O Natal em Curvelo no início do século XX

Maria Helena Cardoso, em suas memórias, reconstituiu o clima natalino na cidade de sua infância e berço de seu irmão, o consagrado Lúcio Cardoso, nos primeiros anos do século passado.

Por Newton VIEIRA*

Em 24 de maio de 1903, em Diamantina, nascia Maria Helena Cardoso. Seus pais – Joaquim Lúcio Cardoso, o andarilho e desbravador Quincas, fluminense de Valença, e Maria Venceslina Netto Cardoso, a desassombrada Nhanhá, de origem curvelana – deram-lhe os irmãos Regina (a Zizina, farmacologista), Fausto (médico), Adaucto (o Dauto, parlamentar eminente e ministro do STF), Maria de Lourdes (a Dida, entrevistada por mim em 2004) e Lúcio (o Nonô, célebre autor da Crônica da casa assassinada).

Lelena tinha um ano quando veio morar em Curvelo. Menina buliçosa, gostava de brincar nas ruas poeirentas. Corria pra lá e pra cá feito louca. Brincava como qualquer criança, mas não deixava de observar os adultos com agudeza de espírito. 

Em agosto de 1914, estourou a I Guerra Mundial. O estopim? O assassinato, em Sarajevo, do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro. Em Curvelo, nas praças e à porta da Farmácia de Zé Varela, com ressonâncias no ambiente escolar, o assunto predominante eram as operações bélicas na Europa. O ódio aos germânicos, cultivado pelos mais velhos, estendia-se às crianças. Duas alemãs estudavam na classe da filha de dona Nhanhá. Na ausência da professora, eram insultadas pelos colegas, entre os quais Lelena, que ameaçava as “inimigas de guerra” com o punho fechado à altura do queixo. Numa dessas ocasiões, a professora voltou de inopino e testemunhou os insultos. Resultado: todos “condenados” a mais uma hora e meia de aula de aritmética. E Lelena teve de ficar quinze minutos em pé diante da turma.

Ainda em 1914, dezembro, os Cardosos se mudaram para Belo Horizonte. Lá Maria Helena concluiu o curso secundário, submetendo-se a exames finais no Ginásio Mineiro. Em 1922, formou-se na Escola de Farmácia, anexa à de Medicina. No entanto, jamais exerceria a profissão de farmacêutica. Em 1923, transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro. No então Distrito Federal, trabalhou na Companhia de Seguros fundada pelo tio Oscar Netto. Em seguida, empregou-se no escritório do Hospital Samaritano. Por fim, tornou-se funcionária do Grupo Atlântica de Seguros. Morreria em 12 de março de 1997.

MEMORIALISTA POR EXCELÊNCIA

O hilário caso das alemãzinhas na escola (seria bulliyng hoje?) é apenas um dos muitos relatados por Maria Helena Cardoso em Por onde andou meu coração.

Lelena era leitora voraz, mas não expunha as ideias no papel, conquanto desde cedo se tenha revelado apta para a literatura. Costumava falar aos mais chegados sobre as recordações das diversas épocas e das pessoas com as quais convivera. Narrava os fatos com tanto enlevo e riqueza de pormenores, que Walmir Ayala sugeriu-lhe a transposição daquele “mundo familiar povoado de mulheres místicas e heroicas e de homens aventureiros” para folhas impressas.

Depois de argumentar que não se considerava escritora (imaginem!), ela topou o desafio e se pôs a escrever. 

Desse modo, a instâncias de admiradores, a exemplo do poeta gaúcho, Maria Helena iniciou sua produção nas letras e, em 1967, sexagenária, deu à estampa o Por onde andou meu coração, sucesso de público e de crítica. Intelectuais de nomeada saudaram a estreante na carreira literária. Estupefato, Carlos Drummond de Andrade perguntou à autora: “Como foi que você conseguiu isto: fazer um livro que não está escrito, está vivido, abrindo pétalas como uma flor que a natureza plantasse, longe dos jardins cultivados?!”

Vieram a lume, ainda, da lavra de Maria Helena, Vida – vida (1973), cujas páginas colocam em relevo o irmão ilustre, Lúcio Cardoso, e, em 1979, o romance Sonata perdida, com o subtítulo Anotações de uma velha dama digna.  Permanece inédito o texto intitulado de Última estação.

Já idosa, a beletrista foi perdendo a memória (logo ela, a memorialista por excelência). Quebrou a perna e teve de ficar presa a uma cadeira de rodas. “Isso, de certa forma, me aliviava, pois eu tinha medo de ela sair e se perder neste tumultuado Rio” – contou-me Lourdes Cardoso, numa das vezes em que me recebeu em seu apartamento de Copacabana, na Ministro Viveiros de Castro.

