As sementes do apocalipse

Meu sobrinho Marcus Vinícius Francisquini, dentista da rede municipal de BH, sugeriu que eu escrevesse uma ficção que tivesse a pandemia do covid-19 como cenário, como situação dramática. Ele até me sugeriu algumas ideias para o desenvolvimento da história. Vou repassar a ideia para meu amigo Fred Vidal, que tem prática e competência nesse terreno da narrativa mais extensa, que costumam chamar de romance. Mas se não me acho preparado para escrever um romance, posso compartilhar aqui uma experiência de leitura, um romance que retrata um universo ficcional onde a humanidade foi quase totalmente aniquilada por uma pandemia que irrompeu simultaneamente em vários países.

 Qualquer semelhança com o que vivemos hoje será mera coincidência? De certo é uma premonição, pois os poetas, como disse Lacan, são os que menos sabem, mas são os primeiros a saber. O livro é “Oryx e Crake”, de Margareth Atwood, escritora canadense mais conhecida entre nós por “O Conto da Aia”, parábola sobre a condição feminina numa sociedade institucionalmente patriarcal. “Oryx e Crake” (Rocco, 2018) transita entre a fantasia, a ficção científica e a crítica sócio-política. A história trata de um mundo pós-industrial de sucatas e monstros resultantes de um desvario da manipulação genética e de cientistas a serviço de corporações.

Não é uma fábula contra a ciência, mas contra o uso irresponsável que o capitalismo faz dela, como disse Bernardo Carvalho. A arte com que Margareth Atwood conduz a narrativa, prende o leitor em seu enredo: um modelo social polêmico, as descobertas científicas, um cenário apocalíptico e um triângulo amoroso com fim trágico. Assim, “Oryx e Crake” proporciona uma leitura prazerosa que, ao mesmo tempo, nos inquieta: a viagem ao futuro de uma Terra devastada, de uma humanidade quase extinta, nos traz de volta a um presente onde as sementes do apocalipse estão sendo plantadas.

Afonso Guerra-Baião