Morre a escritora Mary Perácio Pitanguy

Quando atearam fogo à fantasia de Beto Preto e o icônico carnavalesco perdeu a vida, a cronista o homenageou em texto digno de aplausos

Por Newton VIEIRA*

Está de luto a melhor literatura curvelana. Morreu na noite de ontem, terça-feira, 21, aos 96 anos, a escritora Mary Perácio Pitanguy.

Nascida aos 23 de março de 1925, em Curvelo, era filha de Antônio Perácio Filho e Conceição Martins Perácio.

Normalista formada pelo antigo Orfanato Santo Antônio, estava viúva do saudoso pecuarista Antônio Ferreira Pitanguy, um dos pioneiros que, no início da década de 1940, fundaram a AMCZ – Associação Mineira dos Criadores de Zebu. Desse casamento vieram os filhos  Jane Pitanguy de Salvo, Tânia Pitanguy de Paula, Sânzio Perácio Pitanguy e Ygor Perácio Pitanguy. São seus netos, dentre outros, os irmãos Antônio Pitangui de Salvo, presidente do Sistema Faemg – Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais, e Gustavo Pitangui de Salvo, presidente da retromencionada AMCZ.

A ESCRITORA

Dona Mary, como era respeitosamente chamada, tinha o dom de escrever bem. Sabia muitos casos interessantes e os narrava de maneira singular. Estava para a prosa como sua irmã, Thereza Perácio de Paula, autora de “Colcha de Retalhos”, estava para a poesia. Clareza, colorido e movimento caracterizavam-lhe o estilo. Linguagem sempre escorreita, com o fraseado naquela cadência convidativa para a leitura em voz alta.

Há escritos de sua lavra dispersos em edições de jornais e revistas. No antigo Centro de Minas, de Altino Argemiro, ela assinou a coluna “Carnet Social” e, em 5/5/1957, publicou excelente crônica sobre o carnavalesco Beto Preto, morto em pleno reinado de Momo, em verdadeira tragédia nunca esquecida. O pessoal da velha guarda conta que, no momento em que atearam fogo em sua fantasia, Beto cantava e dançava “Pra seu governo”, sucesso de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira lançado por Gilberto Milfont em 1951:

“Você não é mais meu amor

Porque vive a chorar

Pra seu governo

Já tenho outra em seu lugar”

A exímia cronista colaborou também no CN – Curvelo Notícias, de Raimundo Martins (Diquinho), periódico fundado como revista em 1959, com o apoio de André Carvalho, Cláudio Castilho e José Calazans.

Anos depois, ela deu à estampa o livro “Reminiscências”, no qual voltou a discorrer sobre Beto Preto. A morte do icônico carnavalesco vem assim descrita na página 60:

“Foi num domingo gordo. Beto, como sempre, vinha de havaianas nos pés, gingando o corpo de ébano, no farto saiote de fibra colorida, roncando a sua cuíca num lamento personalíssimo, vibrando os nossos nervos com os requebros e bamboleios sensualíssimos do ritmo gostoso e nostálgico do samba. Todo ano era a mesma coisa e já fazia até parte do programa. O carnaval não era completo sem o espetáculo sempre repetido, mas aplaudidíssimo e contagiante, de alegria e risos com o disfarce do Beto.

“Mas que lembrança infernal! O demônio anda mesmo solto nesses dias, como diz o vigário. Barbaridade! Não se sabe quem foi (**) – para ser sincera, sinto uma pena, uma grande pena do infeliz culpado. Ah! Pobre consciência, arcando com o imenso fardo do fim trágico daquele crioulo infeliz! –, não se sabe de onde, apenas que, na hora exata em que todos procuravam atingi-lo em verdadeira batalha de lança-perfume, o demo lembrou-se de riscar um fósforo! Só para ver! Ah! Inferno rápido de jatos candentes que se propagaram velocíssimos, carbonizando o pobre Beto, que sucumbiu, martirizado, o corpo em chamas à vista de todos, sem que nada pudesse ser feito.

“Triste fim daquela brincadeira ingênua de um domingo gordo de carnaval. E daquele homem bom, de coração de criança, malandro, mas alegre e feliz como só ele sabia ser, o Beto Preto”.

Ao todo, Mary Perácio Pitanguy teve doze netos, dezessete bisnetos e um tetraneto. Além dessa descendência, composta de pessoas que lhe honram a bela história de vida, a cronista, com seus textos, deixa legado de grande importância para a formação da identidade coletiva do povo curvelano.

Sua literatura, podendo ser enquadrada no campo da memorialística, contribui ainda para clarear a caminhada dos conterrâneos rumo ao futuro, pois sem o conhecimento das lições do ontem, não há como enfrentar e vencer os desafios do hoje nem seguir adiante na conquista do amanhã.

Personalidades desse gabarito, quando partem, abrem lacuna impreenchível na comunidade e fazem muita falta. Ah, como fazem!

*Newton VIEIRA é jornalista, escritor e poeta.

**Elegância personificada, certamente para não ferir suscetibilidades, dona Mary perfilhou a tese inicial de que não foi apurada a autoria da morte de Beto Preto. No entanto, os autores foram, sim, identificados e responderam a processo.