Pioneirismo feminino na comunicação curvelana

Por Newton VIEIRA*

Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, discorro um pouco sobre a atuação das curvelanas na mídia. Peço licença para lembrar, de modo especial, duas jornalistas do passado, cujas histórias servem – ou deveriam servir –  de inspiração para suas conterrâneas do presente, em virtude do quanto simbolizam em termos de pioneirismo. Refiro-me a Maria Pinheiro Lima e Lúcia Veado.

Desde já, meu abraço afetuoso às mulheres, desejando-lhes felicidades e sucesso não apenas neste emblemático 8 de março, mas no decorrer do ano inteiro.

“A mulher tem na face dois brilhantes/ Condutores fiéis de seu destino/ Quem não ama o sorriso feminino/ Desconhece a poesia de Cervantes”, diz a letra da canção, por sinal belíssima, de Otacílio Batista e Zé Ramalho, magistralmente interpretada por Amelinha.

Volta e meia, nas rodas masculinas, discute-se a velha dificuldade de entender as mulheres, o que me inspirou a seguinte trova:

“Sobre mulheres e estrelas,

aprende logo, meu filho:

– mais que tentar entendê-las,

deves louvar-lhes o brilho!…”

Pois bem. Eu tenho obras de Cervantes na minha exígua, mas substanciosa biblioteca. E as tenho lidas, relidas e estudadas, com aquelas tradicionais anotações nas margens. Disso se infere o óbvio: amo o sorriso feminino. Não apenas o sorriso, lógico. E também faço o que sugiro seja feito: na medida do possível, louvo, em verso e prosa, o brilho das mulheres, brilho sem o qual talvez os homens nos perdêssemos na escuridão de nossos próprios ermos.

Posto isso, deixe-me cumprir o prometido e falar das pioneiras. Ah, mas antes tenho de abrir parêntesis para dizer que, assim como a mulher curvelana na comunicação, merece realce a mulher na comunicação curvelana. São coisas parecidas, mas diferentes: mulher curvelana na comunicação – a nascida em Curvelo; mulher na comunicação curvelana – a com naturalidade em qualquer outro lugar.

Estabeleço tal diferença e dela me valho para registrar, de saída, a importância de algumas que, vindas de terras próximas ou distantes, prestaram ou prestam à cidade grandes serviços na imprensa, no rádio, na TV ou no ciberespaço. É o caso de Acidália Lisboa, Catarina Gonzaga, Francyne Perácio, Gislaine Moreira, Ivanice Araújo, Lorena Lemos, Mercês Maria Moreira, Wal Rocha, Renata Silva, Zinha Rocha e… Gabriela Mistral (1889-1957). Sim, ela mesma, a ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 1945! Lucila Godoy Alcayaga, a célebre chilena Gabriela Mistral, colaborou na imprensa curvelana. Bem anteriormente à láurea concedida pela Academia da Suécia, atendendo a convite do jornalista Everaldo Fairbanks, a beletrista começou a enviar escritos para o semanário “A Razão”, impresso na Tipografia Minerva. Os artigos eram publicados em espanhol, língua materna da autora de “Desolación”, porque havia, segundo o editor, o risco de o sentido ser desvirtuado. Na capa da edição de 15 a 22 de outubro de 1925, de “A Razão”, Everaldo Fairbanks justificou destarte a atitude: “Gostosamente publicamos, nas colunas que se seguem, o precioso artigo que nos foi enviado por esta nossa distinta colaboradora. Damos a publicação de acordo com o original, a fim de não desvirtuar o sentido das palavras da gloriosa escritora”. Em seguida a esse lide, veio a lume o texto “Chile”, de cunho poético e pleno de chilenidade. A certa altura da peça literária, a compatriota de Neruda afirmou que seu país poderia ser um pequeno território, mas nem por isso era uma pequena nação: “Pequeño territorio, no pequeña nación; suelo reducido, inferior a las ambiciones y a la indole heroica de sus gentes. No importa; tenemos el mar!… el mar!… el mar!”.  

Que lindo, pessoal! E que honra saber de Gabriela Mistral na nossa História!

Agora, sim, vou tecer breves considerações sobre Maria Pinheiro Lima e Lúcia Veado.

