Há 20 anos morria monsenhor Tavares

Ele foi companheiro de Guimarães Rosa e, quando pároco em Curvelo, teve a Matriz de Santo Antônio incendiada por uma mulher

Por Newton VIEIRA*

Hoje quero falar de uma figura emblemática na história curvelana: monsenhor João Tavares de Souza. Ele morreu há exatos 20 anos, completados em novembro passado.

Filho do carpinteiro Elias Gomes de Souza e de dona Anália Laurinda Tavares, João Tavares de Souza nasceu em 7 de fevereiro de 1903, na cidade de Cordisburgo.

Aprendeu as primeiras letras com mestre Candinho, de 1908 a 1911, período em que conviveu com João Guimarães Rosa, seu companheiro Joãozito, futuro autor do clássico Grande Sertão: Veredas.

Educado em lar católico, quando não estava a estudar ou a inventar os próprios brinquedos, como boizinhos de manga verde, exercia o ofício de sacristão nos atos litúrgicos. Aos poucos, a fé acendeu nele o desejo de apascentar rebanhos de fiéis.

Na fase de meninote, entre 1913 e 1914, teria prestado serviços à tipografia do curvelano Alexandre Severo Soares Diniz.

Órfão de pai e sem recursos financeiros, continuou os estudos no Seminário Provincial de Diamantina, auxiliado pela Associação de São José, a conhecida Obra das Vocações Sacerdotais (OVS) e pelo povo de seu torrão natal, bem como pela gente de Paraopeba, incluindo o Cedro, agora Caetanópolis. Formou-se em Filosofia, Teologia e Ciências Humanas.

Ordenado presbítero em 24 de abril de 1927, na Basílica do Sagrado Coração de Jesus, em Diamantina, pela imposição das mãos do bispo auxiliar, dom Antônio José dos Santos, foi nomeado professor dos seminaristas por ato do arcebispo, dom Joaquim Silvério de Souza. Em sequência, desempenhou as funções de notário da Cúria, vigário ecônomo de São João da Chapada e Inhaí, pró-vigário de Diamantina, cura da catedral (sucessor de monsenhor Antônio de Souza Neves), pároco de Guanhães, vigário-geral nos arcebispados de dom José Newton de Almeida e dom Geraldo de Proença Sigaud, membro do Cabido Metropolitano, camareiro secreto dos papas Pio XII, João XXIII e Paulo VI.

O padre João Gabriel Motta, de saudosa memória, teve íntimo convívio com o perfilado e, certa feita, contou-me que ele foi vigário capitular em pelo menos duas oportunidades. Uma delas teria sido em 1960. “O arcebispo se transferiu para Brasília, recém-inaugurada pelo presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, e aí o monsenhor Tavares respondeu interinamente pela Arquidiocese. Desincumbiu-se da tarefa com eficiência e dignidade singulares”, salientou padre Motta.

PÁROCO EM CURVELO

À roda de 1930, acentuou-se o choque entre os interesses de nações sob cujo domínio estava o mercado internacional desde o período 1914-1918. Os germânicos avançaram nas pretensões de conquistar o orbe. O canto guerreiro de Hoffmann von Fallersleben ganhou difusão: “Deutschland, Deutschland über alles, über alles in der Welt! – Alemanha, Alemanha acima de tudo, acima de tudo no mundo!”

Adolf Hitler, o Führer, o comandante do 3º Reich, entrou em evidência, pregando a abominável ideologia nazista. Soldados desfilariam em saudação a ele com a suástica nos uniformes.

Líder nacionalista nascido na Áustria, Hitler dizia combater o comunismo; espalhava o antissemitismo e pugnava a superioridade da raça ariana. Queria promover o expansionismo e a autonomia econômica da Alemanha, desvencilhando o país do Tratado de Versalhes.

Em 1939 irrompeu a 2ª Grande Guerra, conflagrando os ânimos. Seria a mais devastadora da História. Até 1945 a luta armada envolveria povos dos diversos continentes e daria banhos de sangue na humanidade. Deixaria rastros sinistros de destruição e de morte.

