No Dia Mundial do Livro, algumas reflexões sobre a leitura

Por Newton VIEIRA*

Para celebrar o Dia Mundial do Livro, nesta quinta-feira, 23, resolvi publicar este artigo, resumo da palestra “Nas Linhas, Entrelinhas e Além das Linhas – Reflexões Sobre o Universo da Leitura”, proferida por mim perante os corpos docente e discente do Curso de Letras da Faculdade de Ciências Humanas de Curvelo (Facic), em 02/06/2008, a convite da inesquecível professora Antônia Cleusa Guimarães, por sugestão da professora Sheila Nara Guimarães, que ontem ficou “encantada”.

Seja esta publicação singela homenagem a Sheila, pelo muito que ela fez em prol da Educação e da Cultura.

Por que é importante ler?

Quem se questiona e questiona outrem deseja respostas. E muitas das respostas desejadas encontram-se no livro, o “mudo que fala”, o “surdo que responde”, o “cego que guia”, o “morto que vive”, na célebre definição de Antônio Vieira, em 1652, no Sermão de Nossa Senhora de Penha de França[1].

Ler seria então, penso eu, uma forma de saciar ou pelo menos mitigar a sede de entendimento de mim mesmo e do mundo à minha volta.

Pennell & Cusack, em Como se Ensina a Leitura[2], oferecem algumas explicações plausíveis para o ato de ler: – as pessoas leem pelo desejo de conhecer algo, por necessidades profissionais, por prazer, para maior compreensão da vida, para acalentar sonhos não realizados, para orientação da conduta.

A leitura, numa síntese do que expõe o acatado crítico norte-americano Harold Bloom, em Como e Por Que Ler, destina-se ao enriquecimento da consciência. Daí a recomendação dele: deve-se ler o que realmente valha a pena. Para o autor, Harry PotterO Senhor dos Anéis e quejandos não agregam valor algum; estão fora e a quilômetros de distância duma espécie de cânone ocidental. “Esses livros – dispara o professor da Universidade de Yale – você os lê, diverte-se e depois os joga na cesta de lixo”[3].

Mereceriam mesmo tais obras o destino da lixeira? Bem, há controvérsias.

A humanidade ainda era ágrafa quando as histórias começaram a ser contadas. Os primitivos tinham duas tarefas básicas a desempenhar: caçar para garantir o sustento do grupo e defender esse grupo das investidas das feras. Como os idosos não estavam aptos a nenhuma delas, não lhes suportariam o peso, receberam então outra incumbência: tomar conta das crianças. Para entreter os pequenos, os anciãos começaram a contar histórias de seus antepassados.

Se escrever, do ponto de vista literário, é também contar histórias, ler seria assimilar e (re)viver as histórias, e não pura e simplesmente decodificar os sinais gráficos nelas existentes, porquanto a leitura transcende a mera identificação de símbolos.

Em determinadas escolas de determinada época, o aluno/leitor – desculpem-me se parecerei redundante – não podia ver pelo próprio olhar ou sentir pelos próprios sentidos. Deveria, “frente ao texto”, como recorda Neusa Sorrenti, “adequar-se ao que a autoridade escolar via ou propunha ser visto”[4]. Era a leitura parafrásica, aquela depois da qual o estudante se limitava a repetir, com suas palavras, as mensagens transmitidas pelo autor, “deixando de lado o texto como sistema de intertextos”[5].

Esquecia-se a “leitura de qualidade”, do “texto entendido como tessitura, tecido”[6], em detrimento da formação integral do leitor.

Transcorreram sóis e luas… Percebeu-se que não bastava proceder à leitura nas linhas; era preciso também ler nas entrelinhas. E mais: além das linhas, inter-relacionando os sentidos: o olhar (visão), o tato, o olfato, a fala. Sim, tudo isso entra no processo da leitura. Ler além das linhas é fundamental porque um “livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber”[7]. Deve-se ler com todo o ente espiritual porque a letra, por si só, não efetua a comunicação completa e é até capaz de matá-la… Quem vivifica tudo é o Espírito, como proclamava o apóstolo Paulo[8]. Ele se referia à Sagrada Escritura, mas a assertiva, a meu ver, aplica-se a quaisquer formas de texto.

