Amor em tempo de cóleras

O oposto da utopia é a distopia. Utopia é o sonho, distopia é o pesadelo. Quando alguém ou um grupo de pessoas procura impor suas opiniões e estigmatizar os outros que pensam ou agem de maneira diferente, aí é que se abrem as portas da distopia, do pesadelo. O texto que escrevo abaixo aborda uma distopia legal, uma lei que não está escrita, mas que se inscreve em nossas práticas individuais, em nossas relações sociais e institucionais, quando distorcidas pela intolerância e pelo fanatismo. O tema desse texto poderia ser o motivo de uma narrativa kafkiana, mas sem perder a dureza da narrativa distópica, ele acabou encontrando a utópica suavidade da forma de um poema.
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Jurisprudência
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“…the laws that lay down who should be loved, and how. And how much.” (Arundhati Roy)
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Quem pode amar, quem deve ser amado
– a lei do amor separa o preto e o branco,
o corpo de delito e o corpo santo,
a mente e o coração, o forte e o fraco.
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Quem pode amar e de que modo e quanto
– a lei do amor distingue com cuidado
o que virtude é, o que é pecado,
quem deve ser amado, onde e quando.
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A lei que mede o desmedido amor,
o mandamento que veste a camisa
de força no desnudo e livre amor,
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é o decreto que regula a vida
e diz quem pode amar e como e quanto,
quem deve ser amado e onde e quando.

(Afonso Guerra-Baião)