Geralda Malaquias: uma mulher “maxiclim”

Por Newton VIEIRA*

Ah, você não sabe o que seja “maxiclim”? Não se preocupe. Você não está só. Ninguém sabe. Nem mesmo os dicionaristas. “Maxiclim” é invenção de Geralda Malaquias. Continue a leitura e entenda o significado da palavra.

Curvelo sempre teve, no seio do povo, figuras interessantíssimas, cujas vidas merecem estudo e divulgação, principalmente pelo que representam para a cultura e para a formação da identidade coletiva. Para falar dessas pessoas, seria necessário livro de “trocentas” páginas. Assim, de estalo, posso citar: “Joaquim Muié”, um homem que, pelos idos de mil, novecentos e lá vai fumaça, andava pelas ruas usando saias ou vestidos e, apesar da alcunha e da indumentária, segundo me informaram, nada tinha de homossexual; Saluzinho Rodeiro, célebre fabricante de bilboquês, piões. espanadores e rodas de carroça (de onde surgiu o Rodeiro); Chico Doido, um rapaz que nunca havia sido policial, mas dava voz de prisão a torto e a direito e era respeitado, até porque ninguém seria besta de desafiá-lo, sabendo do porrete que ele constantemente trazia consigo, com o consentimento das autoridades; Vitrinho, perfilado na obra de Nelson Washington Vianna, era carregador “oficial” de tampa de caixão nos cortejos fúnebres, numa época em que os ataúdes iam abertos até o cemitério; e Manuel Jacinto, um senhor culto, piedoso, de raciocínio rápido, conhecedor profundo de História Geral, que trajava o tempo inteiro uma batina preta surrada, embora não tenha sido ordenado padre. Aliás, nem leigo consagrado ele chegou a ser; ao revés: casou-se e constituiu família. Só não tirava a batina de jeito nenhum.

Sobre Salustiano Luís Beltrão, o Saluzinho, Eduardo Canabrava Barreiros contava que ele tentou candidatar-se a vereador e prometia lutar para estender o fornecimento de água até a parte mais alta da cidade. Explicaram-lhe que a proposta, naquelas circunstâncias, seria inviável devido à lei da gravidade. E ele teria apresentado contra-argumentos em frases do tipo: –“Assim que tomar posse, vou propor a revogação de tal lei”.

Por falar em frases, Salustiano criou algumas antológicas, a exemplo destas duas: “Se amar é crime, prendam-me, porque sou um criminoso”; “De 38 pra frente, qualquer sapato me serve”. Quando alguém, ao dirigir-lhe a saudação matinal, lascava a alcunha Salu Rodeiro, o personagem folclórico disparava: – “Bom dia pelo Salu e … {termos de baixo calão…} pelo Rodeiro!”

Com relação a Joaquim Muié, vale ressaltar, ele odiava ser assim chamado. Dizia cobras e lagartos e fazia gestos obscenos para quem dele caçoasse. Caçoar era o verbo mais empregado antigamente como designativo de “tirar sarro”. Certa vez, relatam os mais velhos, as freiras e as internas do orfanato passeavam pelo centro e se encontraram com o Joaquim. Justo nesse momento, moleques gritaram o abominável apelido: – “Ô Joaquim Muié!” Foi a conta… Tomado de raiva, ele xingou horrores e, para comprovar a masculinidade, levantou a saia, deixando à mostra os órgãos genitais. As freiras e as garotas, perplexas, voltaram a toda a brida para o orfanato. Passeio interrompido.

Inevitável a indagação: – Se o Joaquim não era homossexual, seria ele pioneiro do chamado “cross-dressing” no interior das Minas Gerais? Sabe-se que o fenômeno remonta às mais priscas eras. Tanto que a Bíblia, em tom severo, alude à prática no Deuteronômio, quinto livro do Pentateuco: “A mulher não deve usar roupa de homem, nem o homem usará vestido de mulher, pois Javé, teu Deus, detesta quem faz essas coisas”. (Dt 22,5, tradução direta dos textos originais feita pelo padre José Raimundo Vidigal, C.Ss.R., para a Editora Santuário – Aparecida/SP).

