Árvore do Saber

Eu nunca senti firmeza na ideia de eternidade. Quando criança, os monótonos rituais na igreja e as intermináveis orações em família me faziam pensar, desanimado, em como seria chato o céu: um lugar onde todos estariam rezando para sempre, sem a libertação final do amém. Naquele tempo, para mim, o lugar mais próximo do paraíso era uma rua chamada Cantinho de Céu, em cujo chão batido se podia jogar peladinha, bola de gude, finca, peão, além de ter lá a venda de Seu Manuel Custódio, onde se podia comprar balas, picolé, quebra-queixo e canudinho de doce de leite. Depois descobri que a bem-aventurança estava ao lado da igreja, na biblioteca paroquial: uma vasta sala com as paredes cobertas de alto a baixo por estantes cheias de livros: ali, na grande mesa central, eu passava tardes inteiras viajando no tempo e no espaço, guiado por Júlio Verne, Karl May, Fenimore Cooper, Conan Doyle, Robert Louis Stevenson, Mark Twain, Hergé. Bem antes de ler Borges, eu já poderia comparar o paraíso com uma espécie de livraria. Em cada prateleira, um novo guia: Machado, Shakespeare, Camões, Eça, Drummond, Joyce. E na medida em que eu, leitor, avançava por seus labirintos circulares, esse paraíso se revelava cada vez mais uma recriação dantesca do mundo. Quanto mais lia, menos eu me sentia isolado em uma torre de marfim, mais me sentia próximo ao coração do mundo e mais sentido fazia a frase de Mallarmé, segundo a qual o mundo existe para vir a ser um livro.

Por ressignificar o mundo, o livro é uma nova árvore do paraíso. Melanie Klein disse que “quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso”. Assim como nossos ancestrais foram expulsos da natureza e condenados à cultura, nós hoje podemos ser expulsos da cultura e lançados à barbárie. Só que, agora, não podemos por a culpa em Deus: isso é obra de quem sobretaxa o livro, tornando-o proibitivo. Obra de quem talvez torne impossível a existência do livro, que é feito de papel, cuja matéria-prima, a celulose, está condenada por aqueles que incentivam ou se omitem diante dos desmatamentos e das queimadas.

No absurdo momento em que até o Pantanal está em chamas, precisamos reler e reescrever o livro do mundo, como um palimpsesto: encontrar novos sentidos e traçar novos signos sobre os escombros dos sinais.

Afonso Guerra-Baião