Foi nesse contexto que monsenhor João Tavares de Souza assumiu a Paróquia de Santo Antônio em Curvelo, a 15 de fevereiro de 1942, por decisão de dom Serafim Gomes Jardim, em substituição a monsenhor Francisco Xavier de Almeida Rolim, ficando até 1956, quando passou o cargo ao cônego José Maria Pires, depois bispo de João Pessoa/PB.

Os primeiros anos do paroquiato coincidiram com o aceso do conflito no Velho Mundo. Vários curvelanos, como Licério Ribeiro Guimarães, Eurípedes Ribeiro Guimarães, Pedro Francisco, Camilo Firmo Júnior, Quirino Henrique de Freitas, Pedro Rodrigues, José Félix da Rocha (Bajoujo) e Geraldo Ribeiro Guimarães, estavam no teatro das operações bélicas ou aguardavam ordens para nele entrar, integrando a Força Expedicionária Brasileira. Bajoujo, pai do Mazito do Bar, chegou a ser ferido na Batalha de Monte Castelo. O padre Celso de Carvalho, poeta e filósofo, também se encontrava na Europa, notadamente em Roma, transformado, de inopino, em capelão do Exército pátrio (1). Na ocasião, o trovador de batina ajudou a esconder judeus em edifícios da Igreja, em consonância com a estratégia adotada pelo Papa Pio XII.  Mas isso é assunto para outro trabalho.

Ora aterrorizado pelas notícias dos bombardeios, ora apreensivo pela falta de informações confiáveis, sempre preocupado com o destino dos aguerridos conterrâneos, monsenhor João Tavares encetou uma série de horas santas, pedindo a intercessão do Taumaturgo de Pádua pela integridade física dos “pracinhas” e pelo restabelecimento da paz mundial.

Pároco zeloso, amigo de ricos e pobres, doutos e ignorantes, construiu e reformou capelas dentro e fora da zona urbana, a fim de oferecer aos residentes longe da matriz a possibilidade de se aproximarem mais amiúde da Eucaristia.

No púlpito, levava os assistentes às lágrimas ao proferir homilias dignas de outros Joões: o de Antioquia, cognominado Crisóstomo (“boca de ouro”) e o brasileiro João Gualberto do Amaral. Raymundo de Medeiros, editor de A Tribuna, enfatizou sua competência na condução da Semana Santa de 1947: “Decorreram num ambiente de ordem e espírito religioso, segundo nossa expectativa, as cerimônias da Semana Santa. Justiça seja feita ao nosso digno vigário – cônego João Tavares. Sua atuação nos desdobramentos do cerimonial foi a maior prova de seu devotamento ao sacerdócio” (2).

Com ele não havia tergiversar no cumprimento do dever e, para ser fiel à vocação, às vezes tomava decisões consideradas radicais. Mas o termo “radical” não vem de raiz? E a raiz do cristianismo, ao cabo das contas, não é o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo? Pois bem. Monsenhor Tavares defendia a “radicalidade evangélica”, mais tarde definida pelo Papa João Paulo II como “exigência fundamental e irrecusável, que brota do apelo de Cristo a segui-lo e imitá-lo, em virtude da íntima comunhão de vida com Ele operada pelo Espírito” (3).

Obediente aos superiores hierárquicos, monsenhor Tavares era o sacerdote convicto daquilo que o citado Karol Wojtyla iria sublinhar em 1992: “Só quem sabe obedecer em Cristo sabe como requerer, segundo o Evangelho, a obediência de outrem” (4).

O monsenhor emocionava também ao emitir, estentórica pelas naves, a voz de barítono, respondendo ao coral que, afinado, entoava o canto gregoriano.

Modelo de santidade, tal qual os mais dedicados servos de Deus, viu-se levado ao deserto das tentações, mas nelas não caiu em nenhuma circunstância.