Sabedor dessas verdades, Goethe confessava, aos oitenta anos, ainda não ter atingido a perfeição na leitura. Talvez por isso tenha morrido a implorar “mehr Licht”, isto é, mais luz!

O livro não é só para ser visto, perlustrado signo a signo, vocábulo por vocábulo, período por período, capítulo por capítulo. Não! O livro existe para ser também cheirado, acariciado, osculado, sentido, e vai por aí afora. Alaíde Lisboa de Oliveira, em Impressões de Leitura, assim termina comentário a um trabalho de Miguel Augusto Gonçalves de Souza: “Pela força da comunicação, o apelo aos sentidos é constante; não é apenas um ler, é também um ver, um saborear, um sentir”[9].

É deveras importante o toque das mãos, a carícia, o calor do corpo, tanto quanto a visibilidade. Isso é comigo mesmo. Quando saiu meu primeiro livro, dormi abraçado a ele e o cobri de beijos.

Na tradição oriental, conta Moacyr Laterza, mestre em Filosofia pela University Notre Dame du Lac-South Bend (Indiana, EUA), a par da visão, sempre vem o tato, com o “seu poder de significação e comunicação”[10].

E a fala? Onde ela entra? Entra no processo de difusão do conhecimento, da partilha do belo. É quando cada um comenta o que leu ou declama poemas nas tertúlias, nos saraus, eventos infelizmente tão escassos hoje, ainda mais após o advento da pandemia. E a partilha é fundamental, por um motivo muito simples: o livro pode ser o mesmo, mas a leitura será diferente para cada pessoa; no seu processo, atuam inúmeras variáveis.

O efeito da leitura varia – e como! – até numa mesma pessoa, dependendo das circunstâncias, do estado de espírito, de múltiplos fatores e… de outras leituras, correlatas ou não.

Para mim, lá pelo desabrochar da adolescência, a história de Robinson Crusué era apenas a narrativa de mais uma aventura como tantas outras. E “c’est fini”. Ou “zefini”, como aportuguesou o personagem da Escolinha do Professor Raimundo.

Em adulto, depois de outras leituras e releituras, lendo pelo sistema de intertextos, compreendi que, por trás daquela aventura narrada em epístolas, estava o romance de cunho sociológico e, nele, contribuições às Ciências Humanas, máxime ao Direito, no tocante a cláusulas contratuais e a conceitos  contemporâneos como o de igualdade, bem como aspectos da teoria do bom selvagem, aquela repaginada por Jean-Jacques Rousseau e, segundo a qual, o homem nasce bom e sem vícios, a sociedade civilizada é que o corrompe.

Abro parêntesis para lembrar que as cogitações do filósofo iluminista estribavam-se em Jean de Léry, o cronista da França Antártica[11], e tinham raízes – quem diria?! – nas ideias lançadas pelo abade de Saint-Pierre.

Só fui compreender essas coisas duas décadas depois, mas tudo sempre esteve, intertextualmente, nas páginas de Robinson Crusoé, sobretudo na relação do protagonista com o índio Sexta-Feira. O livro em nada mudou. Quem mudou fui eu enquanto leitor. E mudei para melhor. A propósito, a leitura tem compromisso com a mudança. Ela é capaz de trans-for-mar… Ninguém pode ler uma obra monumental e ficar do mesmo tamanho. Não! Esse leitor tem de sentir-se trans-for-ma-do, en-gran-de-ci-do, a não ser que não tenha ocorrido a real assimilação do conteúdo.

Essa transformação pode dar-se de forma gradativa diante do mesmo livro, como no meu caso com o Robinson Crusoé. O sujeito lê hoje e passa a enxergar mais longe; relê daqui a um ano e passa a enxergar mais longe ainda.

Lúcio Cardoso, nos Diários, revela ter tido grata surpresa ao reler, de Euclides da Cunha, a Ilíada brasileira:

“Começo o domingo relendo Os Sertões, de que só guardava uma confusa lembrança, como leitura de adolescência. Surpreende-me que não encontre mais as famosas dificuldades que deparei na época – a linguagem me parece menos preciosa, e os problemas também diminuíram de tamanho. O que equivale a dizer que a leitura agora tonou-se mais agradável[12]”.