Mas… deixe-me tratar do assunto proposto. Hoje quero trocar uns dedinhos de prosa com o leitor sobre outra figura de relevo na comunidade curvelana: Geralda Malaquias, idosa de 76 anos residente na Vila de Lourdes, bairro onde nasci e fui criado. Ela ganhou espaço na grande mídia, abriu o Fantástico de ontem na Globo e ficou conhecida além-fronteiras por ter passado cerca de uma semana perdida numa grota, agarrada a um cipó, correndo o risco de submergir e morrer afogada. Até ser encontrada pelo grupo de moradores arregimentado por dona Rosana e seu Gilberto e resgatada pelo Corpo de Bombeiros, foram nove dias e oito noites sem comer e sem dormir, sem tomar a insulina diária (a diabetes requer controle), com água suja até o pescoço, aventando a hipótese de ser atacada por bichos ou contrair alguma doença grave. Por sorte, a chuva foi copiosa nesse período de sofrimento e lhe amenizou a sede. E o que a Geralda fez, além de gritar, diuturnamente, na esperança de ser acudida? “Eu fiquei rezando e pedindo a Nossa Senhora para me dar saúde”, disse a septuagenária à reportagem de O Tempo publicada na quinta-feira, 25 de fevereiro. No programa A2 (internet), de Beto Motta e Wal Rocha, ela acrescentou: “Rezei pra Nossa Senhora Aparecida”.

Geralda venceu os próprios limites e mostrou incrível capacidade de resistência. Para os médicos, tudo explicável do ponto de vista científico; para ela e para nós, seus companheiros de fé, verdadeiro milagre operado pela intercessão da Virgem Maria.

Conheço bem a Geralda Malaquias. De longa data. Sua mãe, dona Ana, ainda era viva quando a conheci. Característica de dona Ana: quase nada falava; era monossilábica: “sim”, “não”, “é”, “vou”. Lenço na cabeça, preferia o chão à cadeira para sentar-se. Parecia sentir-se mais à vontade assim, digamos, esparramada… E como cochilava!… Nas refeições, dispensava os talheres; juntava os dedos da mão direita dentro do prato, amassava a comida e, na sequência, formava uma espécie de capitão e o levava à boca…

Já na minha meninice, Geralda se tornou alguém da minha família. Era presença exigida nas horas boas e nas vicissitudes. Às vezes ficava, como se dizia, a “correr o olho” em mim enquanto mamãe executava as tarefas domésticas. Sônia e minhas outras irmãs mais experientes dedicavam-se à alfabetização das crianças dos vizinhos. Haviam criado um jardim de infância. Nessas oportunidades, a Geralda me narrava histórias sensacionais, como a do Pavão Misterioso, que depois descobri ser um romance de cordel. Ela também cantava, com ritmo e afinação, as marchinhas de carnaval famosas. Sua preferida? “Tem nego bebo aí”, de Airton Amorim e Mirabeau, sucesso de Carmen Costa nos idos de 1955, gravação com o selo Copacabana. Marchinha bem-humorada, pra cima, uma das melhores daquele reinado de Momo, de acordo com júri reunido no Teatro João Caetano. Aprendi o refrão para nunca mais esquecê-lo: “Foi numa casca de banana que eu pisei, pisei./ Escorreguei, quase caí./ Mas a turma lá de trás gritou: “Xiiii!”/ Tem nego bebo aí! Tem nego bebo aí!”

Há pouco mais de um mês, tive o prazer de topar com a Geralda na mercearia de Rubens e Tânia Guieiro, nas proximidades do extinto campo do Vasquinho, e pude constatar que a memória musical da Engronja (corruptela de “engronha”, cognome que ela pôs em si mesma) ainda funcionava magnificamente bem. Instigada por mim, ela cantou “Tem nego bebo aí”, sem o menor erro, para deleite do advogado José Geraldo Lima dos Santos e demais espectadores. Na ocasião, eu lhe perguntei de novo: –“Colega, afinal, por que ‘Engronja’”? E ela: –“Porque faço muita ‘engronjada’, uai”. Dei tonitruantes gargalhadas… E a conversa terminou.

Fora do gênero carnaval, Geralda curte baião, xaxado e xote. Conhece a fundo as composições de Humberto Teixeira. Cantava entusiasmada – não sei se continua a fazê-lo – a música “A beleza da Chiquinha”, gravada por Ivon Curi em pleno êxito de carreira internacional: “Te afasta, cabra, não te meta com a Chiquinha/ Toma cuidado, que eu sou dono da bichinha/ Eu tô só vendo tu chegando/ Se encostando, se ajeitando/ Os óio no corpo dela/ Grelando certas partes/ Mais respeito com a Chiquinha …”. E por aí segue a letra.

O FERVOR DA DEVOÇÃO

Geralda teve absoluta coerência ao assegurar que, na grota fria e sinistra, implorou pelo socorro da Santíssima Virgem e foi atendida. Afinal, é devota fervorosa da Nazarena desde menina. Por intuição, ela sabe: o atendimento da Mãezinha Celeste não falha. Quem o garante? Bernardo de Claraval (1090-1153), filósofo e teólogo da Idade Média, o “Doctor Mellifluus”, o escritor sacro de estilo terso, ou “vivaz, florido, abundante e sentencioso”, no dizer de Pio XII. Esse abade francês, de oceânica erudição e comprovada santidade, escreveu o “Memorare” (Lembrai-Vos), oração na qual se lê: “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, de que jamais se ouviu dizer que algum dos que recorreram à vossa proteção, imploraram a vossa assistência e clamaram por vosso socorro, tenha sido por Vós desamparado”. Geralda, como se vê, guiada pelo Espírito Santo, tomou a atitude correta. E uma curiosidade: existe, na Igreja Católica, a invocação Nossa Senhora das Grotas. Por sinal, vem a ser a padroeira da Diocese de Juazeiro (BA).

