Curvelo no tempo da escravidão:

Igrejinha do Rosário com a construção do Santuário de São Geraldo aos fundos. Nas imediações dela foi erguido o pelourinho de Curvelo em 1832

Câmara demoliu pelourinho há exatos 150 anos

Por Newton VIEIRA*

Em 7 de dezembro de 1832, cerca de 5 meses depois de instalar a primeira legislatura na Câmara, com 7 vereadores, apenas um deles (João Nepomuceno Pinto de Carvalho) nascido aqui, Curvelo assistiu à sua “erecção” em vila, como sede de município autônomo.

A palavra soa estranha, mas é exatamente ela a apropriada no caso, ou pelo menos era na época: – EREÇÃO, isto é, ato capaz de tornar oficial a existência de nova jurisdição político-administrativa.

Constou da cerimônia da Ereção, presidida pelo juiz ordinário e dos órfãos, sargento-mor Joaquim José da Silva, o levantamento do pelourinho na Praça da Constituição, onde antigamente havia a Igrejinha do Rosário e se ergue hoje a Basílica de São Geraldo.

A denominação do local fazia referência à carta magna de 25 de março de 1824. Terminada a Guerra do Paraguai (1864-1870), o logradouro passou a se chamar Praça Voluntários da Pátria, em homenagem aos 62 bravos curvelanos que se dispuseram a integrar as forças da Tríplice Aliança contra o exército de Solano López.

Mas, afinal, o que era o pelourinho e o que teve ele a ver com o tenebroso regime escravocrata? Continue a leitura. Explicarei daqui a pouco.

O vocábulo pelourinho (ou peloirinho) – inicialmente grafado “pelovrinho”, com possível origem no latim medieval “pillorium” e passagem pelo francês “pilori” – designava uma coluna de madeira ou de pedra junto à qual os mandatários observavam o princípio da publicidade, dando ao povo conhecimento das decisões de caráter administrativo. Em tal coluna eram afixados, dentre outros, avisos e editais, por ordem do agente executivo (presidente da Câmara e prefeito ao mesmo tempo). Ao lado, costumava postar-se o oficial designado para a leitura, em voz alta, de documentos emanados do poder público, já que os analfabetos constituíam a maioria. Era como se existisse uma espécie de “diário oficial verbal”. Resquícios do direito romano – conjunto de normas e princípios observados no Império dos Césares durante cerca de 12 séculos –, essas normas e princípios influenciaram os códigos formulados na metrópole portuguesa.

Auto de Levantamento do Pelourinho

Em Curvelo, o Auto de Levantamento do Pelourinho veio redigido nos seguintes termos:

“Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil, oitocentos e trinta e dois, undécimo da Independência e do Império. Aos sete dias do mês de dezembro desse ano, nesta povoação de Santo Antônio de Curvelo, foi vindo o sargento-mor Joaquim José da Silva, Juiz Ordinário e de Órfãos, comigo, escrivão do seu cargo, para a criação desta Vila, depois de se haverem publicado os precedentes editais com a mesma criação, em conformidade das ordens expedidas pelo Exmo. Presidente em Conselho da Resolução da Assembleia Geral Legislativa, aos treze de outubro de mil, oitocentos e trinta e um, décimo da Independência e do Império, houve o dito Ministro por criada e erigida em Vila a mesma povoação com a denominação de Vila de Santo Antônio de Curvelo, compreendendo no seu termo a freguesia do mesmo nome, que lhe fora assinada pela supradita resolução e com todos os empregados da Justiça nomeados na mesma resolução, e mandou que, em sinal de jurisdição, se levantasse   o Pelourinho com as insígnias competentes. E tudo assim foi praticado, levantando-se o Pelourinho no lugar denominado Praça da Constituição, de um lado da Matriz, com as formalidades do estilo, em presença de grande concurso de cidadãos, que, em demonstração de seu contentamento, corresponderam aos vivas dados pelo mesmo Ministro à Religião Católica, Apostólica, Romana, à Constituição do Império, a S. Majestade o Imperador D. Pedro Segundo, à Assembleia Geral Legislativa, à Regência e a todos os habitantes desta nova Vila. E, para de tudo constar, mandou o dito Ministro lavrar o presente Auto, o qual vai assinado por muitos dos cidadãos que se achavam presentes com o dito Ministro, depois de lido por mim, Justino Mendes Leal, Escrivão que o escrevi e assino(1)