Certa vez, uma mulher tentou seduzi-lo, mas ele, fervoroso devoto do celibato, repreendeu-a sem demora. Era convictamente um dos “eunucos que assim se fizeram a si mesmos por amor do Reino” (5). Em represália, mente ensandecida, a infeliz não relutou em atear fogo à Matriz de Santo Antônio, abalando sobremodo o âmago da solidária comunidade curvelana.

No livro Sangue de Rosaura, dado à estampa em 1954, Luiz Canabrava inseriu o conto “Isaltina”, no qual descreveu o episódio como se o tivera presenciado, evidentemente alterando os nomes dos envolvidos. O contista inicia destarte a narrativa:

“Entrou na matriz, assim como quem vai rezar. Talvez mais afoita do que de costume. Não fazia frio, mas ela trazia um xale de lã cobrindo-lhe o colo, cuidadosamente. Os passos, por mais que os controlasse, eram ligeiramente nervosos e apressados. No mais, era como se chegasse para as novenas…

“Em direção ao altar-mor, olhou furtivamente para os lados. A igreja pareceu-lhe vazia.

“Nem reparou nos santos, que sorriam com beatitude para ela. Tirou a garrafa de querosene que trazia debaixo do xale. Espalhou o líquido no tapete, bem rente ao altar. Depois, derramou o resto na toalha de cima e riscou um fósforo” (6).

É fácil entender por que se mostraram os paroquianos tão abalados com o incêndio criminoso no templo. Era-lhes o pároco, em todas as horas, de modo especial nas mais amargas, infalível aliado.  Djanira C. Cota lavrou este testemunho: “Escudado na couraça de sua fé e de sua caridade evangelizadora, o cônego João Tavares de Souza vive e sente as necessidades desse povo que tanto estima e venera. Não há miséria que não socorra; não há estímulo para a juventude ou para a sua atenção, sempre vigilante, que não prodigalize” (7).

Em 24 de abril de 1952, monsenhor Tavares comemorou jubileu de prata presbiteral. A data revestiu-se de ingente brilho. Entre as homenagens prestadas ao jubilado, na Matriz de Santo Antônio, destacou-se o hino composto especialmente para o evento, letra do poeta Ragosino Alves e música do maestro Elias Salomé. A primeira estrofe e o refrão diziam:

“Qual linda messe em pleno reflorir

era o sagrado templo do Senhor,

quando solene voz se fez ouvir:

– Tu és ‘sacerdos’! És de Deus Pastor!

“Tu és ‘sacerdos’ – ordem sacrossanta,

penhor de paz, de bênçãos e de amor,

dos céus sublime voz que se levanta

pra tirar dentre os homens o Pastor”(8).

Por coincidência – ou por desígnios divinos, dirão os mais crentes –, ele celebrou o sexagésimo e o septuagésimo aniversários de presbiterato também em Curvelo, em 24 de abril de 1987 e 24 de abril de 1997, ambos na Paróquia Imaculada Conceição, no Tibira, onde trabalhou durante curto período. No último festejo, ganhou acróstico do poeta acadêmico Edson Gandra. A segunda estrofe era assim:

T ambém em sua vida há um misto de alegria!

 A quela que o protege é a Virgem Maria,

 V ivificando ainda mais a Santa Igreja!

 A ‘Mulher Vestida de Sol’ é, pois, a benfazeja

 R ainha do Universo e Mãe por excelência,

 E spargindo de suas mãos turbilhões de graças,

 S alvíficas mensagens, cheias de clemência” (9).

PROVEDOR DA SANTA CASA

Provedor da Santa Casa de Misericórdia, atual Hospital Santo Antônio, de 1º de fevereiro de 1944 a 1954, quando foi substituído pelo médico Márcio de Carvalho Lopes, adquiriu para o nosocômio moderno aparelho de raios X. Além disso, ampliou as instalações, propiciando o surgimento de um pavilhão (copa e cozinha) e da Maternidade São Geraldo (10). Conseguiu ainda: lâmpada apropriada e ultramoderna para a sala de operações, melhor aparelhamento cirúrgico, serviço ambulatorial diário e reforma dos estatutos da Irmandade (11).