Canonizado por Alexandre III em 18 de janeiro de 1174, Bernardo de Claraval deixou substanciosos tratados de mariologia, sobretudo no tocante ao papel de Medianeira exercido por Maria junto a Jesus, de acordo com o estabelecido no culto de Hiperdulia (alta veneração), colocado acima do culto de Dulia (veneração aos santos) e abaixo, claro, do culto de Latria (adoração a Deus e somente a Deus).

Geralda traz, nas entranhas, esses conceitos bernardinos e melífluos (da doçura do mel). Pode não fazer ideia deles, tampouco conseguir expressá-los, mas os carrega no íntimo, e isso fez a diferença no desfecho do infortúnio, tornou-se determinante em sua luta pela sobrevivência.

A propósito, em virtude da devoção mariana, sem saber, Geralda me levou para o universo musical de Johannes Brahms (1833-1897). Isso mesmo! Ela aprendeu na igreja e costumava cantar para mim uma canção linda, cuja letra era mais ou menos assim:

 “Como um velo de ouro
 Velo de ouro e neve
 Bem de leve
 Leve e leve
 Caem as graças lá do Céu
 É Maria que, acesa
 do luar de um sorriso
 Nos revela a beleza
 De Deus no Paraíso” 

Também devoto da Imaculada, eu, bruguelo ainda, entrei em êxtase ao tomar conhecimento da canção. Achei-a fantástica, diria mesmo estupenda. Mais tarde, cismei de procurar pelo autor. Até que, lá um belo dia, o maestro e organista José Antônio me esclareceu que se tratava (“Como um velo de ouro”) de uma versão, em português, da “Wiegenlied”, opus 49, nº 4, de Brahms, espécie de cantiga de ninar dedicada a Bertha Faber, amor de juventude do compositor. Bertha, se não me engano, pertencia ao clã Faber-Castell e acabava de dar à luz o segundo filho quando foi mimoseada com a composição. Com o título “Lullaby”, o belíssimo acalanto viria a ser interpretado por Céline Dion, na faixa 2 do álbum “Miracle”, lançado em outubro de 2005.

Passei então a me interessar por tudo de Brahms, o gênio alemão, expoente do romantismo musical europeu do século XIX. Quanta magnitude na “Sinfonia nº 2 em Ré Menor, opus 73, máxime na gravação pela Orquestra Sinfônica de Utah, sob a regência de Maurice Abravanel! Na obra de Brahms, escreve Romain Goldron, “reinam as penumbras, os meios-tons, os mistérios da floresta, na qual, a todo instante, parece que vamos nos perder”. Opa! Eis aí o verbo “perder (-se)”, exatamente o que ocasionou o mais recente drama de Geralda Malaquias.

Em geral, pouco me deleito em versões no campo da música. Nelas, a meu ver, o lirismo deixa a desejar. Minha preferência é pelas criações conforme o original. A versão da “Wiegenlied”, de Brahms, com sentido religioso, é uma das poucas de que gosto, ao lado de outras, entre as quais saliento três: “The Exodus Song” (Canção do Êxodo), de Ernest Gold, trabalhada com esmero por Almeida Rego e magistralmente registrada na voz do curvelano Luiz Cláudio; “Cerisier Rose Et Pommier Blanc” (Cerejeira Rosa), de Louiguy e Jacques Larue; e o banho de otimismo da “Smile”, de Charlie Chaplin, Jonh Turner e Geofrey Parsons, vertida para o idioma de Machado de Assis pelo imortal Braguinha ou João de Barro.

A “Cerejeira Rosa”, versão brasileira de Júlio Nagib. ouvi-a pela primeira vez agarrado à barra da saia de mamãe, na barraquinha de São Geraldo. Inesquecível: “E a cerejeira não é rosa mais/ Ficou tão triste com o adeus/ Que agora pra mostrar seu amargor/ Não tem mais cor”. Quem a cantava? Carlos Galhardo, o “Rei do Disco”, argentino incensado pela crítica e o público no Brasil. A apresentação do show esteve sob o comando de Guido Elói.