Mais adiante, o autor de Crônica da Casa Assassinada mostra, estupefato, como alterou seu ponto de vista ao revisitar Dostoiévski:

“Depois de muitos anos, releio Os Irmãos Karamázovi. Lembro-me de ter lido várias vezes que Alioscha representa para Dostoiévski a imagem do homem total, e agora, nesta nova leitura, observo o quanto isto não deve ser exato. O homem total – ou o homem simplesmente – devia ser representado para ele pelos três tipos simultâneos: Ivan, Dimitri e Alioscha. Os três são dissociações de um mesmo temperamento e suas gradativas metamorfoses. Somados, completam uma imagem ideal do homem que se aproxima muito mais da verdade do que a figura isolada de Alioscha – uma idealização romântica do Bem”[13]

Vê-se que verdadeira metamorfose se opera entre uma leitura e outra, por menor que seja o intervalo. Afinal, “Tudo que se vê não é/ igual ao que a gente viu há um segundo”[14], conforme canta Lulu Santos. É o fenômeno do devir, o constante vir a ser. Se as próprias pessoas “ainda não foram terminadas” e “vão sempre mudando”[15], que dirá suas ideias.

Lúcio Cardoso, absolutamente atual, tinha razão: as sucessivas leituras desfazem enganos.

Ainda pirralho, li, em trabalho didático, a sentença “Navegar é preciso, viver não o é” atribuída a Fernando Pessoa. Mais tarde, caiu-me nas mãos a obra completa do poeta luso, e lá estava, no prólogo de sua poesia, apenas a título de citação: “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: / ‘Navegar é preciso, viver não é preciso’”. Passado algum tempo, lendo Plutarco, descobri que o verdadeiro autor do enunciado era Pompeu, filho de Estrabão.  Diante do porto de Siracusa, na Sicília, na iminência de aterradora tempestade, aos marinheiros que tentavam demovê-lo da ideia de viajar para Roma, o estrênuo general respondeu: “Navigare necesse, vivere non necesse”. O argonauta tinha pressa em singrar as águas, pois deveria abastecer de trigo a Cidade Eterna e seus arredores[16].

De início, achei os dizeres horrendos. Como alguém poderia colocar a navegação acima da própria vida? Agora, empregando “preciso” com o sentido de “exato”, na moderna interpretação suscitada pelo bardo português, consigo achá-los rutilantes. Quem navega hoje, ao contrário da época de Pompeu, tem indicações precisas (isto é, minuciosas) dos rumos a serem tomados.  Na vida, porém, nada há que indique exatamente os caminhos a serem percorridos porque “viver é etcétera…”[17] e, talvez por isso, seja também “muito perigoso…”[18].

Vejam aí quantas transformações se processam em um mesmo leitor em face de uma mesma peça literária.

Se a leitura tem o condão de transformar o homem, se o livro, “não tendo ação em si mesmo, move os ânimos e causa grandes efeitos”[19], tal como ensina a parenética de Vieira, a arte da literatura nunca será algo fútil. Nunca. Nem mesmo a poesia, frequentemente acusada de devaneios.

“No princípio era o Verbo”[20], salientou, no ritmo dos poemas semíticos, o prólogo do Evangelho pneumático. E o verbo era o plectro, a metáfora, a emoção. No entender de Giambattista Vico[21], napolitano do século XVII, a poesia dominava a fala dos primitivos. Surgiu antes da prosa. Esta, mais racional, só se estabeleceria posteriormente no reino da espécie humana.

O hábito de dedilhar a lira nasce, portanto, vinculado às necessidades da comunicação. 

O fazer poético não constitui mero ornamento da linguagem. Pode até ornamentá-la. Talvez até deva fazê-lo. Mas não será apenas atavio, recamo, adereço, enfim algo supérfluo. É ARTE. E como tal é uma das maneiras de o EU ser e estar no mundo. Sentencia Laterza:

“O SER esplende através da Arte. A Arte funda o SER, fundamenta-o no seu desvelamento. Por isso o filósofo diz que a Arte é sempre uma palavra essencial. A Arte, qualquer que ela seja, com imagem ou sem imagem, é sempre palavra. Ora, a palavra é a morada do SER. E o que é ‘morada’? Moradia?  O que é a casa? A casa é o lugar aonde eu volto para confirmar minhas certezas. A casa é o abrigo; é o lugar do recato. Por isso, ninguém vai invadindo a minha casa; ninguém vai invadindo a mim mesmo”[22].