PREFEITO NOMEADO

Com a devida licença eclesiástica, tornou-se prefeito de Curvelo, de 4 de janeiro a 27 de março de 1947, sucedendo ao jurista Newton Gabriel Diniz. Tomou posse perante o juiz de direito da Comarca e de algumas testemunhas, entre as quais Péricles Pinto da Silva, médico, farmacêutico, deputado e senador (12).

Não obstante a brevidade da gestão, conseguiu levar aos munícipes numerosas benfeitorias, mormente no campo educacional. Ele próprio atuava no magistério e seria registrado no MEC com o número D-9808. Informa o professor José Gregório de Sousa Filho, em artigo para a revista Acaiaca: “…realizou profunda modificação no setor do ensino rural, que lhe ficou devendo as novas instalações introduzidas nas escolas” (13). Igualmente preocupou-se com os educandários urbanos. Teve cacife suficiente para instalar, em 15 de março de 1947, o 3º Grupo Escolar de Curvelo, a Escola Estadual Interventor Alcides Lins, existente no papel desde 3 de setembro de 1929, criada pelo decreto nº 9.138, baixado pelo Governo do Estado de Minas Gerais.

Além da audácia de instalar o grupo em outro prédio escolar, por falta de edificação própria, monsenhor Tavares deu posse à primeira diretora, Neide de Freitas; cedeu dependências da Paróquia para funcionamento da cantina, organizou caixa para auxílio aos estudantes carentes e se fez presença constante entre docentes e alunos (14).

Tantos feitos em exíguo trimestre só se explicam pela unidade que o extremoso clérigo fez reinar entre os curvelanos das diferentes classes sociais e colorações partidárias. Assinala o historiador Antônio Gabriel Diniz: “Alheio às lutas políticas, mas vislumbrando o espírito – eu sou de cá, você é de lá – que rotineiros tentavam renascer, conseguiu [monsenhor Tavares], por sua grande autoridade moral, o que, havia anos, sem autoridade para nos fazer ouvidos, preconizávamos aos próceres locais: – a união, cousa essencial para o melhoramento do município, sob todos os aspectos” (15).

Melhoramento do município e da região, ouso acrescentar, porquanto o prestígio do monsenhor uniu lideranças de Curvelo e Diamantina e, com isso, proporcionou a abertura da primeira estrada de rodagem ligando as duas cidades.

Nada de criticá-lo por ter sido prefeito nomeado. As intervenções nos estados e as nomeações nas prefeituras eram reflexos da fragilidade do governo brasileiro diante da intensificação da Guerra Fria e das pressões norte-americanas contra o avanço do comunismo. Esses fatores levaram o presidente Eurico Gaspar Dutra a ignorar certas conquistas introduzidas na Carta de 1946.  

Nada de criticá-lo por envolver-se na política sendo guia espiritual. Sacerdotes influentes no poder, há-os em todos os tempos e lugares. Não à toa se criou a expressão “eminência parda”, cuja origem remonta ao capuchinho Joseph du Tremblay, conselheiro do cardeal Richelieu na corte francesa. A batina dele era, digamos, de cor bege, contrastando com a púrpura cardinalícia. Estava em posição inferior e nos bastidores. No entanto, em muitos casos, era quem dava as cartas. Ademais, mal algum reside no exercício da influência em si. Resta saber como a influência é exercida, se de maneira nociva ou benéfica aos interesses da coletividade.

Sim, monsenhor Tavares foi prefeito nomeado. No entanto, comandou o executivo sem deixar nada a dever aos mais honestos e dinâmicos administradores públicos eleitos. Aliás, realizou administração considerada avançada para o meio e o momento histórico. Se fosse levado ao cargo pelo eleitorado, talvez não tivesse promovido a união a que aludiu Antônio Gabriel Diniz, uma vez que teria saído de um partido (de parte = divisão), desgastado pelos embates pré-eleitorais.