Demais signatários do documento: Joaquim José da Silva (juiz ordinário), João Marciano de Lima (primeiro agente executivo), Francisco Soares Gomes, Luiz Euzébio de Azevedo, Padre Manoel Teixeira Lages, João Nepomuceno Pinto de Carvalho, Jerônimo Martins do Rego, José Álvares Fernandes, Antônio da Rocha Franco, Antônio da Cunha Dias, Antônio José de Magalhães, Valeriano José Pereira, João Gonçalves de Abreu, Francisco Xavier de Paula, João Soares Rodrigues, José Antônio da Silva, Joaquim Júlio da Silva, Manoel Pires de Almeida, Joaquim de Sousa Trepa, Francisco Solano dos Santos, Bernardo Pinto de Carvalho, Elias Pinto de Carvalho, Manoel Pereira da Silveira, Francisco Félix de Moura, Joaquim Gomes da Silva.

Pelourinho: a coluna da tortura

Embora se destinasse a simbolizar a independência da municipalidade, com as insígnias competentes, conforme se lê no Auto de Levantamento, o pelourinho logo se tornaria, como em inúmeras outras localidades, sinônimo do que pode haver de mais cruel, pois nele os escravos e os sentenciados eram expostos à execração pública e torturados.  Os açoites e os maus-tratos na Praça da Constituição eram constantes.  Com fome, sede e às vezes feridas abertas pelo corpo, alguns negros ou condenados chegaram a morrer ali mesmo.

Consoante Antônio Gabriel Diniz, a tal coluna de madeira, uma vez provida de argolas, prestava-se também à pena de morte por enforcamento (2), conquanto tenham existido no município locais específicos para o cumprimento de tais sentenças, como a forca levantada no Alto do Pau da Reforma, depois Praça da República e agora Praça Benedito Valadares (3). E a História registra o nome de pelo menos um negro ali executado: Celestino Creoulo. De acordo com ofídio da Câmara ao fiscal distrital com data de 11 de setembro de 1850, Celestino teria assassinado, em Taboleiro Grande (Paraopeba), o fazendeiro Francisco de Assis Guimarães.

A derrubada do pelourinho

Em 2021 completam-se 150 anos da derrubada da coluna de suplício instalada na antiga Praça da Constituição em 7 de dezembro de 1832.

Havia leis protegendo os negros de maus-tratos. No entanto, não poucas vezes, a legislação esbarrava “na influência, no prestigio eleitoral do bárbaro senhor” (4). Então a Câmara de Vereadores era obrigada a entrar em cena e tomar sérias atitudes. Alguns senhores tratavam seus servos como membros da própria família. Aliás, Adriana Romeiro e Ângela Vianna Botelho asseguram que, em determinados lugares das Minas do período colonial, devido a uma composição social bem peculiar, muitos “senhores e escravos trabalharam juntos nas mais diferentes atividades, compartilharam a mesma comida, casa e até mesmo o espaço para dormir” (5). Mas existiam igualmente os senhores desprovidos do mais ínfimo senso de humanidade. 

Em 1857, a fim de conter abusos, o major Felicíssimo de Souza Vianna, vice-presidente da Câmara, no exercício da presidência, enviou ao fiscal da vila ofício neste teor:

Ilustríssimo Senhor:

Constando à Câmara Municipal desta Vila que nos distritos deste Termo se tem dado o caso de sevícias e barbaridades de alguns senhores contra seus escravos, resolveu a mesma Câmara, em sessão de doze do corrente, que se oficiasse a V. S. para que recomende aos fiscais dos diferentes distritos a observação do artigo 59 da Lei de 1º de Outubro de 1828, para que, por editais, façam desaparecer esse procedimento imoral e anticristão, dando V. S. execução na parte que lhe compete, o que lhe há por muito recomendado.

Deus guarde V. S.

Curvelo, 20 de outubro de 1857.

Ilmo. Sr. Fiscal desta Vila.

O Presidente, Felicíssimo de Souza Vianna. O escrivão interino, Sabino Duarte de Oliveira (6).

O artigo 59 da lei a que se referem o presidente da Câmara e o escrivão rezava: “Participarão {os vereadores} ao Conselho Geral os maus tratamentos e atos de crueldade que se costumam praticar com escravos, indicando os meios de preveni-los” (7).

Esse diploma baixado por dom Pedro I tratava, em detalhes, de como a Edilidade deveria ser composta e de seu funcionamento.