Lê-se por prazer, é verdade, para passar o tempo, para, no asserto de Montesquieu, “fazer uma troca de horas de enfado por horas deliciosas”[23]. Porque o lúdico é inerente ao ser humano: HOMO LUDENS (Johan Huizinga). Mas também se lê na busca da formação e da informação, a partir das quais se possa re-a-li-zar, e-di-fi-car algo de útil e bom: eis o HOMO FABER de Henri Bergson, digamos, mais aprimorado. Lê-se para refletir melhor, pensar melhor, ter clareza e largueza de pensamento. E isso constitui esteio à própria existência, como proclamou René Descartes, no Discurso do Método: COGITO, ERGO SUM (PENSO, LOGO EXISTO!). Vêm a pelo, aqui, os versos nos quais Castro Alves chama de bendito quem semeia livros porque, destarte, “manda o povo PENSAR”:

“Oh! Bendito o que semeia

Livros… Livros à mancheia…

E manda o povo pensar!

O livro caindo n’alma

É germe – que faz a palma,

É chuva – que faz o mar”. (O Livro e a América)

Será que o esforço hercúleo para a aprovação de proposta de reforma tributária na qual os livros são taxados em 12%,, com o consequente aumento no preço final, ao arrepio dos versos do Poeta dos Escravos, serve a algum interesse escuso de que o povo não pense?… Mistério…

Confúcio, o sábio chinês cujos Analectos chegaram ao Ocidente graças ao jesuíta italiano Matteo Ricci, considera a leitura e a reflexão inseparáveis: “Ouvir ou ler sem refletir é uma ocupação inútil; refletir sem livro nem mestre é perigoso”, afirmou ele[24]

Minhas leituras e meu eu

Numa apropriação nada indébita da premissa cartesiana, acredito seja tranquilamente possível assegurar: LEIO, LOGO EXISTO.

Faz sentido a paráfrase. Ler é construir a estrutura íntima. É construir a identidade própria e, por conseguinte, a coletiva. Daí Monteiro Lobato ter dito –  impressionado com as bibliotecas e o progresso dos Estados Unidos, onde morou de 1926 a 1931 – que só se constrói um país com homens e livros. E livros de considerável conteúdo fazem homens virtuosos, acrescente-se.

No Portugal do século XV, Dom Duarte, no Leal Conselheiro, já apontava estas vantagens nos leitores: “primeiro: despender o tempo em bem fazer; segundo: acrescentar em boa sabedoria; terceiro: pôr cuidado, quando estiver ocioso, havendo lembrança do que leu; não se ocupar de alguns não bons pensamentos, antes retornando ao que aprendeu; acrescentar em bom saber e virtude.”[25]

Pela leitura, aumento o grau de intimidade entre mim e… mim mesmo.

As histórias infantis começam sempre pela fórmula “Era uma vez”. Já notaram? “Era”, no caso, é o verbo ser com o sentido de existir = “Existia uma vez” seria o equivalente. Por isso as histórias mexem com o meu interior, permitem-me a autoidentificação, acrisolam minha capacidade de discernimento. As histórias, segundo Neusa Sorrenti, favorecem-me na “aceitação de situações desagradáveis”, ajudam-me a “resolver conflitos”, no momento em que me concedem o benefício da esperança. Convém reiterar: concedem-me o benefício da ESPERANÇA. Daí a necessidade de o hábito da leitura começar a desenvolver-se na infância. A especialista em literatura infantojuvenil socorre-se do Vintém de Cobre, de Cora Coralina, para mostrar como se processa a identificação:

Minhas estórias da Carochinha, meu melhor livro de leitura, capa escura, parda, dura, desenhos preto e branco.

Eu me identificava com as estórias.

Fui Maria e Joãozinho perdidos na floresta.

Fui a Bela Adormecida no bosque.

Fui Pele de Burro. Fui companheira de Pequeno Polegar e viajei com o Gato de Botas.

Morei com os anõezinhos.

Fui a Gata Borralheira que perdeu o sapatinho de cristal, na correria da volta, sempre à espera do Príncipe Encantado, desencantada de tantos sonhos,

nos reinos da minha cidade.[26]

Lindo, não é mesmo? E observaram como a doceira de Goiás Velho conseguiu, em versos doces, evocar os sentidos a que me referi lá atrás? Os adjetivos “escura” e “parda” associam-se à visão; o qualificativo “dura” está associado ao tato.