MARIA PINHEIRO LIMA

Filha de João Vigésimo de Lima e Jesuína Pinheiro Lima, Maria Pinheiro Lima nasceu em Curvelo (MG), a 11 de novembro de 1888, meses depois da assinatura da Lei Áurea, quando a Monarquia Parlamentar dava os primeiros sinais de declínio. Morreu em Sete Lagoas (MG), a 8 de junho de 1967. Casada com Sebastião Marques de Castilho, passou a assinar Maria Pinheiro de Castilho. Dos seus 25 filhos, estavam vivos no momento em que encetei a pesquisa sobre ela: Mauro Pinheiro de Castilho, Eduardo Pinheiro de Castilho e Walter Pinheiro de Castilho.

Ainda adolescente, aos 14 anos, Maria Pinheiro Lima, ao lado da irmã Anita (1889-1967), fundou e dirigiu, em Curvelo, o jornal “A Borboleta”. Na época, elas auxiliavam o pai na tipografia de propriedade da família.

A fundação de “A Borboleta” faz de Maria e Anita as primeiras mulheres nascidas em Curvelo dedicadas à comunicação no Município. Mas não é só isso. Vale salientar que o periódico “A Borboleta”, lançado em 30 de março de 1902, era publicação de cunho literário dedicada (pasmem!) ao público feminino, ou “ao belo sexo”, como diria mais tarde o historiador Antônio Gabriel Diniz.

Ana Pinheiro de Lima, a Anita, em 1905, voltaria a se envolver com jornal, ao tornar-se proprietária de “O Riso”, cuja gerência entregou a Francisco da Paz.

Casada com Ricardo Penna, Anita passou a assinar Ana Pinheiro Penna. Ao contrário de Maria, não teve filhos. No entanto, criou e educou o sobrinho Alfredo Cardoso Penna e o sobrinho-neto Ricardo Antônio Cardoso Penna.

Quase ato contínuo ao lançamento de “A Borboleta”, Jesuína Pinheiro de Lima Borges (o Borges era do marido, Waldemar Borges Diniz), futuramente conhecida como dona Sinhá e também irmã de Maria e Anita, integrou a direção de “A Veneta”, jornal criado com finalidade humorística. Dona Sinhá (1892-2001) morou décadas nas proximidades da antiga Câmara. Morreu lúcida aos 108 anos. Era mãe de Juvenal, Mirtes, Paulo, João, Fausto, Marina (eterna Verônica na Sexta-Feira da Paixão), Maria Helena e Lélia.

LÚCIA VEADO

Filha de Pedro Ad-Víncula Veado e Perina Corsine Veado, portanto irmã do jurista doutor Wilson Veado, orador oficial em minha posse na Amulmig – Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, em Belo Horizonte, Lúcia Veado nasceu em Curvelo (MG), a 11 de agosto de 1926. Morreu na capital mineira, a 31 de junho de 2005. Eram também seus irmãos: Pedro, Walter, Wagner, Léa e Juarez. Tornou-se Lúcia Constâncio Veado ao casar-se com Clair Constâncio Silva.

Verbete no “Dicionário Biográfico da Imprensa Mineira”, de André Carvalho e Waldemar de Almeida Barbosa, Lúcia estreou-se no jornalismo aos 11 anos, escrevendo na página infantil do “Estado de Minas”. Aos 13, elaborava e ilustrava biografias de compositores célebres. No assim chamado “Grande Jornal dos Mineiros”, foi redatora, cronista, entrevistadora e repórter. Especialistas consideram-na revolucionária com sua série de reportagens sobre a mulher. No “Diário da Tarde”, manteve, semanalmente, como redatora e ilustradora, uma página feminina, a primeira do gênero no Estado. Nas rádios Mineira e Guarani, produziu e apresentou programas musicais. Na TV Itacolomi, deixou marca como eficiente produtora. Ajudou a criar a Associação das Cronistas Radiofônicas de Minas Gerais e também trabalhou na Superintendência de Museus do Governo de Minas. Notabilizou-se nas artes plásticas com desenhos merecedores de aplausos tanto pela beleza quanto pela originalidade.