O AMOR PELAS BONECAS

Voltando à vaca-fria, afigura-se-me emblemático o fato de Geralda Malaquias viver a cantarolar, na minha infância, a versão religiosa da “Wiegenlied” de Brhams, modelo universal de cantiga de ninar. Ironicamente, ela não pôde ninar por muito tempo o próprio filho, resultado do relacionamento com um rapaz conhecido como Dadinho, porque o neném morreu semanas após o nascimento.

Quando nasce uma criança, o mundo recomeça, tal como afirma Guimarães Rosa, em “Grande Sertão: Veredas”, por intermédio de Riobaldo, jagunço convertido em obstetra ao atravessar os ermos sertanejos e ouvir os gemidos de uma parturiente solitária: –“Minha senhora dona: um menino nasceu – o mundo tornou a começar!”

Com efeito, tudo muda ao chegar de um recém-nascido. O mundo, notadamente para os pais e familiares, transforma-se por inteiro. Nada é mais como antes. Rosianamente, o mundo torna a começar…

Por isso, se o recém-nascido morre, é nada mais, nada menos do que um mundo que desaba. A perda do serzinho amado desde a concepção imprime marcas indeléveis nos corações envolvidos e acarreta imprevisíveis e drásticas consequências. Constitui mal difícil de ser curado. Só mesmo a mão de Deus para pensar tamanha ferida.

Talvez esteja aí, na pior das dores – a da perda do ente mais querido –, a razão pela qual a Geralda, aonde quer que vá, ostente nos braços suas inseparáveis bonecas. Sim, ela as tem e as considera como filhas. Nas bonecas, haveria a evocação de seu bebê encantado?… De arrepiar!…

Em nossos encontros, ultimamente raros (que pena!), ocorre algo surreal: Geralda pede que eu abençoe as representações humanas feitas de borracha. Ora, padrinho serve pra quê? Então pronuncio determinadas palavras, faço o sinal da cruz, e a “mãe amantíssima” fica satisfeita, agradece meu carinho e vai embora. Não sem antes persignar-se e expressar o quanto preza minha companhia: – “Você não pode é sumir”.

UMA MULHER “MAXICLIM”

Na propaganda de certo detergente, maciçamente veiculada na TV e no rádio decênios atrás, havia a expressão inglesa “max clean”, que significa “limpeza máxima” ou “limpeza total” em português. De tanto ouvi-la, Geralda agradou dela e passou a empregá-la no cotidiano. No entanto, misturou os elementos e acabou por inventar o vocábulo “maxiclim”. Tudo que fosse limpo, puro e, por extensão, belo, perfeito ou correto, recebia dela o adjetivo “maxiclim”, de dois gêneros. A mana Sandra trançava os cabelos ou pintava as unhas, e a Geralda, segurando a ponta da orelha, logo emitia o tradicional elogio: – “Sandrinha, ficou maxiclim”. Seria um processo linguístico equivalente ao ocorrido com “shovel” (pá), que desembocou no dissílabo “xaula”, consoante mestre Aires da Mata Machado Filho.

Pois bem. Os anos se sucedem… Chega 2021… De repente, a Geralda, para a qual nem eu nem ninguém deveria sumir, é dada como desaparecida. Localizada em uma grota, em condições totalmente adversas, é conduzida ao Pronto-Atendimento Municipal e, ato contínuo, internada no Hospital Imaculada Conceição. Por incrível que pareça, apresenta apenas leve infecção urinária. Recebe alta no domingo, 28 de fevereiro. Apesar de tudo o que passou, sorri, faz “tinindo” (assim ela denomina o joinha) e põe versos para a cuidadora, médicos e equipe de enfermagem. De seus lábios, nenhum resmungo. É toda gratidão. É toda pureza de alma.

Diante do exposto e de tantas outras coisas implícitas nas entrelinhas ou além das linhas, como definir Geralda Malaquias? Definitivamente, ela constitui um baita patrimônio de Curvelo, tal e qual os citados Joaquim, Salu, Chico, Vitrinho, Manuel… Mas, para defini-la de maneira cabal, o jeito é recorrer à linguagem dela própria: mulher cem por cento “maxiclim”, de espírito acrisolado, decerto superior ao meu. Que bom poder homenageá-la em vida!


*Newton Vieira é ensaísta, jornalista e poeta. Pertence a várias instituições culturais, dentre elas a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG) e a Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências ALPAS 21. Durante 10 anos, manteve coluna jornalística com dicas de Português. Em 2018, na Feira do Livro de Porto Alegre, recebeu a “Comenda Personalidade Literária Internacional”. Detém prêmios conquistados no Brasil e no exterior, Além dos livros publicados individualmente, figura em dezenas de antologias, como a “Écrivains Contemporains du Minas Gerais”, lançada no Salão do Livro de Paris 2012.