Li as cartas de Lelena destinadas a Adhemar Paulo de Almeida, de Paraisópolis (MG). Em algumas delas, a mestra do gênero confessional admitiu ter medo de morrer e de cair no esquecimento. Medo infundado, lógico. Afinal, ela não morreu e nunca morrerá; imortalizou-se em cada uma das histórias reconstituídas, em cada uma das frases de estilo terso e surpreendente.

INSPIROU PAULINHO DA VIOLA

Por onde andou meu coração, livro no qual Maria Helena Cardoso faz tantas e tão belas referências à Curvelo de antanho, inspirou a composição de Foi um rio que passou em minha vida, o mais famoso e emblemático samba de Paulinho da Viola. 

Eu soube disso tempos atrás, em conversa com Hermínio Bello de Carvalho, expoente da cultura nacional envolvido no episódio, e também graças à leitura de Paulinho da Viola: caminho de volta – Um estudo poético-musical da canção popular brasileira (1999), dissertação de mestrado em Letras apresentada à USP por Ivan Cláudio Pereira. Mas, como gosto de beber direto na fonte, não me contive ao encontrar Paulinho certa feita, na Marquês de Sapucaí, em pleno carnaval. Aproximei-me do gênio, propus uma entrevista, e ele topou responder a algumas perguntas. 

Resumindo a ópera, tudo se deu conforme relato a seguir. Vigorava o regime militar. Corria o ano de 1968. Agitação na arte e na política. O AI-5 prestes a ser decretado. Paulinho da Viola musicara Sei lá, Mangueira, letra de Hermínio Bello de Carvalho em homenagem à Verde e Rosa. Defendida por Elza Soares no IV Festival da TV Record, edição em que o primeiro lugar coube a São, São Paulo, meu amor, de Tom Zé, a parceria de Hermínio e Paulinho ganhou a simpatia dos afeiçoados ao mais contagiante dos ritmos. 

Portelense autêntico, Paulinho se viu em dívida com a Azul e Branca de Oswaldo Cruz e Madureira. “Ninguém reclamou, nem mesmo seu Natal {figura tutelar da escola}, mas eu me sentia na obrigação de compor e dedicar à Portela um samba tão bom quanto o Sei lá, Mangueira, explicou o parceiro de Cartola, Candeia e outros bambas. Na peculiar simplicidade, o majestoso sambista prosseguiu: “Foi aí que eu tive sorte incrível: passei por uma livraria, e mexeu comigo o livro Por onde andou meu coração, de Maria Helena Cardoso, irmã de Lúcio Cardoso. Olhei outros livros, mas não comprei nada. Fui embora, e aquele título me acompanhou e se associou a um pensamento que não me deixava: por onde andou meu coração, ao ponto de eu, portelense, criar um samba exaltando a Mangueira? Acho que era um sentimento de culpa. E eu tinha que me redimir. Comecei a escrever: ‘Se um dia, meu coração for consultado, para saber se andou errado, será difícil negar…’. A música surgiu depois, igualmente redondinha. Estava pronto ‘Foi um rio que passou em minha vida’”, arrematou o Príncipe do Sambistas.

Dias depois, tentei falar com Paulinho, por telefone, curioso de saber se ele teve a oportunidade de ler Por onde andou meu coração na íntegra. Lila, mulher dele e irmã do violonista Raphael Rabello (1962-1995), atendeu à ligação e me assegurou: “Sim, tão logo pôde, o Paulinho leu a obra inteira e se disse extasiado ante a beleza do trabalho de sua conterrânea”.

Enternecido, desliguei o telefone, enquanto dizia para mim mesmo: – Essa Maria Helena Cardoso, cujas reminiscências são mágicas, repletas de colorido e movimento, não era brincadeira, não.

E O NATAL EM CURVELO NO INÍCIO DO SÉCULO XX?

De tudo o que já li e pesquisei sobre os Natais em Curvelo nos primeiros anos do século XX, o que mais me encanta é mesmo o belo relato de Maria Helena Cardoso em “Por onde andou meu coração”.

Por isso, encerro minha arenga aqui e abro aspas para o delicioso relato da grande dama da memorialística brasileira:

“O Natal em Curvelo era simples, e não havia o hábito de as pessoas se presentearem, não sei se porque todos eram pobres. Rezava-se a Missa do Galo na matriz, e o que marcava aquele dia como de festa era o número de comunhões a mais.