Lúcia Veado trazia o jornalismo e o pioneirismo no sangue. Escrivão do 2º Ofício do Judicial e Notas e oficial do Registro de Títulos e Documentos do Termo, seu pai, Pedro ad-Víncula Veado (1891-1977), atuou na redação do “Jornal de Curvello” (1928) e, antes, na de “A Mocidade” (1926), órgão da União dos Moços Católicos. Em 1927, ele participou da fundação do Liceu Mineiro, futuro Colégio Padre Curvelo, e, mais tarde, entre 1930 e 1931, integrou a sociedade que adquiriu o educandário, com a ida do professor Érico de Bacelar e Souza para outra cidade. Sua mãe, dona Perina Corsine Veado (1897-1985), consoante matéria por mim publicada na revista Pequi Magazine, edição de abril de 2012, páginas 70 e 71, travou batalhas na Justiça e nos órgãos de imprensa, na década de 1920, para reivindicar o direito feminino ao voto. Em Curvelo, ela recebia cartas de incentivo da bióloga Bertha Lutz (1894-1976) e da advogada e verdadeiro meteoro Elvira Komel (1906-1932), dentre tantas sufragistas de renome. Enfrentava a ira de conservadores empertigados, sempre apoiada pelo marido. Dona Perina chegou a solicitar alistamento eleitoral, com base em precedentes abertos em outras regiões. Mas o juiz da Comarca, Paulo de Faro Fleury (1875-1941), em 4 de outubro de 1928, negou-lhe o pedido e afirmou, já no primeiro parágrafo da sentença:

“Não me convenceram os argumentos da peticionária para deferir sua pretensão de se alistar no quadro dos eleitores deste município”.

Mais adiante, o magistrado fez este registro curioso:

“Deixo a outros a glória de arrastarem para o turbilhão das paixões políticas a parte serena e angélica do gênero humano”.

Pode soar irônico o enunciado ora transcrito. No entanto, reflete o mais sincero ponto de vista da autoridade togada, a quem os cronistas, a exemplo de Ary Theo (“Diário da Tarde”) e Franklin de Sales (“Folha de Minas”), se referiam com epítetos do tipo “juiz puro” e “homem do lar”. Ele realmente estava convicto de que a militância política seria prejudicial às mulheres.

CURIOSIDADE: – O doutor Fleury, depois desembargador Fleury, embora tivesse a cidadania brasileira, nasceu em Paris, a 22 de maio de 1875. Na ocasião, seu pai, o conselheiro André Augusto de Pádua Fleury, encontrava-se na Europa com a esposa, Paula Eufrosina de Faro Fleury, a serviço do Império de dom Pedro II.

NAS PEGADAS DAS MESTRAS

Nas pessoas das precursoras Maria Pinheiro Lima e Lúcia Veado, rendo homenagens a todas as mulheres, colocando em relevo as nascidas em Curvelo e dedicadas à comunicação. Sem muito esforço de memória, posso citar entre as seguidoras das pegadas das mestras, nas mais diversas quadras: Alessandra de Oliveira, Alpha Vianna Marques, Andreia Almeida, Aparecida Ferreira, Áurea Cardoso de Menezes (Irmã), Brisa Marques, Deusana Tomaz, Dolores Nunes Schwindt, Elizabeth Maria Lopes Colares, Elizete Matoso, Elza Louzada, Érika Neves Mariz, Fernanda Arantes, Graça Paixão, Iris Andrade da Fonseca, Karla Araújo, Jaqueline Rodrigues, Lourdinha Amorim, Márcia Heloisa Fonseca, Maria Cláudia dos Santos Pinto, Maria da Conceição Lemos, Maura Mascarenhas, Raimunda Argemiro, Regina Martins, Rogeânia Dias, Stela Rocha, Virgínia Boa Morte, Zeza Andrade… E por aí vai… Ufa! Daria um dicionário e tanto!

Mencionadas aqui ou não, as mulheres curvelanas fazem a diferença na mídia. Vem especialmente delas aquele toque de sensibilidade para mostrar, mesmo em coberturas de tragédias – como vemos agora na pandemia da covid-19 –, o descortino de horizontes de esperança, amor, solidariedade e paz.

*Newton Vieira é ensaísta, jornalista e poeta. Pertence a várias instituições culturais, dentre elas a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG) e a Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências ALPAS 21. Durante 10 anos, manteve coluna jornalística com dicas de Português. Em 2018, na Feira do Livro de Porto Alegre, recebeu a “Comenda Personalidade Literária Internacional”. Detém prêmios conquistados no Brasil e no exterior, Além dos livros publicados individualmente, figura em dezenas de antologias, como a “Écrivains Contemporains du Minas Gerais”, lançada no Salão do Livro de Paris 2012.