diretamente no comércio e sofrem as consequências da pandemia.

2) O município de Curvelo tem 10 mil habitantes que atuam diretamente no comércio e sofrem as consequências da pandemia.

Qual delas escolher? A segunda, claro, embora esses “10 mil” aí sejam hipotéticos. Na primeira, com a vírgula e, por conseguinte, a oração subordinada adjetiva explicativa, o índice demográfico de Curvelo vai lá embaixo. Vivem no Município apenas 10 mil pessoas. E o mais esquisito: são todas comerciantes ou comerciárias. Não há individuo algum no funcionalismo público, na indústria, na prestação de serviços, na lavoura etc.

Se você quiser informar que, dos mais de 80 mil habitantes de Curvelo, somente a parcela de 10 mil ou qualquer outra atua no ramo comercial, mande a vírgula às favas de imediato.

“O sistema de sinais de pontuação oferece enormes dificuldades aos estudantes, notadamente aos estudantes universitários”, afirmou a saudosa professora Antônia Cleusa Guimarães (4) na entrevista a mim concedida em 2005. Do alto de sua cultura linguística, ela identificou o cerne do problema: “Falta o indispensável conhecimento da sintaxe da língua”.

Mestra Antônia estava coberta de razão. O emprego correto dos tais sinaizinhos gráficos “baseia-se na organização sintática das frases escritas, e não nas pausas e na melodia das frases faladas” (5). Por isso, muita gente boa, em face do pouco contato com a escrita, esquece a virgulação quando ocorre zeugma (elipse de termo anteriormente citado). Ex.: “Eu bebo vinho; ela, suco de laranja”. Colocada depois do pronome “ela”, a vírgula comunica elegância à linguagem, evitando a repetição do verbo “beber” (bebe). Em determinadas circunstâncias, porém, omitem-se termos que não apareceram em nenhum trecho do período, mas podem ser, devido ao contexto e ao emprego da vírgula, facilmente subentendidos por qualquer mortal. Luiz Canabrava assim se expressou em seu premiado livro Sangue de Rosaura (6): “No chão, pedaços de metais, papéis, vidros, arreios, madeiras, colchões velhos”. Que palavra se esconde atrás da capacidade de síntese do genial escritor? O verbo “haver”, lógico: “No chão, (havia) pedaços de metais, papéis, vidros, arreios, madeiras, colchões velhos”.

Todo cuidado é pouco com os sinais de pontuação. Eles são ardilosos, cheios de nove-horas, têm poder de vida e morte sobre os seres e as coisas. Olho neles!


NOTAS:

1 – CAMPOS, Humberto de. Perfis, 2ª série. São Paulo/Porto Alegre/Rio de Janeiro/Recife: Editora Mérito S.A., 1962, pp. 179-182.

2- FREITAS, J. Ferraz. Tudo sobre a vírgulaOrigem, importância e emprego. Rio: Ediouro, 1964, p. 77.

3 – CHALLITA, Mansour. Os mais belos pensamentos de todos os tempos. Rio: Erregê, s.d., 4ª ed., p. 219.

4 – Entrevistei a professora Antônia Cleusa Guimarães para o jornal CN em 2005. Entre os assuntos tratados, o problema da pontuação.

5 – PASQUALE & ULISSES – Gramática da língua portuguesa. São Paulo: Scipione, 1988, p. 344.

6 – CANABRAVA, Luiz. Sangue de Rosaura. Rio: José Olympio, 1954, p. 120.

*Newton Vieira é ensaísta, jornalista e poeta. Pertence a várias instituições culturais, dentre elas a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG) e a Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências ALPAS 21. Em 2018, durante a Feira do Livro de Porto Alegre, recebeu a “Comenda Personalidade Literária Internacional”. Detém prêmios conquistados no Brasil e no exterior, Além dos livros publicados individualmente, figura em dezenas de antologias, como a “Écrivains Contemporains du Minas Gerais”, lançada no Salão do Livro de Paris 2012.