Pela leitura, de obras da ficção ou de outra categoria, tomo contato com múltiplos personagens, múltiplas figuras humanas, e descubro, fascinado, que não há nas gerações passadas, nem nas presentes, nem haverá nas futuras, alguém exatamente igual a mim. Há pessoas parecidas comigo; iguais a mim, não.

O livro propicia, de modo simultâneo, a leitura da realidade e a da transcendência. Estou com Franklin Bobbit[27]: o leitor habitual amplia, através do tempo e do espaço, seus dotes de observação e análise. Diante do livro, “a visão limitada, própria do homem corpóreo, dilata-se, estende-se”; de seu pequeno mundo, o indivíduo vai a um mundo sem fim, vai de um micro a um macrocosmo.

Quanto mais leio, mais me atento para o seguinte: tanto já se escreveu e ainda há tanto a ser escrito! Mesmo assim, nenhuma história é ou será propriamente igual à minha. Já se inventaram ou compuseram tantos personagens. Nenhum deles encerra o meu ser. Por isso, não há quem efetivamente me SUBSTITUA.

Não posso dar curso àquele velho e tolo lugar-comum: “Ninguém é insubstituível”.

Lendo, eu percebo isso e faço coro com os ensinamentos daquele texto antigo – Desiderata? Talvez, não lembro mais –, que imagino seja conhecido de muitos de vocês, e entro em sintonia com o pensamento de Frei Vicente Nunes sobre a originalidade humana. Sim, sou insubstituível, sou único no gênero, em todo o Universo; sou irmão dos bichos, das plantas, das águas, das estrelas e das aves, porém sou ÚNICO; exemplar original na obra suprema da Criação porque Deus, o Poeta Maior, não costuma repetir versos.

Sendo único, fui enviado aqui para uma missão que apenas EU posso cumprir. Torno a citar Laterza: “A minha existência é para mim tarefa que só eu cumpro e executo”[28]. Não há meios de terceirizá-la.

A leitura me conduz à consciência do meu EU. E a consciência do meu EU me conduz à responsabilidade.

É disso que o mundo – notadamente o Brasil – mais precisa hoje: RES-PON-AS-BI-LI-DA-DE.

É imperativo o surgimento de pessoas res-pon-sá-veis, que efetivamente res-pon-dam por seus enunciados, gestos, decisões. A torneira – dizia célebre educador a seus discípulos – revela-se extremamente responsável. Ao ser aberta, responde depressa com a água. Por que os humanos fugimos à responsabilidade feito o diabo da cruz?

O livro e o avanço tecnológico

A essa altura, penso já estejam patentes as muitas transformações que podem ocorrer a partir da leitura. E existe outra: a transformação socioeconômica. Mobilidade social e leitura também andam juntas. Aliás, constituem binômio. São indissociáveis.

Só a leitura explica o fato de uma Maria Carolina de Jesus, mineira ali de perto de Montes Claros, sem o primário completo, ter sofrido tanto na Favela do Canindé, em São Paulo, como catadora de papel, mas depois dado a volta por cima e se tornado a brilhante autora de Quarto de Despejo. É sabido que anos depois ela voltou à condição de favelada, mas nunca mais seria a mesma.  

Só a leitura explica o fato de um mulato epilético, com baixa escolaridade sistemática, ter descido o Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, para se tornar o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras = Machado de Assis, o “Bruxo do Cosme Velho”, nosso escritor maior.

Da América Latina, apenas Machado e Jorge Luís Borges, prodígios construídos pela leitura, estão entre os 100 autores mais criativos e geniais desses dois milênios de História, no entender do referido Harold Bloom, autor de um best-seller de 820 páginas acerca do assunto[29]. E o argentino Borges chegou a declarar: “Que outros se jactem dos livros que puderam escrever; eu me jacto dos que pude ler”.

Como sou grato ao erudito doutor Viana Espeschit! Sua biblioteca particular, a maior da região centro-norte mineira, ficou ao meu inteiro dispor, na minha adolescência, tão escassa de recursos financeiros e tão pródiga de sonhos e ideais! Como sou grato à comunidade do bairro Bela Vista, onde havia uma biblioteca pública mantida pela Associação Comunitária e da qual fui assíduo frequentador! Como sou grato aos mestres Padre Celso de Carvalho, Antônia Cleusa, Sheila Nara Guimarães, Conceição Drummond, Ádma Rocha, Fátima Coelho e Elza Alemão, dentre outros, por me mostrarem que jamais deveria prescindir de censo crítico diante de qualquer leitura!

