Diálogo de Natal

Carlos Drummond nunca gostou de Academias, mas agora vive na eterna happy-hour da Sociedade dos Poetas Mortos, onde eu, como sócio-leitor, o encontro sempre. E, como aprendiz de feiticeiro, busco o sabor da sabedoria desse mago. Para puxar conversa, lembro um verso de outro bruxo, o de Cosme Velho: “Mudaria o Natal ou mudei eu?”. E acrescento: – O Natal não é algo do passado, silenciado pelo nosso ruidoso comércio, ofuscado pelo brilho de nossas festas? O poeta me diz: – O Cristo é sempre novo, e na fraqueza desse menino há um silencioso motor, uma confidência e um sino.

Meu coração de aprendiz quer saber mais. Pergunto: – Como pode o Cristo nascer entre pessoas que se movem pela competição, que se guiam pelo egoísmo, que buscam mais o ter que o ser? Calmamente, o mestre me explica que o Cristo “nasce a cada dezembro e nasce de mil jeitos. Temos de pesquisá-lo até na gruta de nossos defeitos”.

Meu coração confia, desconfiando: – Em meio à mediocridade, à corrupção, à demagogia, à desonestidade, à violência institucionalizada, pode o Cristo nascer e sobreviver? Sem piscar Drummond responde: – “Ministros, deputados, presidentes prosternam-se, estabelecendo os primeiros contatos”.
– Como assim? – insisto.

Com os olhos no horizonte, Drummond parece sonhar alto. Sua voz mansa me diz que governos e povos “entrarão em regime de fraternidade”, que os ministérios serão ocupados pelos lírios do campo, que os bens serão repartidos entre todos, e que “tudo será conciliado na ordem do amor”.

Cor cordis, eu teimo: – Como poderá o Cristo falar a todos, nas nossas sociedades hierarquizadas, formalmente democráticas, mas de fato autoritárias, fechadas em círculos excludentes de classes e de castas? Na resposta tão serena quanto rápida, o poeta disse que o Cristo “preside (mal) as assembléias de todas as sociedades anônimas, anônimo ele próprio, nas inumerabilidades de sua pobritude”.

Com o coração na mão, não dou trégua: – Como pode o Cristo sobreviver se nasce pobre, sem terra, sem teto, condenado à marginalidade? E ouço a voz de Carlos: – “Ele tenta renascer a cada hora em que se distrai nossa polícia, assim como uma flora sem jardineiro apendoa, e sem húmus, no espaço restaura o dinamismo das nuvens”.

De peito aberto, insisto: – Como a mensagem de amor do Cristo vai florescer numa sociedade preconceituosa e intolerante? O mestre não vacila:  – “Sua pureza arma um laço à astúcia terrestre com que todos nos defendemos da outra face do amor, a face dos extremos”.

Represento, por fim, o inquiridor moralista: – Como o Cristo pode nascer em corações materialistas, devotos de bezerros de ouro?

Antes de desaparecer com o portal que se fecha, o poeta responde: – “O Cristo vem numa cantiga sem rumo, não na prece”.

Eu desço do Tabor, não sei se com o coração um pouco mais feliz ou ainda mais inquieto.

                                                    Afonso Guerra-Baião