Chegou o ano de 1871. No fim do segundo semestre, a Câmara Municipal, novamente sob o comando do major Felicíssimo de Souza Vianna, atendendo ao proposto pelo vereador Antônio Vicente de Sousa, do Partido Conservador, decidiu que o pelourinho não deveria continuar de pé.

Na indicação, o edil aproveitou a oportunidade para sugerir ao legislativo municipal o envio de moção de aplausos à princesa Isabel pelo fato de a regente ter sancionado a Lei Nº 2.040, popularmente conhecida como Lei do Ventre Livre. Escreveu ele:

“Indico que esta Câmara ordene ao fiscal que faça demolir o pau denominado pelourinho. Sua existência, neste século de luzes e liberdade, já era um padrão de desonra para esta vila, que não é das mais atrasadas, máxime com a lei de 28 de setembro deste ano, que, em parte, lavou uma nódoa que tanto desonra nossa pátria. Indico mais: que se dirija à Sereníssima Princesa Imperial Regente uma felicitação pela sanção da referida lei, como um passo dado para o progresso e a civilização do país, cumprindo-se com ela um preceito do Divino Mestre: ‘remir os cativos’” (8).

CURIOSIDADE: – Pelo texto da Lei 2.040, de 28/09/1871, no parágrafo 1º do artigo 1º, os negros a partir de então nascidos livres ficariam sob os cuidados dos senhores de suas mães até os 21 anos completos, podendo também ser entregues ao Estado (9).

E antes do pelourinho?

Muito antes do levantamento do pelourinho (1832), lógico, já havia escravidão em Curvelo. Houve desde sempre, e esse é um tema a merecer estudos mais aprofundados. O próprio padre Antônio Corvelo de Ávila, considerado o fundador da localidade, morto em 20 de setembro de 1749, era dono de dezenas de escravos. Potentado rural, ele descendia dos Garcias D`Ávila, da Casa da Torre, cuja história “corre paralela à história do coronelismo no Brasil e é também a crônica do latifúndio nacional” (10).

Baiano de Rio Real, o padre Corvelo, informa Geraldo de Souza (11), chegou a esta região entre 1710 e 1720. Seu testamento, datado de 21 de agosto de 1749, encontra-se no Museu do Ouro, em Sabará, e nele o clérigo relacionou os cativos de sua propriedade, alguns com nomes ou apelidos bem estapafúrdios, como Ana Creoula, José Braço Forte, José Mocambo, Alexandre Cego, Bárbara Banguela e Antônio Trombeta.

A descoberta desse importantíssimo documento em 1954 pelos historiadores Antônio e Sílvio Gabriel Diniz, pai e filho, lançou novas luzes sobre o passado setecentista nestes sertões rosianos.

Em agosto de 2018, pesquisei no Museu do Ouro, assessorado pela especialista doutora Carla Starling, do Ministério da Cultura, em companhia de Aroldo Pinto de Moura e do jovem estudioso Luiz Fernando. Indescritível a emoção de compulsar os originais do testamento do padre Corvelo.

Tráfico de escravos pelo sertão

O pelourinho existente em Curvelo era semelhante a este da gravura de Jean-Baptiste Debret (1835)

Eram relativamente elevados os impostos estipulados pelo Reino para a condução de escravos por terra e mar dentro do território brasileiro. Por causa disso, muitos negociantes do mercado escravista optavam pelo tráfico.

Maria do Carmo Salazar Martins e Helenice Carvalho Cruz da Silva, pesquisadoras do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional – Cedeplar/UFMG, estudaram o chamado Códice 249 do Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB), fonte de dados da qual conta o registro de concessões de passaportes para exportações de escravos, mormente de Salvador para Minas Gerais.

Em determinado trecho de trabalho disponível no ciberespaço, as mencionadas estudiosas dão conta de que, conforme “informações prestadas por 233 condutores de escravos que especificaram o sítio para onde se dirigiam, as localidades de destino eram, basicamente, Serro do Frio, Curvelo, Minas Novas, Rio Pardo, Morrinhos, São Francisco das Chagas, Itacambira, São Romão, Salinas, Santo Antônio da Manga, Paracatu e Barra do Rio das Velhas, quase todas dentro ou nos limites da Demarcação Diamantina” (12).