Leve-se também em conta que a leitura ajuda na mobilidade social porque vêm dela a formação e o enriquecimento do vocabulário, bem como a correção gramatical. E a linguagem estreme, sem desvios injustificáveis, como se sabe, autoriza o discurso e propicia ao indivíduo melhores ensejos de êxito profissional. Tudo bem que a língua, no dia a dia, sobretudo para nós, falantes do português, idioma originário do latim vulgar, o latim do povão da periferia de Roma, seja atraente convite à informalidade, a um desvio ou outro. Isso é compreensível. No entanto, a fala e a escrita mais policiadas são indiscutíveis fatores de sucesso, estreitamente ligados ao hábito da leitura, hodiernamente, tanto quanto ontem, apesar da conquista do ciberespaço e da descoberta da inteligência artificial, ou talvez até por causa delas.

No meu entender, o computador e a internet não vieram abolir a leitura. Vejo neles complementos na formação intelectual, ferramentas a mais ao alcance de todos. Poderão ser prejudiciais também? Poderão. Qualquer ferramenta manipulada de maneira errônea provoca acidentes. Todavia, o perigo não está no computador ou na internet propriamente ditos.

Em artigo para o Estado de Minas, perguntou o vernaculista Pedro Moreira: “Mas será a cega devoção aos computadores o culpado único pela aversão dos jovens à leitura de entretenimento e formação?” E ele mesmo deu esta resposta fulminante: “Creio que uma quota expressiva de responsabilidade cabe aos próprios professores de Português e Literatura. Hoje em dia, quase não se lê ou se escreve nas escolas, ressalvadas algumas honrosas exceções”[30].

Eu fui beneficiado por essas “honrosas exceções”, que poderiam virar regras, caso a política educacional vigente (não se pode lançar toda a culpa sobre os professores) não tivesse o objetivo de colocar no mercado verdadeira leva de analfabetos funcionais. Sintomas desse intento maléfico podem ser identificados em diversas medidas adotadas no setor. Um deles? A ausência de indicação de leituras no ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio, diferentemente do consagrado nos antigos vestibulares.

Cabe aos pais, educadores natos e autoridades do ponto de vista moral, impor limites aos filhos no tocante ao uso da máquina e incentivá-los constantemente ao convívio com os livros, de forma especial pelo exemplo. Parece-me ilustrativo Bill Gates demonstrar-se preocupado em presentear os filhos com… livros… muitos livros. “Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros”, declarou certa feita o milionário da Microsoft.

Ponho de relevante, ainda, a declaração do jovem romancista Daniel Galera, autor do festejado Mãos de Cavalo, editado pela Companhia das Letras. Segundo ele, a familiaridade com a literatura, por incrível que pareça, veio justamente do… uso contínuo do computador.

O conhecimento passado via máquina jamais suplantará o transmitido em letra de forma impressa. O próprio fundador da Wikipedia pensa assim[31]. Com a obsolescência programada das tecnologias digitais, pode ser que o Google desapareça antes das bibliotecas.

A criança aprende o que vê. Na casa onde os pais leem, sempre haverá filhos leitores, salvo raríssimas exceções.

Por falar nisso, quando os fedelhos devem ser iniciados na leitura? Educadores de escol respondem: “Já na vida intrauterina, com a mamãe e o papai lendo prazerosamente para eles”.

Quem não conhece o provérbio “É de pequenino que se torce o pepino”? Doutor Wilson Veado, meu padrinho na Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG), conta que, certa feita, uma senhora perguntou a Édouard Claparède o momento adequado para encetar a educação do filho. Ao saber que o garotinho estava com um ano de idade, o mestre de Jean Piaget desfechou com esta: “Então ele já perdeu 365 dias”[32].

Em geral, a criança e o adolescente entendem a importância da leitura. O próprio adágio “Escreveu não leu? O pau comeu”, outrora muito repetido no meio infantojuvenil, deixa isso bem claro. Falta-lhes às vezes a orientação, o despertar para a magia e a beleza impressas, o contato com o ‘sapere’, o saber vinculado ao sabor. 