A democracia, com eleição direta, será sempre o melhor regime. Mas os embates eleitorais, não raro, abrem feridas de difícil cicatrização, suscitam paixões desaçaimadas e provocam – como assinalou mestre João Camilo de Oliveira Torres – “muita violência” (16). Na Curvelo de outros idos, as campanhas políticas espargiam labaredas. O reputado jornalista José Guilherme dos Santos, cujo talento foi exaltado por Humberto de Campos em Os Párias, conta que, em 1912, as eleições para vereador e juiz de paz na comarca curvelana “correram sob o influxo de violentas paixões partidárias”, havendo compra de votos e o emprego de armas de fogo. No distrito de Andrequicé – narra José Guilherme – “jagunços se apoderaram violentamente dos livros eleitorais, das cópias da ata da eleição regularmente feita e da urna que continha as cédulas e os queimaram na praça pública, conforme plenamente provado pelo inquérito policial feito por ordem do chefe de Polícia do Estado” (17).

Hoje não existe mais a jagunçada, mas será que o coronelismo realmente acabou? Não teria apenas assumido novas feições? Eletrônicas, por exemplo. Será que a maturidade norteia o comportamento de votantes e votados?

HOMEM DE IMPRENSA

Jornalista emérito, monsenhor Tavares criou a Escola de Aprendizes Gráficos e, em seguida, o semanário O Pão de Santo Antônio, cujo comando deixou com as moças da Ação Católica. Não se tratava de um jornal qualquer. Aquele veículo constituía autêntica barbacã em defesa do bom e do belo.

Muito bem se realizou por intermédio de O Pão de Santo Antônio, desde a sua edição inaugural em 1º de julho de 1947.

Numa indagação do editorial A soberania da imprensa, ficou manifesto o princípio que nortearia toda a publicação: “Que de verdade poderá colher e conservar o leitor que todas as manhãs se alimenta das ideias malsãs de um jornal perverso?” (18).

Sílvio Gabriel Diniz, em 1969, tributou louvores à publicação. Asseverou o renomado historiador: “Às vezes com quatro páginas, outras muitas com seis, noticiava tudo de importante sobre o movimento religioso da Paróquia. Não lhe faltava espaço para doutrinação nem para as notas sociais. Anúncios? Muito raros (…) Pregou sobranceiro e soube defender sem partidarismo o seu nobre lema (…) Durante uma vintena de anos, os paroquianos de Curvelo receberam o alimento domingueiro de ‘O Pão de Santo Antônio’” (19).

O DOM DA HUMILDADE

Apesar do saber onímodo, da fronte nimbada de louros, do trânsito livre entre os poderosos, caracterizou-se o monsenhor Tavares, acima de tudo, pela sincera humildade. Nele jamais afloraram mínimos laivos de presunção, nem mesmo ao ser agraciado, por inegáveis méritos, com a Medalha de Honra “Couto de Magalhães”.

As autoridades curvelanas homenagearam-no, transformando-o em nome de rua. Naquela época, era conforme à lei esse preito a ilustres figuras ainda vivas.  Basta lembrar o prefeito Paulo Salvo, o diretor de banco Constantino Dutra Amaral e o promotor Luiz Duarte, outros três dentre muitos que denominaram logradouros públicos antes do embarque rumo à “região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou” (20).

Em 21 de outubro de 1984, a Academia Cordisburguense de Letras “João Guimarães Rosa” concedeu-lhe o título de Membro Honorário.

Nem por isso ele se exaltou. Nada disso teve forças bastantes para torná-lo presunçoso.

O FIM DA TRAJETÓRIA

Nietzsche, no Ecce Homo, assegurou que “para uma pessoa realmente sã, a moléstia pode ser, pelo contrário, enérgico incitamento para viver e viver mais intensamente” (21). Antes dele, Santo Agostinho referiu-se à existência de “dores salutares”, capazes de aguçar o intelecto. Está nas Confissões: “A vista perturbada e entenebrecida da minha inteligência melhorava, de dia para dia, com o colírio das minhas dores salutares” (22).

