Abrindo portas com machado

Afinal aconteceu nas redes sociais uma polêmica em alto nível, sem golpes baixos e com argumentos. A discussão foi provocada pelo youtuber Felipe Neto. Segundo ele, as escolas não deveriam obrigar a leitura de obras de Machado de Assis, mas sim promover a leitura prazerosa de obras escritas numa linguagem mais acessível aos jovens desse tempo, acostumados a textos mais simples, a uma linguagem menos elaborada. Lendo várias opiniões, concordes e divergentes, não resisti a dar também o meu pitaco. Faço isso com prazer, pois Machado de Assis é um autor que está na base da formação do meu gosto pela leitura e pela escrita.

Meu primeiro contato com um texto de Machado aconteceu ainda na adolescência e não por indicação ou imposição de alguém. Havia em minha casa alguns livros cuja leitura era reservada aos adultos, sendo mantidos fora de alcance do público inadequado.  Mas havia alguns que, por serem considerados inofensivos ou fora do interesse e acima da compreensão dos mais jovens, acabavam dando sopa e caindo em mãos curiosas.  Um desses livros foi o Antigo Testamento, cuja experiência de leitura na minha adolescência merece um capítulo à parte. Hoje vou falar de uma antologia de contos e fragmentos de autores portugueses e brasileiros, intitulada “Florilégio Nacional”, através da qual entrei em contato pela primeira vez com textos de Machado de Assis.

Um desses textos era fragmento do capítulo XXI de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em que o narrador conta como um pobre almocreve salva-lhe a vida, segurando as rédeas de sua rebelde montaria. Não vou dar spoiler, resumindo a cena: ao invés disso, desafio quem ainda não leu essa obra-prima a abri-la nesse capítulo. Duvido que, depois disso, não se sinta motivado a ler o livro todo, como aconteceu comigo, depois de ler aquele trecho antológico.

Outro recorte que também li na mesma coletânea era a passagem de “Quincas Borba” (capítulo XXVIII) em que Rubião solta o cachorro que herdara junto com a fortuna de Quincas Borba. A cena do cão a correr e brincar, a leveza de seus movimentos, ora quase a voar, ora parando para coçar-se, para cheirar o que vê, saboreado a liberdade – a vivacidade da pintura dessa cena, a que não faltam toques de humor e de ironia, até hoje é uma memória de leitura marcante para mim.

Talvez em consequência dessa experiência, eu sempre preferi, como professor, motivar a leitura de livros através do trabalho em sala de aula com fragmentos. Quantas vezes eu vi alunos, motivados por recortes estudados, irem atrás do livro em questão, na biblioteca da escola.

Assim creio que a questão sobre a indicação de leitura para jovens não esteja na definição de qual obra pode ou não interessar a esta ou aquela faixa cultural, a este ou aquele segmento social. A questão é encontrar estratégias que motivem a leitura de uma obra, seja ela clássica ou moderna, mais complexa ou mais simples em sua elaboração. Vamos nos lembrar de que o próprio Machado, ajudante de tipógrafo, aprendeu a ler (e a escrever) os registros e os códigos que pareciam destinados aos brancos e aos nascidos em berço de ouro, apropriando-se de cotas que a elite sempre reservou, com exclusividade, para os seus.

Afonso Guerra-Baião