Quanto aos traficantes de escravos, estes procuravam escapar à vigilância dos fiscais da Coroa transitando por estradas mais longas, porém mais convenientes à atividade clandestina. Essas estradas constituíam o cognominado Caminho do Sertão. E Curvelo se inseria na rota utilizada por esse tráfico negreiro praticado a partir da Bahia. Além do extravio de cativos, o itinerário sertão adentro, acentuam as citadas pesquisadoras, também “propiciava os descaminhos de mercadorias” (13).

Alguns historiadores garantem que vários dos tropeiros, de tão marcante presença na formação do núcleo populacional curvelano, podem ter sido, na verdade, traficantes de escravos disfarçados.

As sequelas da escravidão

Com a historiadora Carla Starling, Aroldo Pinto de Moura e Luiz Fernando pesquisando no Museu do Ouro – Sabará. Lá se encontra o original do testamento do Padre Corvelo

Em 13 de maio de 1888, um domingo, a princesa Isabel assinou a Lei Nº 3.353, imortalizada na História com o epíteto Lei Áurea, declarando extinto o escravismo em todo o país, após votações na Câmara dos Deputados e no Senado Imperial.

Entre os senadores, destaco a atuação do jurista Cândido de Oliveira (1845-1919) em virtude de sua presença marcante na história curvelana. Nascido em Ouro Preto e formado pela Faculdade de Direito de São Paulo, Cândido Luiz Maria de Oliveira veio para Curvelo como juiz municipal. Aqui foi promotor de Justiça e provedor da Santa Casa – Hospital Santo Antônio –, de 1868 a 1869 e de 1873 a 1875. Aqui se casou na família Pereira de Oliveira. Aqui esteve na vereança de 02/10/1873 a 07/01/1877 e de 07/01/1877 a 07/01/1881 (14). Aqui empresta seu nome a uma das principais ruas. Era ligado à facção dos Viannas, portanto se contrapunha à dos Mascarenhas. Mudou-se para o Rio de Janeiro. Na capital do Império, ocupou o cargo de ministro da Guerra no Gabinete de Souza Dantas, de 06-06-1884 a 04/05/1885, e respondeu pela pasta da Justiça no Gabinete chefiado pelo Visconde de Ouro Preto, de 07/06/1889 a 15/11/1889, data em que o marechal Deodoro da Fonseca instaurou a república mediante Putsch, sob os auspícios das elites agrárias e sem respaldo popular. Aliás, o povo nem tinha ideia do que se tratava. Estava atônito. “O povo assistiu àquilo bestializado”, conforme escreveu o republicano Aristides Lobo numa carta divulgada em 18/11/1889. Pelo Decreto Nº 78-A, o novo governo baniu dom Pedro II e a família imperial do território brasileiro. Cândido de Oliveira, fiel ao imperador, teve a casa invadida por militares e se viu obrigado a também seguir para o exílio. Morou em Portugal. De volta ao Brasil, montou escritório de advocacia e passou a lecionar na Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, onde se tornou epônimo de centro acadêmico.

Mas qual o papel desse curvelano de consideração no processo abolicionista?

Nomeado senador vitalício em 1886, Cândido de Oliveira esforçou-se sobremodo para agilizar, no Parlamento, os trâmites dos projetos que objetivavam a liberdade do elemento servil. No Senado, na sessão de 12/05/1888, na ordem do dia, ele aparteou João Maurício Wanderley, o barão de Cotegipe, escravocrata ferrenho, para dizer que os negros deveriam ser tratados como “cidadãos brasileiros”. Cotegipe ironizou: “São libertos; mas direi, se quiser, até que são ingleses (risadas). Eu uso do termo próprio” (15). Aprovada a Abolição, Cândido de Oliveira integrou o grupo de parlamentares que levaram a lei ao Paço Imperial para a assinatura da regente.

A magnífica notícia do fim do cativeiro chegou a Curvelo três dias depois, numa quarta-feira, dadas as dificuldades de comunicação da época.