Pais, escritores e professores devem ser inventivos se quiserem atrair os leitores mirins. Entre os hebreus antigos, a gurizada ganhava bolos confeccionados em forma de letras. Tinha de identificar o alfabeto hebraico antes de comer a iguaria. Relata Glenn Doman mais este costume: “De modo semelhante, as palavras hebraicas eram escritas com mel na lousa da criança. Ela as lia e depois as lambia, para que ‘as palavras da Lei pudessem ser doces aos seus lábios’”[33].

Eis aí o segredo de uma suave revolução educacional: colocar, numa atitude à Chico Buarque, açúcar e afeto no ensino-aprendizagem.

O livro e a elevação espiritual

Discorri sobre o quanto a leitura contribui para o descortino de novos horizontes, em se tratando da mobilidade social. No entanto, “non in solo pane vivet homo – nem só de pão vive o homem”[34], ensina o perfeitíssimo Galileu, numa máxima depois, de certa forma, retomada musicalmente pelo grupo dos Titãs: “A gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão… e arte”[35]. Vale o repeteco: E ARTE!

A ânsia de subir como os incensos dos turíbulos é congenial de todo ser humano. “Qual é o caminho certo da gente?”, indaga Guimarães Rosa, para, em seguida, emitir esta magnífica resposta: “Nem para a frente nem para trás: só para cima”[36].

O homem foi criado para o Alto. Por isso, vive inquieto e, numa perspectiva agostiniana, somente terá sossego no dia em que repousar no seio do Criador[37]. “Assim como o cervo suspira pelas fontes das águas, assim minha alma suspira por ti, ó Deus”, murmura o Salmista[38].

A leitura, o apreço pela obra de arte moldada na palavra, comunica paz e tranquilidade ao espírito, contribuindo para a sua elevação. Alexis Carrel, o afamado estudioso dos milagres de Lourdes, luminar das ciências médicas, colocou a ascensão espiritual entre as necessidades básicas do homem[39]. Deixou subentendido o que sempre supus líquido e certo: a boa leitura serve de escada para a efetivação dessa subida. Ler os Evangelhos, João da Cruz, Tereza de Ávila, Thomas Merton, Alphonsus de Guimaraens e escritos afins ajuda a alma a elevar-se. Agostinho de Hipona sofreu incrível metamorfose: abandonou as trilhas pagãs e tomou a “estrada de Damasco” depois de ler as epístolas de Paulo ofertadas por seu amigo Alipo com a recomendação: “Tolle, lege – Toma e lê”.

Então vamos sempre tomar algo de bom e ler para progredirmos material e espiritualmente. E o mais importante: para sermos felizes. Muito felizes.

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*Newton Vieira é ensaísta, jornalista e poeta. Pertence a várias instituições culturais, dentre elas a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG) e a Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências ALPAS 21. Em 2018, durante a Feira do Livro de Porto Alegre, recebeu a “Comenda Personalidade Literária Internacional”. Detém prêmios conquistados no Brasil e no exterior, Além dos livros publicados individualmente, figura em dezenas de antologias, como a “Écrivains Contemporains du Minas Gerais”, lançada no Salão do Livro de Paris 2012.

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[1] VIEIRA, Padre Antônio.  Obras Completas – Sermões. Lisboa: Lello & Irmão Editores, 1951, vol. X, p. 61. Obs.: atualizou-se a ortografia.

[2] PENNELL, Mary & CUSACK, A. Como se ensina a leitura. Porto Alegre: Editora Globo, 1952.

[3] BLOOM, Harold. Como e por que ler. Trad.: José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, 276 pp.

[4] SORRENTI, Neusa. A história – encantamento e realidade. Em: Palavra imagem – Caderno de informação e arte. Coleção Desenvolvimento Curricular, n. 1. Belo Horizonte: Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, 1995, p. 43.

[5] IDEM. Ibidem.

[6] IDEM. Ibidem.

[7] ROSA, João Guimarães. Tutameia: Aletria e Hermenêutica. Ficção Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, vol. II, p. 526.

[8] II Cor 3, 6. Cf. Jô 6, 63.

[9] OLIVEIRA, Alaíde Lisboa de. Impressões de Leitura. Belo Horizonte: Edições Cuatiara, 1996, p. 98.