“Em compensação, o presépio era um costume tradicional. Ninguém que se prezasse deixava de armar o seu: havia-os nas igrejas, nas moradias particulares, os famosos que arrastavam visitantes de fora e os modestos, armados no interior das casas mais humildes.

“Nas proximidades do dia, acorriam dos arredores da cidade mulheres, algumas de longe, que traziam, para vender, enfeites os mais variados: tocos de pau com parasitas em flor, frutos silvestres, musgo, pedaços de limo verdinho, arrancados das margens de riachos ou de barrancos úmidos e pedrinhas. Quem podia, comprava, e quem não podia, ia ao mato procurar, o que já constituía uma parte da festa. Eram caminhadas sob o Sol ardente e à tardinha, o regresso, carregados de gravatás, frutos do mato, de cheiro penetrante e agradável, barba-de-pau e seixinhos polidos.

“Para enfeitar o lago, imprescindível em qualquer presépio que se prezasse, muito antes da data, plantavam-se em latas de manteiga vazias, arroz, que crescia verdinho e viçoso. As serras eram feitas com o maior apuro: sobre folhas de papel pardo de embrulho, bem encorpadas, passava-se grude de polvilho, espalhando em cima carvão bem moído, reduzido a pó, cinza de borralho e vidro colorido, triturado em pedacinhos no almofariz de bronze, que faziam cintilante a serra. Quanto mais variadas as cores dos vidros empregados, mais mesas, de acordo com a imaginação de cada um: altas, mais baixas, formando grotas, despenhadeiros, grutas, e de espaço em espaço, barba-de-pau, que lhe dava um cunho de semelhança.

“Depois vinha a colocação de vários figurantes: na gruta principal, a manjedoura onde descansava o Menino, N. Senhora e S. José ao lado, os animais tradicionais: o burro, o boi e os pastores. Pela serra e pelos caminhos polvilhados de areia branca, tudo aquilo que se tinha colecionado durante o ano e, muitas vezes, durante anos. Animais diversos, homens com cajados, pastores, ovelhas, peregrinos, monjolos, marrecos, leitõezinhos, lenhadores com seus machados, carros de bois, trens de ferro, tudo na mais pitoresca confusão. Era uma procissão de bichos os mais engraçados, camponeses, tocadores de sanfona, pássaros variados nos galhos das árvores das estradas e da serra, todos em demanda da manjedoura onde repousava o Menino sob a guarda de seus pais. Bem no alto, uma grande estrela de papel prateado cintilava, apontando o caminho para os reis magos, ainda em viagem, ao lado de casas coloridas espalhadas, algumas em verdadeiros despenhadeiros, completamente inacessíveis. Ao redor do espelho, que fingia o lago, latas de arroz mais verde e lindo e patinhos brancos nadando: de celuloide, de louça, ou barro da Cacimbinha, conforme as posses do dono do presépio. Misturado a tudo, sobre areia e folhas, mangas cheirosas, abacaxis maduros, gravatás e uvas pretas pendentes de belos cachos, que ainda conservavam frescas as suas folhas.

“De 24 de dezembro a 6 de janeiro não se pensava senão na visita aos presépios da cidade.

“Ia-se de casa em casa, à procura deles, desde os mais famosos, que tinham monjolos pequeninos movidos à água, oficina de carpintaria completa, com instrumentos se movendo, até os mais humildes como o nosso, que só possuía as figuras do estábulo, as serras que nós mesmos fazíamos, o lago rodeado de arroz plantado muito tempo antes, uns poucos bichinhos disformes, moldados por nossos dedos inábeis no barro cinza que trazíamos de Cacimbinha.

“Para mim, porém, não havia nenhum mais belo, nenhum que o igualasse. Passava o dia colocando nele flores e frutos que conseguia arranjar com uns e outros. Tempo feliz”

(Extraído de: Por onde andou meu coração: memórias. Cardoso, Maria Helena. Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70)

*Newton VIEIRA é ensaísta, jornalista e poeta. Pertence a várias instituições culturais, dentre elas a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG) e a Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências ALPAS 21. Durante 10 anos, manteve coluna jornalística com dicas de Português. Em 2018, na Feira do Livro de Porto Alegre, recebeu a “Comenda Personalidade Literária Internacional”. Detém prêmios conquistados no Brasil e no exterior, Além dos livros publicados individualmente, figura em dezenas de antologias, como a “Écrivains Contemporains du Minas Gerais”, lançada no Salão do Livro de Paris 2012. E-mail: newtonvieiracvo@gmail.com