Não no livro Ephemerides curvellanas, clássico da historiografia local, mas em opúsculo resultante de conferência proferida em 1930, o jornalista, político, historiador e poeta monsenhor Francisco Xavier de Almeida Rolim, titular da Paróquia de Santo Antônio, discorreu sobre a tristeza de ter convivido com o regime escravocrata. Mestre do vernáculo, ele assim se expressou: “Por felicidade vossa, ó moços que me ouvis, quando vossos olhos fitaram o formoso céu que, como enorme pálio, se abre sobre vossa estremecida pátria, não tiveram a desdita de contemplar nele a nódoa aviltante que se chamava escravidão. Eu, infelizmente, tive a dor lancinante de vê-la deformando nosso firmamento estrelado! E, quando moço, nunca deixei de lamentar a vergonhosa desgraça que humilhava nosso querido Brasil (16)”. Na mesma palestra, um pouco mais adiante, monsenhor Rolim descreveu como se sentiu ao anunciar aos curvelanos o triunfo do projeto abolicionista: “A minha dor e a minha angústia devem servir de medida à exultação  que  me dominou a alma quando, na tarde do dia 16 de maio de 1888, tive a ventura de transmitir a esta cidade {Curvelo}, pelos repiques demorados dos sinos das igrejas e pelo estrugir de centenas de fogos artificiais, que a escravidão estava extinta em nossa pátria muito amada” (17).

A receptividade entre os curvelanos, de acordo com relatos históricos, foi a melhor possível. A Fazenda São Sebastião, que chegou a ter cerca de 150 escravos (18) e contava com 72 naquele maio de 1888, em lançamento contábil, conquanto alegasse prejuízos com a Abolição, designou a Lei Áurea como “Sancta Lei” (19).

No fundo, as decisões do Parlamento e o ato da princesa Isabel não causaram grandes surpresas. Já era tudo esperado. O Brasil estava em situação vexatória no concerto das nações progressistas. Isolado na América neste particular, tinha de abolir a escravatura o quanto antes. E o fez, ainda que de forma lenta e gradual, sob a alegação de que qualquer celeridade poderia suscitar revoltas sem precedentes. Conflitos sangrentos verificados além-fronteiras, como a Revolução Haitiana (1791-1804) e a Guerra de Secessão (1861-1865) nos Estados Unidos, sempre vinham à baila na imprensa e influenciavam os debates.

Sem dúvida, a Abolição representou enorme passo dado pelo país no rumo de se firmar como civilizado perante o mundo. No entanto, passadas as comemorações daquele 13 de maio, os ex-cativos se viram, por assim dizer, abandonados à própria sorte. Malograram-se tentativas, como a da sociedade criada pelo advogado Leovigildo Filgueiras, de conseguir ocupação remunerada para os libertos. O programa de criação de imposto territorial sobre fazendas improdutivas, proposto pelo engenheiro André Rebouças, negro genial, foi propositadamente retirado de pauta Destarte, a ideia de fundar cooperativas de pequenos camponeses não prosperou. Especialista no assunto, o historiador Luiz Felipe de Alencastro explica por quê: “A maior parte do movimento republicano fechou com os latifundiários para trazer imigrantes que trabalhassem nas fazendas e não mexer na propriedade rural. Essa virada dos republicanos jogou Nabuco, Rebouças e outros no escanteio e os fez apoiar a monarquia até o fim” (20).

Por falar em Joaquim Nabuco, em Minha formação (21), obra-prima da memorialística brasileira dada à estampa em 1900, o fundador da cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras asseverou: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”.

Profético! O acatado intelectual do Recife estava certo. Certíssimo. A herança maldita deixada pela cultura escravagista está aí esfregada em nossos olhos, escancarada nas desigualdades de acesso a bens, conhecimento, serviços etc.. São sequelas e mais sequelas, incontáveis cicatrizes, ou melhor, chagas ainda nem pensadas, que dirá “com-pensadas”..

Vira e mexe, deparamos com notícias de pessoas trabalhando em condições análogas às do regime escravocrata. Vou dar apenas dois exemplos. No jornal Hoje em Dia, de 14/05/2018, sob o título Impunidade faz disparar trabalho escravo em Minas: “Auditor fiscal do Ministério do Trabalho em Minas, Marcelo Campos relata que, só na última semana, foram encontrados na zona rural de Curvelo, região Central do Estado, 25 pessoas em situação de escravidão”. No portal R7, de 28/01/2021, portanto para lá de recente, em matéria intitulada de Trabalho escravo: 29 vítimas são regatas em MG em duas semanas:  “Foram 15 vítimas de trabalho escravo encontradas em carvoarias na cidade de Pirapora, a 340 km de Belo Horizonte, outros 11 libertados de uma fábrica de cerâmica em Curvelo, a 169 km da capital mineira e mais três em Inhaúma, a 90 km de BH.