Aparentemente, quanto paradoxo! Apenas a-pa-ren-te-men-te.

O monsenhor João Tavares de Souza, saúde debilitada, curvado ao peso de quase cem anos, confirmou, ao manter-se em atividade, a assertiva do Hiponense e a do formulador da teoria do über-Mensch, o “super-homem” ou “além-do-homem”. Como se isso não bastasse, contrariou, ao conservar acesa a chama das lembranças, o hexâmetro 51 da IX Bucólica, de Virgílio, especificamente o hemistíquio em que Méris, provável servidor ou vizinho de Menalcas, antes de lamentar o esquecimento das cantigas de antigamente, atribui ao avanço da idade o ocaso de tudo, inclusive da memória: “Omnia fert aetas, animum quoque(23).

Lutando contra as situações adversas, monsenhor Tavares mourejou, lúcido, até o último minuto, na Paróquia do Santo Cura d’Ars, no Prado, em Belo Horizonte, onde recebeu o tratamento quase filial de Deonília e Maria José, as sobrinhas educadas com esmero sob seu teto.

Rígido seguidor das normas de etiqueta, nisso semelhante ao Barão de Mauá, não deixava carta alguma sem resposta. Missivista exuberante, escrevia de madrugada, deitado, mãos trêmulas, mas escrevia, a conhecidos e a estranhos, a quantos lhe solicitassem conselhos, informações históricas ou somente aspirassem a notícias de seu frutuoso apostolado.

E assim, trabalhando sem descanso, comportou-se até 25 de novembro de 2001, data em que seu coração parou de bater.

No substancioso opúsculo sobre o padre João de Santo Antônio, desde o lançamento verdadeiro cimélio, a merecer nova e maior tiragem, ele definiu o fundador de Cordisburgo em termos que poderiam ser empregados em relação a si mesmo: “… soube desempenhar duradoura, gloriosa e árdua missão sem nunca ter afrouxado em suas puras e elevadas intenções, nem desviado de si trabalhos impostos pelo ministério altíssimo a que consagrou todas as forças do seu vigoroso organismo” (24).

Se a profecia de Daniel estava certa – e indubitavelmente estava –, se “os que tiverem ensinado a muitos o caminho da virtude luzirão como as estrelas por toda a eternidade” (25), o monsenhor João Tavares de Souza pode ser visto à noite no firmamento a cintilar… a cintilar… a cintilar…

*Newton VIEIRA é escritor, jornalista e historiador. Pertence a várias instituições dentro e fora do Brasil. Reside em Curvelo/MG. E-mai: newtonvieiracvo@gmail.com

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NOTAS BIBLIOGRÁFICAS/REFERÊNCIAS:

  1. – Jornal Curvelo Notícias – CN, edição de maio/1995; edição de setembro/2005, p. 39. Coleção deste autor.
  2. – MEDEIROS, Raymundo de.  A Tribuna, edição de 20/4/1947, p. 1. Exemplar pertencente ao Museu Vivo da História Local, em funcionamento na Faculdade de Ciências Humanas de Curvelo, onde pesquisei auxiliado pelo professor Geraldo Rodrigues Álvares. A Facic fica na Av. JK, 1.441 – Jóquei-Clube – Curvelo/MG.
  3. – JOÃO PAULO II. Pastores dabo vobis (Dar-vos-ei Pastores). Exortação apostólica pós-sinodal. São Paulo: Edições Paulinas, 1992, p. 72.
  4. – IDEM. Ibidem, p. 74.
  5. – Cf. Mt 19, 11-12. Nessa passagem, a Igreja encontrou fundamento bíblico para o celibato.
  6. – CANABRAVA, Luiz. Sangue de Rosaura. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1954, p. 59.
  7. O Pão de Santo Antônio, 13/6/1947, p. 3. Coleção do Acervo Municipal “Newton Corrêa”, em funcionamento na Praça Central do Brasil – Curvelo/MG. Obs.: Djanira C. Cota era aluna do Orfanato Santo Antônio.
  8. – ALVES, Ragosino. Reflexos d’Alma. Belo Horizonte: edição da Academia Curvelana de Letras, 1989, p. 40.
  9. – Cópia do acróstico foi encaminhada a este autor pelo confrade Edson Gandra, membro da Academia Curvelana de Letras.
  10. Acaiaca – Revista editada por Celso Brant. Belo Horizonte: 1955, n. 67, p. 77.
  11. – Há substanciosas informações sobre o trabalho de monsenhor João Tavares na provedoria da Santa Casa de Misericórdia em: DINIZ, Antônio Gabriel. Dados para a História de Curvelo. Belo Horizonte: Editora Comunicação, 1975, vol. II, p. 59.
  12. – O Termo de Recebimento e Entrega da Prefeitura Municipal de Curvelo, isto é, o termo de posse de João Tavares de Souza (Cônego) no cargo de prefeito, encontra-se na página 26 do Livro de nomeações, posses e exonerações n. 01, nos arquivos da Prefeitura Municipal de Curvelo, onde pesquisei  com o auxílio da secretária-geral, Marli Aparecida Martins Palhares.
  13. – FILHO, José Gregório de Sousa. Prefeitos de Curvelo e suas realizações. Revista Acaiaca. Belo Horizonte: 1955, n. 67, p. 34.
  14. – Informações encontradas no acervo histórico da Escola Estadual Interventor Alcides Lins, onde pesquisei auxiliado pela professora Ádma da Conceição Aparecida Rocha Santos. O referido estabelecimento de ensino fica na Rua Paulo de Frontin, n. 358 – Curvelo/MG.
  15. – DINIZ, Antônio Gabriel. Ob. cit., vol. I, p. 103.
  16. – TORRES, João Camilo de Oliveira. Educação Moral e Cívica – Ciclo Colegial. Belo Horizonte: Edições Júpiter, 1970, vol. II, p.37.
  17. O Trahyrense. Ano I, n. 8, edição de 24 de dezembro de 1912, p. 1. Obs.:  – Esse quinzenário era editado no distrito curvelano de Trahyras, atual município de Santana de Pirapama;  – Sua coleção completa, quando de minha pesquisa, encontrava-se na biblioteca particular do escritor Márcio Vicente da Silveira Santos, na cidade de Sete Lagoas;  – Nas citações em tela, atualizou-se a ortografia.
  18. O Pão de Santo Antônio – 3/8/1947, p. 1. Coleção do Acervo Municipal “Newton Corrêa”, hoje em funcionamento na Praça Central do Brasil – Curvelo/MG. Obs.: o editorial em apreço continuou na edição seguinte.
  19. – DINIZ, Sílvio Gabriel. Curvelo, Meu Curvelo. Belo Horizonte: Editora Comunicação, 1975, p. 17.
  20. – Definição de William Shakespeare para a morte no famoso monólogo To be or not to be (Ser ou não ser). Hamlet, Ato III, Cena I. Trad.: Pietro Nasseti. São Paulo: Martin Claret Editora, 2001, p. 57.
  21. – NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. Trad.: Pietro Nasseti. São Paulo: Martin Claret Editora, 2000, p. 39.
  22. – AGOSTINHO, Santo. Confissões. Trad.: J. Oliveira Santos, S. J., e A. Ambrósio Pina, S. J. São Paulo: Abril Cultural, 1980, Livro VII, cap. 8, p. 115.
  23. – VIRGÍLIO. Bucólicas. Publicação bilíngue. Trad. e notas introdutórias: Péricles Eugênio da Silva Ramos. Brasília/São Paulo: Editora Universidade de Brasília/Melhoramentos, 1982, pp. 144 e 145.
  24. – SOUZA, João Tavares de (Monsenhor). Vida do Padre João de Santo Antônio – Fundador de Cordisburgo. Belo Horizonte: Gráfica e Editora Tavares Ltda., s./d., p. 9.
  25. – Dan 12,3.