O castelo e o poema

No século XIII, o imperador mongol Kublai Khan, neto de Gengis Khan, sonhou um palácio, desde a planta baixa até as formas da construção e os detalhes de seu acabamento. Ao acordar, descreveu a seus arquitetos o projeto sonhado, ordenou que o realizassem e assim foi feito.


Cinco séculos depois, o poeta inglês Samuel Taylor Coleridge, impressionado com a leitura de relatos de viajantes como Marco Polo, sonhou um poema de cerca de trezentos versos que descreviam um suntuoso palácio do imperador mongol. No dia seguinte, Coleridge se dedicou a recordar e a redigir fielmente o poema sonhado, até que foi interrompido por uma visita inesperada. Quando retomou o trabalho, o texto sonhado havia se desvanecido e não conseguiu ir além dos cinquenta versos já redigidos, que publicou em 1816 como poema inacabado, com o título de “Kubla Khan”, acompanhado de relato do sonho. Existem traduções em Português, de Décio Pignatari e de outros, que podem ser encontradas na internet.


Coleridge não podia saber que o palácio, objeto de seu sonho, também nascera de um sonho, pois só em 1836, vinte anos depois da publicação de seu poema inacabado, é que veio à luz em Paris o “Compêndio de Histórias”, de Rashid ed-Din, onde se encontra a seguinte citação de Ghazan Mahmud, descendente de Kublai Khan: “A leste de Shang-tu, Kublai Khan ergueu um palácio, de acordo com projeto que vira num sonho e que guardava na memória”.
Um sonho gera a realidade de um palácio. Cinco séculos depois, um sonho restaura em versos esse palácio, de que então só restam ruínas.


Para explicar essa curiosa simetria entre dois sonhos, Jorge Luís Borges, que me conta esta história, levanta várias hipóteses, que vão da mera coincidência a conjecturas sobre fenômenos paranormais e até mesmo experiências místicas.


De minha parte, acrescento um pequeno caso que me aconteceu esses dias. Pedi a um amigo que opinasse sobre o poema que acabara de fazer em homenagem às vítimas da chacina de Jacarezinho, em que há referência à canção “Chão de Estrelas”, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa. A primeira coisa que meu amigo disse foi: “Olha que coincidência: hoje é aniversário de Orestes Barbosa!”.


E termino lembrando Gabriela Llansol: “Quando se escreve só importa saber em que real se entra e se há técnica adequada para abrir caminho a outros”.

Afonso Guerra-Baião