O rio do esquecimento

Contam que uma legião romana, desbravando a Ibéria rumo à Galia, deteve-se diante de um calmo e caudaloso rio, hoje conhecido como Lima. Os soldados temiam que aquele fosse o mítico Rio Lethes, o rio do esquecimento, que tinha o poder de apagar a memória dos que se aventuravam em suas águas. Os legionários se recusaram a atravessar aquele rio, porque não queriam esquecer sua terra, sua cultura, sua família. Negavam-se a apagar sua história, ao contrário daqueles que, hoje, cultuam a tecla Delete e cultivam o poder do Cancelamento.
Sério? Quem são esses exterminadores do passado?


São os governos que apagam as fotos e mandam destruir as imagens dos adversários vencidos, reduzindo a História à sua versão oficial. É aquela imprensa que informa seletivamente, ignorando, como se não existissem, acontecimentos, personagens e opiniões que divergem de sua versão do real. São aqueles grupos de pessoas que negam fatos comprovados como o holocausto ou os crimes da ditadura militar, movidos por interesses políticos. Há aqueles que atuam como o bombeiro lança-chamas da distopia “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury*: certos livros devem ser proibidos e queimados. Outros não chegam a tanto, mas defendem uma intervenção cirúrgica em obras literárias: como fez a secretaria de alfabetização do MEC, ao encomendar versões pasteurizadas dos contos de fadas, numa reescrita que substituísse o mal pelo bem. Mais ou menos como se um concílio das Igrejas determinasse uma versão light do Gênesis, dando um final feliz à história de Abel e Caim. Episódios recentes também envolveram intervenções em obras de Monteiro Lobato, no sentido de apagar ideias racistas que aparecem implícita ou explicitamente em alguns de seus textos.


A questão é: onde vamos chegar se lavarmos nas águas do Lethes as marcas de nossa humanidade? Será que reconheceremos nossa face, se o espelho chapa-branca nos devolver uma imagem maquiada, um retrato retocado de nossa condição? Será que negaremos nossa caminhada histórica, feita de quedas e levantes, voltas e reviravoltas, mortes e ressureições, nesse “caminho da gente resvaloso”, como diz Guimarães Rosa? Vale a pena camuflar os problemas que se revelam nas obras, ao invés de discuti-los, situando-os em seu contexto histórico?
E ainda: vale a pena deletar os fatos e os personagens que deixaram marcas no enredo de nossas vidas?
Comentando a recente decisão com que o STF negou a licença ao esquecimento pleiteado por familiares de Aída Cury, jovem brutalmente assassinada nos anos 50, o jurista Oscar Vilhena Vieira afirma: “Só poderemos bradar nunca mais se as atrocidades do passado jamais puderem ser suprimidas ou esquecidas”.


Afonso Guerra-Baião
*BRADBURY, Ray [1920-2012]. Fahrenheit 451: a temperatura na qual o papel do livro pega fogo e queima. Trad.Cid Knipel; 3.ed., SP:Globo,2020