[10] LATERZA, Moacyr. Formosura vem de forma e forma é criatura do ver dos olhos. Em: Palavra imagem – Caderno de informação e arte. Coleção Desenvolvimento Curricular, n. 1. Belo Horizonte: Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, 1995, p. 26.

[11] Segundo Afonso Arinos de Melo Franco, em O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa (Rio de Janeiro: José Olympio Editora / MEC, 1976), Rousseau  recebeu forte influência de um livro de Jean de Léry, Viagem à terra do Brasil, que conheci numa edição conjunta Edusp/Itatiaia (São Paulo/Belo Horizonte: 1980). Essa obra, entre outros temas, trata da bondade natural dos índios da Terra de Santa Cruz.

[12] CARDOSO, Lúcio. Diários – Editados por Ésio Macedo Ribeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012, p. 274.

[13] IDEM. Ibidem, p. 421.

[14] Versos da canção Como uma onda, de Lulu Santos e Nélson Motta.

[15] ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 23.

[16] Cf. PLUTARCO. Vidas dos homens ilustres. Trad. brasileira: Carlos Chaves. São Paulo: Editora das Américas, 1962, tomo VI, p. 183.

[17] ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006,  p. 94.

[18] IDEM. Ibidem, p. 25.  A expressão “Viver é muito perigoso” aparece em outros excertos da obra. Cf. pp. 10, 16 e  85.

[19] VIEIRA, Padre Antônio. Ibidem.

[20] Jo 1, 1.

[21] VICO, Giambattista. Apud  MENEZES, Adélia Bezerra de. No mundo dos afetos. Em: Estado de Minas, caderno Pensar, edição de 6/3/2004, p. 3.

[22] LATERZA, Moacyr. Ob. cit., p. 25.

[23] MONTESQUIEU. Apud CHALLITA, Mansour. Ob. cit., p. 215.

[24] CONFÚCIO – Vida e doutrina – Analectos. Org.: Múcio Porphyrio Ferreira. São Paulo: Editora Pensamento, 2002, p. 67.

[25] DUARTE, D. Leal Conselheiro. Lisboa: Ed. A. M. Teixeira, 1942.

[26] CORALINA, Cora. Apud SORRENTI, Neusa. Ob. cit., p. 42.

[27] BOBBIT, Franklin. How to make a curriculum. Apud OLIVEIRA, Alaíde Lisboa de. Ensino de língua e literatura. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1983, p. 49.

[28] LATERZA, Moacyr. Ob. cit., p. 24.

[29] BLOOM, Harold. Gênio – Os 100 autores mais criativos da história da literatura. Trad.: José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

[30] MOREIRA, Pedro. Leitura versus informática. “Estado de Minas”, edição de 26/7/1996.

[31] O americano Jimmy Wales criou a enciclopédia on-line em 2001, ao lado de Larry  Sanger, mas nunca aceitou o esquecimento do livro nos moldes tradicionais e, dois anos após este discurso, declarou à revista Época (edição de 10/11/2008, p. 100): “É difícil superar a tecnologia perfeita do livro. Não é tão caro, não precisa de bateria, pode ser levado à praia ou carregado na chuva”.

[32] VEADO, Wilson. Na Tribuna do Instituto Histórico – II. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1998, pp. 128 e 129.

[33] DOMAN, Glenn. Como ensinar seu filho a ler – A suave revolução. Trad.: Lorman de O. Santos / Regina Maria da Veiga Pereira. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 6ª ed., 1984, p. 16. Obs.: vale informar aos mais jovens que, tempos atrás, nas escolas, usava-se comumente a lousa (var.: loisa), placa de ardósia enquadrada em madeira na qual os alunos escreviam, desenhavam ou efetuavam cálculos matemáticos com uma espécie de giz. Constituía-se em importante auxílio na economia de papel.

[34] Mat 4, 4.

[35] Comida. Composição de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Brito.

[36] ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 94.

[37] Cf. AGOSTINHO, Santo. Ob. cit., Livro 1, cap. 1, p. 9.

[38] Salmo 41. Bíblia Sagrada. Trad. e notas: Pe. Matos Soares. São Paulo: Paulinas, 1983, 12ª ed.

[39] CARREL, Alexis. O homem perante a vida. Porto: Ed. Educação Nacional, s./d.