E o pior está por vir: corolário da crise socioeconômica gerada pela pandemia da covid-19, o número de pessoas no exercício de algum tipo de trabalho escravo deverá aumentar, paralelamente ao crescimento do número de trabalhadores informais, no entender do japonês Tomaya Obokata, relator especial das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.

Como se vê, no sesquicentenário da derrubada do malfadado pelourinho de Curvelo e nos 133 anos da assinatura da Lei Áurea, ainda não podemos comemorar de modo pleno o fim da coisificação do ser humano nesta terra abençoada por Deus e bonita por natureza.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:

1 – Revista Acaiaca – Edição Nº 67. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1955, pp. 57 e 58. Obs.: Atualizou-se a ortografia.

2 – DINIZ, Antônio Gabriel (com a colaboração de DINIZ, Sílvio Gabriel). Dados para a História de Curvelo – vol. I. Belo Horizonte: Editora Comunicação, 1975, p. 141.

3 – Sousa, Geraldo de. Imagem histórica de Curvelo. Belo Horizonte: Editora Santa Edwiges, 1993, p. 36. Obs.: No livro em tela, o patronímico do autor vem grafado com S.

4 – DINIZ, Antônio Gabriel (com a colaboração de DINIZ, Sílvio Gabriel). Ob. cit., p. 163.

5 – ROMEIRO, Adriana e BOTELHO, Ângela Vianna. Dicionário histórico das Minas Gerais – Período colonial. Verbete Escravidão. Belo Horizonte: Autêntica, 2003, p. 130.

6 – VIEIRA, Newton. O passado se faz presente – Ensaio. Curvelo: Gráfica Lumen Christi, 2001, p. 17. Obs.: Atualizou-se a ortografia.

7 – Fonte: https://portal.trf1.jus.br – Consulta em 12/05/2021.

8 – DINIZ, Antônio Gabriel (com a colaboração de DINIZ, Sílvio Gabriel). Ob. cit., p. 142.

9 – Blog da Biblioteca Nacional – FBN/História, acesso em 12/05/2021).

10 – LUNA, Luiz e BARBALHO, Nélson. Coronel dono do mundo. Brasília: Cátedra, 1983).

11 – SOUZA, Geraldo de. Nos tempos do padre Corvelo. Curvelo: Edição do Autor, 1995, p. 25. Obs.: no livro em tela, o patronímico do autor vem grafado com Z.

12 – MARTINS, Maria do Carmo Salazar e SILVA, Helenice Carvalho Cruz da. Via Bahia: A importação de escravos para Minas Gerais pelo Caminho do Sertão – 1759-1772. In: https://diamantina.cedeplar.ufmg.br . Consulta em 07-05-2021.

13 – Idem, ibidem.

14 – Atas da Câmara Municipal de Curvelo. Arquivo Público Mineiro (APM). Código: CV, p. 170.

15 – Transcrição da sessão de 12 de maio de 1888. Anais do Senado. Ano 1888. Livro 1, p. 36. Obs.: Atualizou-se a ortografia.

16 – ROLIM, Francisco Xavier de Almeida. Abolição da escravatura no Brasil – Conferência declamada na sede da Associação de Moços Católicos de Curvelo aos 13 de maio de 1930. Curvelo: Tipografia Voz do Povo, 1930, pp. 3 e 4. Obs.: Atualizou-se a ortografia.

17 – Idem, ibidem, p. 4.

18 – SOARES, Juvenal Pereira. Síntese histórica de Curvelo. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1988, p. 19.

19 – DINIZ, Sílvio Gabriel e DINIZ, Antônio Gabriel (in memoriam). Dados para a História de Curvelo – vol. III. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1989, p. 147.

20 – ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Entrevista à BBC News/Brasil em 13 de maio de 2018.

21 – NABUCO, Joaquim. Minha formação. Leitura on-line em www.nead.unama.br, p. 76.

*Newton Vieira é ensaísta, jornalista e poeta. Pertence a várias instituições culturais, dentre elas a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG) e a Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências ALPAS 21. Em 2018, durante a Feira do Livro de Porto Alegre, recebeu a “Comenda Personalidade Literária Internacional”. Detém prêmios conquistados no Brasil e no exterior, Além dos livros publicados individualmente, figura em dezenas de antologias, como a “Écrivains Contemporains du Minas Gerais”, lançada no Salão do Livro de Paris 2012.