Agressão à imprensa em Curvelo: fato histórico

Por Newton VIEIRA*

Neste 7 de abril, comemora-se o Dia do Jornalista. Na verdade, há outras datas dedicadas ao importante e necessário profissional. A de hoje constitui homenagem a Líbero Badaró, assassinado em 7 de abril de 1830.

Coincidentemente, neste mesmo mês, em 1913, ocorreu a primeira grande agressão a um jornalista curvelano de que se tem notícia. O diretor do Centro de Minas, Altino Argemiro, em virtude de editorial contrário a interesses de seus adversários, foi espancado por jagunços no meio da rua.

O crime ganhou espaço em pelo menos três números de O Trayrense, jornal editado em Trayras, então distrito de Curvelo, atualmente Santana de Pirapama. Na edição de 20 de abril de 1913, sob o título “Covarde agressão”, com o subtítulo “Castellismo sanguinário” (referência a Vianna do Castelo), o editor José Guilherme apontou Álvaro Vianna como mandante do espancamento. Segundo ele, era o que o povo comentava na cidade. “O povo que não mente”, ressaltou. No entanto, nada restou comprovado.

Na época, alternavam-se no poder os clãs “mascarenhista” e “viannista”. Sigla partidária tinha pouca ou nenhuma importância. De duas, uma: ou o cidadão era conduzido pelos Mascarenhas, ou se deixava conduzir pelos Viannas. A rivalidade se estendia à cultura (os de cá não frequentavam o cinema dos de lá, e vice-versa) e chegaria inevitavelmente à imprensa. Surgiram jornalistas ligados a ambos os grupos.

De certo modo, essa desavença curvelana se transferiu para o plano nacional. Transcorreram sóis e luas… José Guilherme, vereador entre 1916 e 1920, mudou-se para o Rio de Janeiro, então sede da República, onde atuou em conceituados veículos, a exemplo do Gazeta de Notícias, e sempre publicava artigos contra o governo de Washington Luís. Lá também estava seu desafeto Vianna do Castelo, cujo nome daria origem ao termo “castelismo” e que viria a assumir o Ministério da Justiça e Negócios do Interior justamente no governo de… Washington Luís, de quem era homem de total confiança. Aliás, foi ele quem alertou o presidente sobre o complicado quadro político que se desenhava e resultaria na Revolução de 1930, quando o chefe do Executivo e seu ministro, depostos, tiveram de buscar exílio na Europa. Muita coisa aconteceu em terras cariocas nesse período… Certa feita, atearam fogo à biblioteca de José Guilherme. Nunca se descobriu a identidade do incendiário.

Os irmãos Álvaro Vianna (1882-1936) e Vianna do Castelo (1874-1953) eram poetas e, consoante Massaud Moisés, saudoso catedrático da USP, em obra monumental, tiveram significativa participação no Movimento Simbolista em Minas, ao lado de autores como Alfredo de Sarandy Raposo, Edgar Mata e Horácio Guimarães, filho de Bernardo Guimarães (“A Escrava Isaura”). De Alphonsus de Guimaraens, Álvaro recebeu o cognome “Discípulo Amado” em belíssimo soneto-epitáfio. Tanto José Guilherme dos Santos (1890-1932) quanto Vianna do Castelo ganharam do acadêmico Humberto de Campos (1886-1934) textos elogiosos inseridos, respectivamente, nos livros “Os Párias” (crônicas) e “Perfis” (2ª série).

No texto sobre Vianna do Castelo, uma curiosidade: talvez o escritor maranhense tenha sido a primeira pessoa pública a se referir a Curvelo com o epíteto “coração de Minas”. Escreveu o integrante da Academia Brasileira de Letras: “Nascido embora no coração de Minas, era o que havia de menos mineiro”. Mais tarde, a expressão seria empregada em propagandas institucionais do município: “Curvelo – Coração de Minas”.

Humberto de Campos conta ainda caso engraçado, merecedor de registro na história do folclore político brasileiro. Em determinada ocasião, Vianna do Castelo andava às turras com os caciques de seu partido porque defendia ideias por eles não esposadas. Lá um belo dia, chamaram-no a Belo Horizonte para uma conversa. Chapa estava sendo organizada no estado para as eleições seguintes.

Na reunião, travaram com ele este diálogo:

– Doutor, a partir de agora, o senhor terá plena liberdade.

– Eu?! Então posso, a partir de agora, apresentar ao Congresso os meus projetos, as minhas ideias?

– É possível, mas o senhor vai ter liberdade porque… foi cortado da chapa!

Susto daqueles. Vianna do Castelo, de acordo com Humberto de Campos, ficou vermelho, azul e verde. Antes, bem antes desse cômico e constrangedor episódio, os mandachuvas já lhe haviam dito: – “O senhor aqui não tem de ser homem de ideias; só mais um soldado com um número”.

Dessa forma, o curvelano se viu excluído da chapa para deputado federal.

Os famosos “furos de chapa” eram comuns naqueles idos da República Velha. Estava em vigor o voto cumulativo, com o eleitor podendo votar mais de uma vez em candidatos diferentes ou em um mesmo candidato, sistema eleitoral introduzido no Brasil pela Lei 1.269, de 15 de novembro de 1904, a “Lei Rosa e Silva”, apelido derivado de Francisco de Assis Rosa e Silva, o senador que a propôs.

Em dois pleitos, se não me engano (faltou-me oportunidade de consultar meus alfarrábios), Vianna do Castelo ganhou, mas não levou, apesar de ter recebido votação expressiva.

Pois bem. Deixe-me voltar a falar do jornalista Altino Argemiro (1883-1970), o primeiro gravemente atacado em Curvelo por causa da profissão.

Ele dirigiu e redigiu o Centro de Minas por quase duas décadas e muito fez pelo desenvolvimento local e regional. Em 1910, contrariando os chefes políticos, abraçou a chamada “campanha civilista” e ajudou Rui Barbosa a derrotar Hermes da Fonseca… Apenas em Curvelo, claro, pois o marechal se sagrou vitorioso no resto do país e sucedeu a Nilo Peçanha no Palácio do Catete.

Como os demais personagens aqui citados, Altino Argemiro também morou algum tempo no Rio de Janeiro, onde trabalhou no Correio da Manhã, no Jornal do Brasil e em outros órgãos influentes. Em 1925, colaborou com a família de Irineu Marinho na fundação de O Globo. Morreu aos 87 anos, em Belo Horizonte.

“Jornalista maior”, como o qualificou o historiador padre Alberto Vieira de Araújo, tinha espírito combativo, linguagem escorreita e estilo único. Assinou reportagens ricas de conteúdo e de elevado alcance sociocultural. Seu nome não pode ser esquecido de jeito nenhum. Ao revés, deve ser exaltado, sobretudo nesta quadra de incertezas, tão carente de respeito e tolerância. As opiniões se divergem, e nisso está a essência da democracia.

Na imortal figura de Altino Argemiro, homenageio todos os profissionais do jornalismo.

*Newton Vieira é ensaísta, jornalista e poeta. Pertence a várias instituições culturais, dentre elas a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG) e a Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências ALPAS 21. Em 2018, durante a Feira do Livro de Porto Alegre, recebeu a “Comenda Personalidade Literária Internacional”. Detém prêmios conquistados no Brasil e no exterior, Além dos livros publicados individualmente, figura em dezenas de antologias, como a “Écrivains Contemporains du Minas Gerais”, lançada no Salão do Livro de Paris 2012.