A poltrona de Crusoé

Todo leitor é um Robinson Crusoé de poltrona, disse Albert Manguel no delicioso livro “O Leitor como Metáfora”, em que o sujeito do ato de ler é objeto de três comparações. Na primeira delas, o leitor aparece como um viajante: aquele que percorre as sendas das palavras, das frases, das páginas de um livro, não para fugir do mundo, mas para redescobri-lo com novo olhar, através da mediação do texto. Na segunda comparação, o leitor se fecha em uma torre, como os monges nas bibliotecas medievais, que Tomás de Aquino via como espaço de melhor reflexão sobre o mundo, não como lugar de fuga e alheamento. Por fim, aquele que viaja num livro é como uma traça que devora suas páginas. Diz Albert Manguel: “Somos criaturas leitoras, ingerimos palavras, somos feitos de palavras, sabemos que palavras são nosso meio de estar no mundo, e é através das palavras que identificamos nossa realidade e por meio de palavras somos, nós mesmos, identificados”.


O necessário isolamento exigido pelo combate à pandemia do corona vírus, pode ser boa oportunidade para liberarmos nosso lado viajante, como um Crusoé a explorar a ilha de um livro; ou darmos vazão à nossa porção traça, devorando as palavras, as linhas, os capítulos de um texto que espera por nós na babélica prateleira de uma biblioteca.
Se algum leitor desprevenido precisar de um palpite, vou deixar aqui a indicação de três livros, todos abordando viagens aventureiras, todos narrados de modo a conduzir o leitor numa experiência vertiginosa de leitura.

O primeiro deles vai nos transportar do tempo presente ao começo do século XX, nos últimos anos da monarquia em Portugal. O espaço a que somos abduzidos pela narração é o pequeno arquipélago de São Tomé e Príncipe, então colônia portuguesa na costa ocidental da África. Esse espaço, que deveria ser o paraíso, torna-se a prisão dos angolanos traficados para lá trabalharem como escravos nas lavouras de cacau; espaço que conduz do céu ao inferno o protagonista, Luís Bernardo, bacharel lisboeta, nomeado governador, com a missão de fazer um trabalho “para inglês ver”: mascarar a prática escravagista, a fim de evitar sanções para as empresas cacaueiras portuguesas na guerra comercial com a Inglaterra. O inconformismo do jovem governador e a turbulência de sua vida amorosa desencadeiam o drama de seu percurso narrativo. Para evitar o spoiler, apenas recomendo, aqui, a leitura de “Equador” (Companhia das Letras, 2011), de Miguel Sousa Tavares.


Minha segunda indicação é a “Antologia da Literatura Fantástica” (Companhia das Letras, 2019), de Jorge Luís Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo. Nesta obra conjunta, os três mestres escolhem para nós 75 histórias de ficção fantástica, obras que vão de autores clássicos como Swedenborg, Rabelais e Maupassant, até modernos como Akutagawa, Cortázar, Kafka, Cocteau, Joyce, passando por contos da tradição oriental, além de textos dos próprios organizadores. No prefácio desta antologia, marcada por um modo diferente de figurar o real, podemos ler: “A nossa sociedade – global, multilinguística, imensamente irracional – talvez só possa descrever a si mesma com a linguagem intuitiva da fantasia”: palavras da escritora Ursula K. Le Guin, cuja obra de ficção fantástica merece uma conversa à parte.


Para encerrar, uma obra-prima de Henning Mankell, escritor sueco de romances policiais, recentemente falecido: “O Homem de Beijing” (Companhia das Letras, 2011). O tráfico e a exploração de mão de obra escrava na construção de uma ferrovia nos Estados Unidos, no século XIX, é o remoto motivo do assassinato de dezenove pessoas numa aldeia sueca, nos dias atuais. Passando pelos quatro continentes, a trama de “O Homem de Beijing” vai além das convenções do gênero policial, conduzindo a uma rede de referências históricas e a um painel de conexões culturais e geopolíticas. Vamos viajar?


Afonso Guerra-Baião